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“Romerobritização” de Fortaleza

 

Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar.

Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará.

Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura.

Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno.

E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolita, esse matuto tropicalizado para quem tudo que envelhece automaticamente ganha o destino do monturo, da esquina ou do canteiro.

Do vidro do xampu ao monitor, do sofá esquartejado ao vaso sanitário, o inservível figura no corpo de Fortaleza como os itens de uma exposição artística a céu aberto – o verdadeiro museu do amanhã, um sítio arqueológico em permanente construção onde no futuro antropólogos buscarão os rastros de uma coletividade em colapso.

Então a notícia: a “Aldeota” se desloca para o Eusébio.

É curioso, quase tragicamente engraçado. Uma espécie de fuga das galinhas dos ovos de ouro cujo horizonte demanda o que já não há na capital: espaço, vista, um quadro aberto, uma perspectiva do olhar desimpedida por tantos prédios, uma casa com quintal e terreno na frente, uma área vasta sobre a qual estacionar, manobrando com leveza e raro prazer o SUV elétrico de pneus emplumados e motor discreto, elegante, tão barulhento quanto o ronronar de um recém-nascido adormecido nos braços da mãe depois de mamar.

Eu fico encantado com esse lugar, abestado mesmo, tudo me faz desejar trocar essas estantes por uma vida de prazeres mais fáceis e simples.

Nada contra esse luxo e esse fluxo, inclusive tenho amigos que são, isto é, que estão neste momento considerando essa mudança, essa transmigração, essa transição urbana da Aldeota pioneira para a similar, da filial para a subsidiária, dando conselhos para que faça o mesmo movimento, ao que respondo que tenho de primeiro morar na Aldeota velha para depois me cansar e só então mudar para a Nova Aldeota.

Por dever de ofício, admito que já entrei nesses descampados habitados por famílias de seis ou oito pessoas, mais as empregadas trajando as vestes sem corte em tom azul ou branco ou cinza, e logo fiquei encantando, confesso um tanto envergonhado. Era tanto espaço, tanto verde improvisado, um lago, um riacho correndo rente à porta de casa, um condado hobbitiano de verdade.

E aquilo tudo tinha um preço pelo qual eu talvez pudesse pagar se trabalhasse mais e me esforçasse mais e investisse meu tempo e energia em atividades rentáveis, e não nessas ninharias nas quais invisto minhas economias cognitivas.

Desde sempre um péssimo investidor, gastando a rala inteligência e os dedos com objetos sem objetivo e maços de páginas que não ajudam a quitar uma dívida, um boleto, já que as coisas de fato com algum valor (não muito), aquelas pelas quais me pagam, são as que acabam tomando menos tempo, aquelas cuja escrita exige meia dúzia de palavras, um vocabulário enxuto e tudo o mais.

E lá estou eu, parado na porta de um suntuoso apartamento de 300 metros quadrados, ouvindo o canto dos pássaros, prestes a cruzar a soleira da sala, o entrevistado já devidamente acomodado no quintal, sentado numa espreguiçadeira, à sombra de uma árvore, acho que um cajueiro, a tardinha se infiltrando com essa luz amarela do Ceará quando o sol está coado. E nada no mundo é mais bonito do que o fim do dia, na BR 116 a caminho de Messejana, cortando o ar sob passarela provisoriamente fixa, ou na Lagoa do Colosso, vestindo uma polo branca e bebendo espumante ou o que quer que os ricos bebam no domingo, que suponho que seja como qualquer dia.

Mas tenho de voltar quando a conversa se encerra, o entrevistado genuinamente agradecido e já enfastiado, um professor “medalhão” cujos vencimentos passam dos 70 mil mensais, o que não é tanto se você tem muito mais, mas é muito mesmo se você já tem alguma coisa, principalmente se essa coisa não é tanto assim, como é o meu caso, de modo que fico pensando como é ganhar 70k limpos todo mês.

Saio da nova Aldeota, deixo para trás o cartão postal, a “Euseberly Hills”, como tenho escutado em tom de chacota travestido de inveja descarada, dirijo meu carro pela estrada admirando a paisagem, as palmeiras nos canteiros e as colinas pontilhadas por magra vegetação, uma luz leitosa que recobre a pele e ajuda a vender os condomínios da vez, tudo tão lindamente smart, o shopping envidraçado, as propagandas dos novos colégios, tudo tão resplandecente que é como se Fortaleza tentasse começar de novo, agora só com os ricos.

Afinal, é para lá que estão todos indo embora, mais ou menos como os humanos saudáveis deixam a Terra rumo a outro planeta em Blade Runner. Mais ou menos como os bilionários estão pensando em fazer agora mesmo em caso de bancarrota planetária, que é um desfecho verossímil para todos, mais para uns do que para outros.

ENTÃO não deixa de soar engraçado de um jeito triste e que me dá engulhos a maneira como se referem a uma nova Aldeota, quase como se estivessem falando do Novo Maranguape ou do Novo Metrópole, mas sendo que não é disso que se trata, eu desconfio.

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