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Mostrando postagens de setembro 14, 2021

Barthes morreu

  Outro livro começa: Roland Barthes morreu em 26 de março de 1980. É um fato incontornável. Barthes morreu. A data registrada do óbito é a indicada na página: 26 de março. O ano é 1980. Não há que se discutir. Não existe mistério, tampouco duplo ou triplo sentido. Qualquer jogo de palavras. Mesmo para um estruturalista, linguista, apaixonado, um escritor, um esteta, tudo que se queira dizer de Barthes, inexiste complexidade na sentença que se anuncia. Morreu pouco menos de três meses antes de eu nascer. Isso não tem importância também. Cito apenas porque, para calcular esse intervalo entre março e junho, precisei me concentrar e contar nos dedos. Tenho feito isso sempre que a realidade escapa. Apelo aos dedos, estiro todos os da mão e começo a contar, como se retornasse ao infantil, ao maternal, ao primórdio, esse mesmo tempo do qual minha filha agora vai se despedindo, porque já não precisa do auxílio das mãos para fazer suas operações matemáticas. Usa a cabeça, as ideias, reproduz

Bar do hotel

  Começo o livro: uma mulher estava sentada no bar do hotel... Não tenho paciência para continuar, sabe-se lá por quê. Quer dizer, acho que sei. Está na cara que essa mulher não existe, esse bar não existe, esse hotel não existe. Nada na frase “uma mulher estava sentada no bar do hotel” existe de fato. Tudo inventado, e não que isso seja um problema. Não é. O problema do problema é a parte calculada. Logo imagino todos os passos da construção da personagem, quem é a mulher, o que faz, seus motivos, se os tem explicitados ou se os carrega no bolso, disfarçados como papel de bombom. Amassados e levados aonde vá. A mulher no bar do hotel é impalpável. Tenho preguiça de acompanhá-la porque sei que não está lá, é uma mentira, um artifício, a mão exposta de quem conta a história. A atitude de quem se põe a contar a história já causando, de partida, um certo fastio. Interrompo, vou dormir. Não quero dormir. Pego outro livro, mas ler também está fora de cogitação. Escrevo, mas em seguida ras