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Mostrando postagens de outubro 11, 2013

Planeta ao léu

Há horas venho pensando nesse planeta perdido no espaço. O mais miserável do universo, imagino, para logo depois corrigir: há sempre alguém em situação pior, seja você um planeta ou uma cuia de chimarrão. Um planeta-vagão esbarrando no que sobra dos cometas, também restos de outras colisões. Não possui uma única estrela a que se agarrar, enroscando seu campo gravitacional ao dela. Não tem um cinturão de asteroides a circundá-lo. Sequer uma lua para usar como brinco. É o verdadeiro Melancolia, eternamente azul e solitário. Um trem fantasma gasoso com seis vezes o tamanho de Júpiter.  Pobre animal celeste. Destituído de sistema, satélite artificial e sondas preparadas por inteligência humana. Uma existência sem propósito mais nobre senão o de boiar no vazio pelo tempo que os deuses julgarem necessário. Um vetor a serviço da inércia. Uma materialidade arruinada. Um desperdício químico. Há dias em que a gente se surpreende com a alma avinagrada. Uma vontade imensa de chor

Cigarros

Já nem digo: parei de fumar. Digo apenas: fumo há uma semana, a carteira esvazia-se, tento não combinar cigarro e bebida, estabeleço intervalos maiores entre um cigarro e outro, elejo horas do dia em que saio para fumar. No fim da tarde. Depois do almoço. Na saída do trabalho, enquanto caminho. Após o sexo: um clichê verdadeiramente prazeroso.     É um avanço medicar-se com doses homeopáticas da própria doença, que, espera-se, vá desaparecendo aos poucos, até finalmente sumir. Existe, mas não está. Sem o imperativo da proibição, parte do desejo se esvai. Com o cigarro não é diferente. Ele está lá, ao alcance da mão, sobre o tampo da mesa, entre um pacote intacto de Bis e um cesto de pães. Perto da sanduicheira. Ao lado da garrafa do café. Entre livros. Cabem muitos objetos em cima da geladeira, e um deles é a caixinha branca contento duas fileiras de cigarros. É um objeto da casa, portanto. É desejado. A casa comporta tantos desejos. Nem me atrevo a listá-los por medo

Uma forma

Não era falta de tempo, nem engasgo. Era um susto qualquer. Ia passando e de trás da árvore saltou uma forma. Nem homem nem bicho. Uma sombra pavorosa me deixou com medo. Fragilizado, continuei andando, mas só por costume. Queria parar, mas parar pedia coragem. Quis correr – correr não estava ao alcance. Segui andando. Fui aplaudido como se aplaudem os moribundos a lutar contra o câncer. Atribuímos coragem a quem apenas se move. Dizemos forte a quem quer se entregar. Enxergamos beleza em quem se limita à ruína. Tomamos o falso por verdadeiro como se estivéssemos imbuídos de algum sentido missionário. Precisamos acreditar. E acreditamos. Não importam os sinais. Fui em frente. Contrastava dentro e fora. Não aceitava que o dentro não combinasse com o fora. Exasperava. Ninguém reparava. Intimamente, porém, esse desacordo me aborrecia. Passei por outra sombra.   Pensei comigo: a gente sorri e acena e abraça. Sem levantar suspeitas do temor que carrega. Do pior. Do tanto de cois

A CONFRARIA DOS CORNOS QUER VOCÊ*

Acima, o presidente da entidade, José Adauto Caetano  Para que a linhagem  dos  homens traí dos  não tenha fechado um lugar de afeto e partilha de sentimentos, a  Associação  Brasileira  dos   Cornos  (ABC), sem auxílio de edital, está à procura de cidadão que possa presidir a única entidade no País a amparar chifrudos. Henrique Araújo henriquearaujo@opovo.com Não causa surpresa que, na vida de qualquer pessoa, haja um momento incontornável: a hora de parar. Por que seria diferente com o sexagenário José Adauto Caetano, pai de 18 filhos, marido traído por sete das oito mulheres para as quais entregou seu coração sofredor? Presidente da  Associação  Brasileira  dos   Cornos  (ABC) desde o surgimento da entidade, em 1999, Adauto está decidido: quer encerrar a carreira. Encheu-se de amparar farrapos de homens esmagados pela dor na quina do juízo. Chega de servir de guarida a almas eternamente arruinadas, que amolecem feito pudim quando começam a ouvir um LP antigo do Rob