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“A filha perdida”: filme e livro

  Há dias venho adiando o momento de escrever sobre o filme “A filha perdida”, de Maggie Gyllenhaal, não sei exatamente por que, se porque evitei o quanto pude assistir à adaptação por algum receio qualquer; ou se porque impus a mim mesmo um tempo razoável entre ter visto o filme e revê-lo criticamente, de modo a deixá-lo repousar, decantando, e assim poder ser mais justo com uma obra que, embora seja próxima daquela da qual extrai seus elementos, também se afasta, e esse afastamento é menor ou maior em momentos diferentes do filme, com resultados diferentes dos obtidos no livro. Creio que há duas maneiras, grosso modo, de olhar para o longa: como obra autônoma que é, deixando de lado o fato de que exista um romance no qual se origina; e como peça adaptada de uma outra. Uma terceira possibilidade, que tento colocar em prática mas fracasso, é vê-lo num lugar entre esses dois, reconhecendo-lhe méritos, mas apontando o que, para mim, são insuficiências, não sei se da adaptação em si o...

Stanley way of life

  De tempos em tempos, um item, seja de vestuário, seja de acessório, passa a comportar em si uma ideia de status social, de estilo de vida, de privilégio, indicando origem ou servindo como senha de acesso aos aspirantes a certo mundo de bem-nascidos. Me parece que é o caso do copo Stanley. Fui apresentado ao artefato numa conversa com um colega jornalista, que me disse que a moda agora era portar o próprio copo aonde quer que se fosse, academia ou festa, ida à praia ou ao shopping, supermercado ou areia do beach tênis. Qualquer que seja o ambiente, ele me contou com ar de estupefação, o copo é não apenas bem-vindo, mas obrigatório entre certos grupos mais preocupados em exibir os códigos da classe. Supus que fosse exagero, mas passei a observar mais atentamente por onde andava. Não deu outra: lá estava o dito-cujo a tiracolo, qual um adereço, uma corrente, uma sandália metida a besta ou uma pochete. Robusto, lembra ao longe uma espécie de SUV do mundo dos copos, um 4x4 cuja engen...

Palavras pra riscar de 2022

  Tenho uma lista de palavras sem as quais a vida talvez seja mais fácil, mais agradável, menos azeda e repetitiva. Em bom cearensês, são termos que já estão fubá, como aquela camisa comprada dois anos atrás e cuja gola se afolozou rapidamente, a manga enviesada que não presta mais. Ou aquela calça de elástico morto, cor de burro quando foge, como dizia a vó. Enfim, um léxico já usado e abusado, seja porque recorremos muito a essas palavras, seja porque, por preguiça mesmo, porque procurar palavras novas é uma tarefa e tanto, a gente se cansou e ficou dando voltas em torno do mesmo sentido, cavando um buraco nas palavras e delas extraindo até a última gota de significado. Daí que resiliência, que já era antiga e gasta em 2016, hoje não tenha quase nada a dizer, salvo em frases feitas ou clichês de propaganda de banco. E reparem que a publicidade de bancos são os cemitérios das palavras. Quando alguma delas figura numa peça com uma menininha e uma atriz consagrada, por exemplo, é po...

BBB

  Chego atrasado à polêmica na qual, em pleno 2021, um ator jovem e talentoso se manifesta publicamente emitindo juízo negativo sobre programa de TV popular, como se ninguém soubesse, quem o assiste ou não assiste, que o programa é: a) popular e b) medíocre ao mesmo tempo. Como réplica, um ex-apresentador do dito programa faz saber que a atração paga o salário do ator, numa demonstração pública e sem filtro do que rege estritamente as relações numa empresa: hierarquia, dinheiro, obediência, cadeia na qual o ator está numa posição mais abaixo e o ex-apresentador, sendo quem é e filho de quem é, está numa posição bem mais acima. E nenhuma dessas informações contextuais pode ser ignorada no referido diálogo ou troca de mensagens entre eles. Donde se conclui que, se o programa provém o sustento do ator, mesmo que indiretamente, criticá-lo agressivamente (o cara chamou o programa de “bosta”) é inadequado, segundo o ex-apresentador, que, sendo quem é e filho de quem é, obviamente não diz...

Chamada de Birigui

Tenho pra mim (expressão consagrada pelo pai sobre a qual devo escrever em algum momento) que essas ligações todas que recebemos com DDD de São Paulo, isso não é boa coisa. Outro dia foi de Birigui, palavra-cidade que só lembro de ter ouvido na boca do Silvio Santos, naquele programa de casais, o Namoro na TV. Faz tempo. Era coisa constrangedora, mas muito divertida. Os homens e mulheres se postavam em lados opostos, enfileirados, já de antemão mirando-se de esguelha. Munidos de binóculos, confirmavam depois as impressões iniciais, se os pretendentes eram de fato bonitos ou se havia sido apenas um engano, como acontece ainda hoje, quando a presença real não bate com a imagem projetada pelo dito-cujo nas redes sociais. Seguia-se então o baile, durante o qual os interessados papeavam e até arriscavam um beijo. E, ao cabo da dança, o veredicto, que era proferido sempre pela mulher: sim, quero namorar, não, não quero namorar, e o rapaz ali, com cara de tacho, como dizia minha vó, que não ...

É Natal

  Que esquisito chegar ao final de 2021, algo como correr uma maratona cujo fim não se divisava até outro dia, a fita de chegada sempre afastada a cada metro vencido, como naquele desenho animado em que o coiote tenta capturar a ave muito veloz e nunca a alcança. Assim foi o ano. Não que tenha corrido, pelo contrário, foi devagar, diria que sadicamente lento, impondo cada segundo e cada minuto com prazer cruel, saboreando o andamento interminável dos 365 dias. Os meses de janeiro a março, o que se fez deles? Não tenho ideia. O início do ano já perdido no tempo, sabe-se lá onde a gente estava naquele 1º de janeiro, se em casa ou entre gôndolas de supermercado reabastecendo a geladeira de bebida para aguentar a temporada. E o que dizer de abril e maio, também espiralados em algum buraco negro do calendário, engolidos pela força da voragem, tragados por algum desarranjo zodiacal? De junho a setembro, lembro apenas que fui envelhecendo e, nessa cadência, decidi mudar certos hábitos ali...

Ponto da moda

De tempos em tempos, uma modalidade esportiva ganha os corações e mentes do fortalezense, deles fazendo morada por meses, até que, de repente, não mais que de repente, o amor acaba. Agora é a vez do beach tênis, que sucedeu ao stand up paddle no gosto da mocidade nativa. Uns dois anos atrás, se alguém quisesse saber quem estava livre na cidade, bastava olhar pra orla. O stand up paddle era a primeira atividade a que o recém-solteiro se dedicava com afinco, de modo a se reconectar com esse ambiente de sol e mar e também acenar para sua audiência que ele ou ela estava dando sopa ali. Com o beach tênis ocorre algo semelhante, mas com alcance maior, evidentemente, extrapolando o caráter afetivo e simbólico, sem perder esse ar de corrente social que se transmite entre as classes média e alta, como uma gripe ou frieira que só acomete quem mora do Dionísio Torres pra lá. Tal dia, todo mundo decidiu comprar uma raquete especial, que custa uns bons dinheiros, e partiu rumo à praia ou, como me d...