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Datacity


Certo dia acordei de sonhos intranquilos e o Ceará estava irreversivelmente datacentrificado, ou seja, onde antes havia elegantes bairros gentrificados, sem um pé de pobreza, agora viam-se longos paredões com esses gabinetes mastodônticos e CPUs resfolegantes até mesmo de madrugada, ronronando sem parar.

Mas não foi do dia para a noite, pelo contrário, esse processo se deu aos poucos, primeiro abocanhando o Pecém, essa Mordor dos povos tradicionais, e de lá avançando por Caucaia, o Vale do Silício que deu certo.

Só então o amarelo-envelhecido dos tampos de mesa de escritório e a arquitetura mezzo barroca desses construtos se espalharam pela capital, numa espécie de distopia comemorada pelos gestores como gol de placa, capaz de virar a página de nosso viralatismo estrutural.

De súbito, toda uma rede de farmácias precisou se desfazer de suas mais de 280 lojas na metrópole, cedendo seu terreno para o que realmente importava àquela altura: não mais tratar as enfermidades da carne e do espírito do nativo, mas conectar a província do Siará com o mundo.

Para tanto, foi especialmente importante nossa posição geográfica privilegiada em relação aos nossos vizinhos Pernambuco e Piauí. Ora, todos aprendemos já nas primeiras séries da escola que o estado desempenha a função de “T” no concerto das nações modernas, uma espécie de Alexandria da gambiarra e do improviso.

O que isso quer dizer? Que somos uma tomada tamanho família onde estão plugadas as fiações e cabeamentos que aproveitam a quina da Praia do Futuro para encurtar distâncias e transportar a seus destinos, por rotas submarinas, essas novas especiarias que são os dados pessoais, pagando pouco e deixando menos ainda, como já faziam os navegantes nos séculos d’antanho, quando roubavam madeira e ouro em troca de cacos de espelho e doenças.

Agora, todavia, é diferente, afiança um atilado time de pesquisadores, lideranças do ramo hoteleiro e CEOs de clubes da terceira divisão cuja expertise em lidar com cenários de escassez e banzo da equipe foi muito bem aproveitada nesse momento em que a cidade tenta se impor às vésperas de seu tricentésimo aniversário.

Houve planejamento, sobretudo, e cada detalhe mereceu atenção, da preparação e qualificação das comunidades atingidas por datacenters (CADC), que passaram por cursos do Sebrae para se recolocarem no mercado da existência subalterna, até a conversão da Beira Mar num amplo corredor de escoamento e refrigeração das novas máquinas, com dutos de mais de dez metros de diâmetro desfilando pelas ruas como os tatuzões que um dia tinham sulcado os buracos onde os metrôs seriam plantados num porvir que não havia chegado.

Logo, sem a paisagem da orla e o cartão-postal turístico, a cidade careceu de se reinventar com urgência para não perder receita, adaptando-se aos tempos modernos, nos quais os conceitos de beleza e fruição se remodelavam na velocidade de um clique.

Foi então que surgiram os parques aquáticos inteiramente voltados para o lazer com água do reuso do reuso dos aparelhos de ar-condicionado que operavam dia e noite para manter a temperatura dos “caixotões” num patamar agradável – para eles e para nós.

Também os toboáguas passaram a emular o design das “criaturas digitais”, priorizando os traços quadrangulares e os longos corredores de luzes intermitentes, o que acabou por fazer com que os brinquedos perdessem a graça para muita gente. Em paralelo, um circuito cultural e gastronômico se inaugurou tendo os datacenters como espaço, a exemplo do rooftop, onde um renomado chef cearense costumava oferecer menus inspirados na nomenclatura da moda, numa simbiose entre o tradicional e o avant-garde.

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