Pular para o conteúdo principal

Resoluções

 

Tenho evitado resoluções de ano novo, mas estranhamente isso tem soado como resolução de ano novo, de modo que a determinação de não se conduzir por qualquer diretriz, mesmo indeterminada, acaba ganhando ares resolutivos, o que contraria minha intenção irresoluta e estabelece um paradoxo com o qual não gostaria de começar 2026.

Qual paradoxo? O de traçar objetivos ou metas sem desejar de fato alcançá-las, e até eventualmente alcançando-as, mas sem dar por mim, o que não seria o mesmo que atingi-las. Afinal, é preciso algum grau de consciência do percurso, e não apenas consciência, mas de desejabilidade.

Dito isso, admito que, se fosse escrever uma resolução, e não estou dizendo que escreveria, apenas que se fosse escrever seria a de não ensaiar qualquer tipo de lista.

Sobretudo não enumerar razões pelas quais escrever ou indicar leituras ou sugerir filmes e séries, embora seja um consumidor voraz tanto de livros quanto de séries e mais ainda de livros sobre listas e listas sobre livros e séries, ou seja, séries de listas, que se multiplicam agora que todos estão no Substack confeccionando suas próprias listas.

Arrisco a dizer que leio mais hoje orelhas e textos introdutórios do que propriamente as leituras que deveria ler, mas quero enterrar isso em 2025, isto é, o fato de que o tempo escasseou de vez e agora só tenho fatias ralas cobertas com pouca manteiga, com as quais preciso me virar, e é o que tenho feito, devorar essas fatias finas, prolongando o ato por si.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...