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Mostrando postagens de outubro 25, 2021

Round 6 made in Ceará

  Não é exagero dizer que a infância de qualquer cearense na periferia de Fortaleza nos idos dos 1990 se aproximou em alguma medida da série Round 6. Não digo que houvesse disputa feroz cujo desfecho era a morte, mas quem brincou de polícia e ladrão, bandeira, pau de fogo e outras estripulias sabe o quanto a sua integridade física estava em risco assim que punha os pés na rua. Que, por si só, já representava um perigo: mal calçamentada, cheia de desníveis, esgoto correndo livre, com pedras expostas nas quais deixávamos uma banda do dedão jogando bola ou parte do joelho depois de cair e esfolar a perna, salgada com mertiolate a gosto do sadismo materno ou paterno. Quantas vezes não levei surra da mãe depois de apanhar numa disputa de bandeira ou de pau de fogo, quando voltava com os pulsos vermelhos das vergastadas que recebia após perder rodadas sucessivas e ficar com o braço dormente e inchado, com marcas que levavam tempo para se apagar. Não era bonito nem saudável, mas era o qu

O mar começa aqui

  “O mar começa aqui”, leio a inscrição enquanto olho pro chão, uma tampa de esgoto que alerta para o que não está ali, uma advertência sem nome ao passante que eventualmente deseje se desfazer de algum pertence, um objeto, uma carteira ou papel rasgado, uma garrafa plástica ou qualquer outra coisa. De modo que, ao se voltar pra baixo, ele ou ela se depara com a frase: o mar começa aqui, e aqui significa que o esgoto é também mar. O dejeto é carregado para além por esse fluxo e chega ao outro lado, atravessa uma parte da cidade, ganha volume ao encontrar outros veios com matéria orgânica descartada e finalmente atinge o ponto depois do qual o horizonte se abre inteiramente, e o que é resto se dilui na massa salgada. O mar começa aqui é menos um aviso do que um convite.