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Mostrando postagens de dezembro 30, 2025

Irresoluções de ano novo

  A dúvida: fazer planos ou não, estabelecer metas ou não? Simplesmente deixar correrem os dias, sem previamente demarcá-los com um asterisco na agenda, apontamentos que levem a tarefas programadas desde já, com a antecedência dos precavidos? Ou adotar de vez um modo free style de vivência, randômico por natureza, desobrigado dessa coisa maçante que é cobrir todas as horas úteis e inúteis com pretensões e expectativas, arrumá-las na estante antes que cheguem a alguma gaveta? Escolher um meio termo, ou seja, inscrever como compromisso apenas o essencial, deixando margem para que o contingente se infiltre e eventualmente desorganize e eroda toda essa linearidade pressuposta no andamento das rotinas? Antes de decidir, quis revisitar as anotações do ano passado, que já eram em alguma medida reedições acumuladas da temporada anterior, também elas recombinações de naufrágios de muito tempo atrás, mas não sei onde estão. Eu as perdi, certamente. É possível, no entanto, que as tenha cumpri...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...

Trecho

  O quadro só se extingue depois de uma consulta ao aparelho, mesmo que não haja nada para se ver ali, já que apenas um minuto ou dois atrás você tinha verificado e descartado a existência de qualquer notificação, de modo que, nesse ínterim, nada de novo havia se produzido, pelo contrário, tudo era mais do mesmo, dentro e fora do celular, exatamente porque não houvera tempo para que o que quer que fosse tivesse acontecido, e sem tempo as coisas de fato seguem iguais no mundo, uma vez que uma das condições para uma alteração significativa na qualidade dos objetos que se deterioram e dos seres que se estragam é essa passagem entre as horas e os dias e os anos, ou seja, o acúmulo de tempo, ou o tempo perdido, mas talvez seja isso que a consulta sistemática ao aparelho a cada cinco minutos ou menos pretenda evitar. Me refiro à extinção do tempo, não sua detecção patológica e reiterada, mas sua suspensão maníaca pela checagem permanente, afinal o tempo de fato se relativizaria se a maté...

Caldo de ossos

Trata-se de pedaços de coisas que acumulei ao longo do ano, fragmentos escritos e depois abandonados, trechos de crônicas abortadas. Toda sorte de ideias e títulos de contos ou de novelas que jamais passarão disso, talvez porque goste da sensação de produzir esses começos sem que exijam de mim qualquer compromisso, sem que tenha com eles essa relacao possessiva ou de cuidado extremo, de maneira que não me preocupe se irão morrer por falta d’água ou de comida. Estão no mundo assim, falhos, e assim devem se virar, com suas metades faltantes. E então, ao final, eu retorno e lanço um olhar que não é nunca de tristeza, mas de alguém que pelo menos remotamente pretende ordenar tudo aquilo? Não sei. Acho que esse restolho é curioso, às vezes bonito. Tarde da noite, quando me volto e enxergo numa passagem um fiapo de luminosidade, não digo de elaboração nem de exemplo de uma prosa exuberante nem inventiva, mas de algo que carrega uma ideia – chamarei assim porque não posso agora, depois de um ...

Resoluções

  Tenho evitado resoluções de ano novo, mas estranhamente isso tem soado como resolução de ano novo, de modo que a determinação de não se conduzir por qualquer diretriz, mesmo indeterminada, acaba ganhando ares resolutivos, o que contraria minha intenção irresoluta e estabelece um paradoxo com o qual não gostaria de começar 2026. Qual paradoxo? O de traçar objetivos ou metas sem desejar de fato alcançá-las, e até eventualmente alcançando-as, mas sem dar por mim, o que não seria o mesmo que atingi-las. Afinal, é preciso algum grau de consciência do percurso, e não apenas consciência, mas de desejabilidade. Dito isso, admito que, se fosse escrever uma resolução, e não estou dizendo que escreveria, apenas que se fosse escrever seria a de não ensaiar qualquer tipo de lista. Sobretudo não enumerar razões pelas quais escrever ou indicar leituras ou sugerir filmes e séries, embora seja um consumidor voraz tanto de livros quanto de séries e mais ainda de livros sobre listas e listas sobre ...

Listas

  Há por toda parte listas de tipos variados, de filmes a livros, de séries a episódios embaraçosos de 2025, ano por si esquisito e marcado por eventos cuja variedade eu não ousaria tentar sintetizar, talvez por me considerar insuficientemente dotado para essa tarefa. Eu vejo essas listagens e me sinto desalentado, claro, porque não li a metade da pilha de livros que imaginei que teria condições de ler e também porque, na verdade, não vi os 365 dias passarem, salvo quando houve esses momentos de atropelo ou de grande comoção, nos quais as rotinas se estancam e todos se entreolham mais ou menos espantados, mesmerizados mesmo. Não lembro de tantos momentos assim, para ser sincero, mas a sensação que fica é a de esgotamento e excesso, embora não consiga situar com precisão a origem desse sentimento de que as forças se exauriram aos poucos até chegar ao volume morto, numa lenta saturação da qual não fui capaz de escapar, como uma colisão premeditada. Talvez esteja na água, não sei, tal...

A última do ano

  Pensei no que escrever, em listar razões pelas quais escrever sem necessariamente recorrer a listas de melhores, tampouco de piores do ano, mas resisti ao impulso de enumerar motivos, o que em tese seria um motivo. Agora mesmo escuto apenas o barulho do esguicho do sistema hídrico acionado mecanicamente a intervalos para regar as palmeiras espaçadas no jardim projetado por um engenheiro mais de uma década atrás, quando os fundamentos da obra se assentaram e logo um exército de trabalhadores começou a forcejar para erguer o prédio no tempo calculado. O tempo certo para a conclusão da obra, cumprindo etapas previstas e contornando intercorrências já previamente anunciadas lá atrás, tudo perfeitamente dentro do que se havia estabelecido como o plano de operação. O edifício no lugar vazio onde antes se espremia um punhado de casas pequenas semiconservadas cuja fachada variava entre o azul, o amarelo e o branco, cores de intensa capacidade reflexiva e que devolvem rapidamente o olha...

Delírios de pequeneza

  Minha palavra do ano é “prompt”. Tenho dificuldades para entendê-la, me recuso a abrir uma aba do navegador (como fiz agorinha), digitar letra por letra e apreender a extensão do uso de um termo não apenas feio, mas impalpável e seco. Não quero aceitar que os usuários tenham de bom grado admitido seu emprego largo no dia a dia, sem cerimônia, sem atinar para o estrago que uma única construção sintagmática desarmônica opera na vida de toda uma aldeia já desgraciosa e descalça. Sou um negacionista do prompt, é verdade. Um ludista da língua que não tolera que o vocábulo tenha se estabelecido tão facilmente entre nós. Sem encontrar resistência, como o herói romântico colonizador alencarino, aclimatou-se à sazonalidade matuta, já tropicalizado e perfeitamente incorporado ao cotidiano da última flor do lácio. Bodejado nas esquinas do Benfica e sussurrado com reverência nas borracharias da José Bastos, figurando como pingente luzidio no fraseado do caixa do atacadão de Messejana e nas s...