Certo dia acordei de sonhos intranquilos e o Ceará estava irreversivelmente datacentrificado, ou seja, onde antes havia elegantes bairros gentrificados, sem um pé de pobreza, agora viam-se longos paredões com esses gabinetes mastodônticos e CPUs resfolegantes até mesmo de madrugada, ronronando sem parar. Mas não foi do dia para a noite, pelo contrário, esse processo se deu aos poucos, primeiro abocanhando o Pecém, essa Mordor dos povos tradicionais, e de lá avançando por Caucaia, o Vale do Silício que deu certo. Só então o amarelo-envelhecido dos tampos de mesa de escritório e a arquitetura mezzo barroca desses construtos se espalharam pela capital, numa espécie de distopia comemorada pelos gestores como gol de placa, capaz de virar a página de nosso viralatismo estrutural. De súbito, toda uma rede de farmácias precisou se desfazer de suas mais de 280 lojas na metrópole, cedendo seu terreno para o que realmente importava àquela altura: não mais tratar as enfermidades da carne e do es...
HENRIQUE ARAÚJO (https://tinyletter.com/Oskarsays)