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Mostrando postagens de outubro 15, 2009

O NÃO-DOENTE

Ora, ora, querem saber de quem se trata? Y. é um estudante metade judeu, metade palestino, nascido na França mas culturalmente educado nos Estados Unidos – acertou quem pensou em Pittsburgh. Tem a pele morena, pernas cambaleantes e cabelos encaracolados, óculos de lentes e aro grossos. Veste-se quase sempre com camisas de flanela quadriculadas, calça leve, sapatos brancos, sem mais adereços além dos olhos esbugalhados. Não é exatamente um dândi – quem o conhece sabe que não. Vive em Fortaleza há pelo menos 21 anos. É ilustrador, desenhista, escritor, viciado, insone, vândalo, desocupado. Abriga uma MOLÉSTIA INOMINADA cujo tratamento é dificultado precisamente porque a MOLÉSTIA É INOMINADA. E isso quer dizer: Y. tem ataques freqüentes que o sacodem por 1h20min32segundos. Fosse epiléptico, teria alguma chance de viver por certo período de tempo. Fosse. SUA DOENÇA É INCOGNOSCÍVEL. Não está catalogada nos manuais clínicos. Pronto, falei. Espero que possam identificá-lo na rua depois desse

Notícias do cacto

Depois de se fingir de morto – cobriu-se de um “verde IJF” dos pés à cabeça -, o cacto revive. Eu o salvei, me felicito sempre que passo no corredor e enquanto sou acalmado pelas ondas que quebram a alguns metros da minha janela vejo suas pernas e braços esverdeando-se lenta mas firmemente, lenta mas alegremente soa bem melhor que qualquer outra coisa. Tem um broto nascendo-lhe junto aos pés. Um broto bem verde. O miolo também parece bem saudável quando noto espalhar-se numa medida convicta. Andorinha, nosso cacto vive. Se ainda tivesse celular, se ainda tivesse carteira também, faria inúmeras fotos do cacto e diria veja, ele está a salvo, sua saúde é de ferro, parecia demente, parecia incurável, parecia para sempre haver embarcado em uma nau clarineta com destino certo ao inferno dos cactos porque para cactos, alguém disse, mesmo o céu espinhoso é infernal. E agora vai viver mais tempo que você e eu.

Dias realmente assim ou o Grande Gamer

Tem dias em que a gente acorda, serve-se de café como de costume e sai para trabalhar mas de algum modo estranho, de algum modo perversamente inusitado permanece atrelado ao dormitório, e nosso corpo finge desconhecer a preguiça comportando-se como um jovem rebelde cujos pais o cobrem de presentes a cada final de ano embora ele sempre se recuse a aceitar afirmando cheio dessa novidade que é a consciência política, afirmando EU não posso, os hutus estão destruindo os tutsis, e é somente nesse ponto que seus pais entendem, como o cérebro entende os caprichos do corpo, eles entendem que o filho pode seguir em frente porque a adolescência, essa doença, um dia passará e não deixará marcas senão aquelas absolutamente necessárias, como o susto que se segue ao primeiro gozo silencioso. Tem dias assim, incrivelmente assim.

Take a cigarrete

Bom, bom. Estamos aqui para falar sério ou o quê? Ora, não sei por onde nem como começar, disse Y. Nem eu, respondi soltando nuvenzinhas de fumaça. Bom, bom. Estávamos ontem mesmo falando do que quer que seja quando de repente nos ocorreu qualquer idéia maluca. A idéia maluca logo se converteu em qualquer coisa exeqüível. Foi tudo muito rápido. Será realmente posta em prática? Prontamente, disse. Os textos são cada vez mais necessários, despistou. Contradisse-o com informação. Há menos gente interessada na leitura do que na copa do mundo. Há menos gente interessada na leitura do que na televisão. Isso há pelo menos cinco gerações. Há menos gente interessada na leitura do que na gastronomia. ISSO É - questionável. Isso é verdade. Sempre foi. Sempre será. Desisto. Quero um cigarro. ANDO ATÉ O BALCÃO DA COZINHA. ALI, EM CIMA DA NOVA EDIÇÃO DE SERROTE, UM MAÇO DE MARLBORO. A CAIXA VERMELHA BRILHA INTENSAMENTE. ANTEVEJO A CENA: ACENDEREI O CIGARRO E, EM SEGUIDA, CAMINHAREI SEM PRESSA AO LON