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Mostrando postagens de junho 30, 2020

Rascunho

Tinha anotado ideias da viagem, coisas ligeiras como essas paisagens que vemos passar no deslocamento acelerado do carro numa estrada, a vista sempre firmada no horizonte. E talvez fosse isso mesmo o que tivesse a dizer, de repente a permanência nesse estado houvesse feito entender que, por seis ou sete horas, tudo que havia era o ponto logo à frente, como se vivesse de futuro, nunca de presente ou passado. Fixava uma árvore, uma ave, uma mancha no asfalto irregular, e daí tudo se tornava antigo em poucos segundos, como numa máquina do tempo. Às vezes, porém, se destaca o rosto num alpendre, uma rede estirada sem presença, um terreiro enfeitado com bandeirinhas coloridas. Uma festa sem festa na cidade sob a ameaça invisível da doença. E aí chego a essa praça. Poucas cadeiras em redor, no topo da torre da igreja um alto-falante transmitindo a voz mansa do padre da região. Depois mais estrada. Cansaço. As pernas esticadas e quase dormentes, a fome que chega aos bocados, como ondas. Eram

A passagem da água

O presidente passou rente às casas à beira do canal que transportaria água até Fortaleza, residências de súbito esvaziadas porque a dois metros da calçada já era território do comboio, batedores militares à frente. Um dia antes, um grupo estivera ali. Puseram tudo em revista, estudaram cada pequeno cômodo, traçaram linhas no chão vermelho de terra, delimitaram por onde estavam autorizados a circular, sempre munidos de documentos que os identificassem corretamente, de modo que a entrada naquele mundo que conheciam tão bem fosse permitida. Depois partiram. Naquela noite Antônia não dormiu, e, quando finalmente pegou no sono, sonhou que encontrava a filha natimorta e juntas tomavam banho de açude na casa da tia em Coreaú. Mas nem Elena existia, tampouco a tia, que morrera após agravamento do diabetes. Na cidade haviam restado poucos da família: Elisabeth, Elisângela e Eliete, tudo parte da mesma cumeeira de uma linhagem que se apagava aos poucos. Mas então acordou. Engoliu em seco o vento