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Mostrando postagens de outubro 9, 2011

Presente em fim de tarde (passeio III)

De repente sorriso na esquina da Heráclito Graça com outra rua que não lembro, mas lembro do sorriso e do que o antecedeu, olhando-a na cadeira de rodas, num canto da ampla área de recreação do condomínio de apartamentos antigos, cada morador mais velho que os baobás todos juntos. Era uma senhora, é uma senhora, sobre isso não resta dúvida. Anda na cadeira de rodas, mas estava parada, e sorria esticando o olhar em direção ao outro lado da avenida, imaginei prontamente. Pretende quem sabe tentar alcançar aquele tempo antigo, mocidade, normalistas retornando da escola, namoricos, mãos que se esfregam à sorte dos movimentos, em seguida casamento, filhos, a viuvez repentina, a vida antes e depois do acidente? Todavia pode não ser, não ter sido, nem vir a ser nada daquilo. E fomos em frente, sempre teorizando acerca, sempre conjecturando um mil e um modos para a mulher na cadeira de rodas que fixara no rosto o sorriso e dele não se desgarrava nem por morte ou doença e somente à noss

Parede com retrato (passeio II)

No caminho há tanta coisa que, quando menos se espera, caminhar torna-se exatamente seu oposto, que é não caminhar, de tanto que se para a cada passo dado, de tanto que se olha por entre janela e porta e brecha de portão, bem mais que desníveis de rua e irregularidades de calçada. A vida alheia, vida dos outros, vida de quem não se imagina semelhante, proximidade de meia parede, parede e meia, então é o susto um susto? É o susto, do susto se vive boa parte do tempo e ainda bem que é assim do contrário, vejam só, em não havendo o susto, aquela casa do lado da sombra toda repleta de porta-retratos, ela disse é desse jeito que é na casa da mãe, ela gosta de espalhar retratos da gente quando éramos todos pequenos e brincávamos juntos no quintal, na área, em qualquer lugar que fosse, esses retratos estão por todo canto, a evolução de uma franja aparada, a permanência das covas no sorriso, a emergência de um nariz mais arredondado, a altura ganha dos 11 aos 14 que, de repente, estaca.

Nem Ele, nem eu (passeio I)

De repente, felicidade é o corredor bem vazio pronto pra caminhar indo e voltando sem interferências? É a chave que sai fácil do bolso da calça ligeiramente apertada? É o dinheiro da passagem certinho pulando da carteira diretamente pras mãos estendidas do cobrador do ônibus? Felicidade é o quê? Uma lua, uma ponte, o vento, as pernas dançando paradas enquanto a cabeça perde seu centro gravitacional e rodopia e rodopia ao lado de outra cabeça? Deus não saberia dizer, essa é que é a verdade luminosa, Ele não saberia nem por um segundo, de bate pronto, à queima roupa, responder com exatidão o que é a felicidade. Tampouco eu. Mas arrisco. É a felicidade um par de sandálias deixado pra trás, cabelo no ralo do banheiro, é a felicidade os fascículos que se vai juntando não pra si, nunca pra si, mas para que outro venha e diga que bom que estão todos aqui. Menos o três, menos o três, que pena. E só há tempo que você diga não tem problema, o três eu consigo rapidinho. E sai em dispara