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O tal letreiro

Eu passei por ele e lembrei que é bem ali onde as turmas de formandos se reúnem para fazer fotografias segurando os nomes dos cursos de graduação e o ano em que estão concluindo. É um lugar apropriado para fincar a bandeira do marco, estabelecer um ponto zero e começar seja lá o que for, desde que represente uma virada na sua vida, uma página que fica pra trás ou coisa que o valha.
Pois foi exatamente lá, perto da estátua da Iracema, que apareceu da noite pro dia o letreiro CEARÁ com letras coloridas dispostas como numa lâmina de apresentação para dizer coisas óbvias. Caso alguém vá passando e não tenha tanta certeza de onde está, um turista ou mesmo um desavisado, a placa cuida em informar: CEARÁ.
Letras alegres, dançantes, como a explicitar cabalmente nossa vocação para a alegria. Um reconhecimento tácito de nossa felicidade. Um clichê tipográfico e afetivo. E enterrado na praia, como uma placa de vende-se em Jeri.
Letreiro estranho. O nome inscrito na orla pede que a gente olhe pra e…
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Noite

De fato é como tentar recuperar movimentos perdidos, os dedos batucando palavras que eu tinha esquecido.
Agora estou aqui e escrevo. Não faço ideia, não quero pensar e não posso supor que uma história consiga eliminar tudo isso. Eu só quero e penso em contar uma mesma história. É agosto, afinal.
Estive doente nos últimos quatro dias. E vocês sabem como são os homens quando adoecem, ficam profundamente dramáticos. Então estava assim, com a garganta inflamada e dores fortes na cabeça me sentindo parte de um círculo de horror.
Passei duas madrugadas acordado revendo filmes e assistindo a séries sobre mortos-vivos porque era assim que me sentia, um espírito vagando em casa, abrindo a geladeira a cada meia hora pra tomar água e se hidratar, do contrário não ficaria bom.
Até que foi passando e eu fiquei bem mas continuo achando que as coisas que sentimos mais dramaticamente não passam com um copo d’água nem com noites mal-dormidas.

Agosto

É agosto, mês de ventos. A gente bota a cabeça na janela e tudo acontece. Tem sido difícil andar de bicicleta. O vento contra na ida e a favor na volta. Subir é mais difícil e descer, mais fácil.
Pedalar contra o vento. Descer a favor do vento. Mais lento e mais rápido ao mesmo tempo. Duas experiências.
Na praia ando pra lá e pra cá, vou até o final, que é a igreja. Paro e olho lá pra dentro imaginando outras tantas vezes em que parei ali e olhei e não vi nada porque as portas estavam fechadas.
É uma igreja simpática, pequena, azul e branco, como um barco parado. Tenho vontade de rezar, mas não rezo. Não é zelo. Apenas não quero.
Penso em sorvete, uma casquinha dupla de tangerina e qualquer outro sabor. Não paro. Aumento o volume e a mensagem diz que posso danificar a audição. Aumento assim mesmo.
Um homem passa com uma caixa de som na cestinha da bicicleta. Está lá sempre nos fins de semana. Já cruzei com ele outras vezes. Por que escuta música tão alta? Passa sorrindo. É um sorriso e…

O cheiro

Toda casa tem um cheiro, é como uma pessoa. Essa foi a grande descoberta da minha infância. Os amigos liam quadrinhos e viam filmes de caratê, eu pedia licença antes de entrar na sala dos outros e aspirava o ar demoradamente. Uma tinha cheiro de cozinha, comida recém-preparada, temperos, óleo, fritura. Outra, de construção, reboco, cimento, tinta fresca, solvente.
Todas eram diferentes da minha, cujo odor não podia distinguir. Se casas são pessoas, quando estão próximas de mais, a gente se acostuma com o cheiro e passa a não diferenciar. Como a gente é parte dele, ninguém sabe ao certo qual o cheiro que tem.
Mas a casa dos outros é diferente. Eu, por exemplo, gostava muito do cheiro da casa dos meus primos, que misturava roupa lavada e café. Na casa do Luciano, predominava o cigarro que a mãe fumava e na do Rafael, um amaciante característico, forte o bastante pra ser sentido do lado de fora. O Anderson, um amigo mais velho, tinha cheiro de graxa, gasolina e pneu – a casa e ele também…

Futuro

Futuro é uma palavra gorda, dessas que vão adiante sem atinar para o que vem atrás. Anda sem espera de que os dias acompanhem, como um atleta que tem pressa mais que vontade de completar a prova. Um ver que o tempo passa ao acaso e não ao gosto da gente. Tem tanto de passado quanto de fantasia.
O futuro na cidade é uma praia e um bairro distante, isolado numa periferia, num enlace de outras margens, mas apontando para o que ainda virá e dele esperando não o malogro, mas a sorte: Bom Futuro. E a praia é uma estação de desejos onde se depositam as palavras para que se fertilizem: Praia do Futuro.
Falar desse tempo é ter com a ruína. Tempo dividido entre duas noções extremas: requalificar e ocupar. A primeira como expressão de uma gramática do poder que faz as vezes de mágica – não se pode entender a ação de revitalizar o que já tem vida senão por meio de uma manobra de força, política e ideológica. A segunda noção como um preenchimento nas suas múltiplas acepções – atividade e habitação…

Ainda uma carta

A gente se põe a escrever achando que chegará ao final do mesmo jeito, conhecendo o caminho e parando o tempo que achar que pode. Mas nunca é assim. O domínio se esfarinha.
Queria escrever hoje o que não tivesse fim. Como em 1996, quando terminei um namoro e precisei andar de ônibus pela cidade. Ou em 2009, quando o casamento acabou e dei voltas pela rua do bairro que eu já conhecia tão bem. Aprendi a fumar andando em círculos. Ajudou, mas não funcionou. Isso foi em abril. De lá pra cá, choveu tanto que nem sei mais se é o tempo lá fora ou aqui dentro que deu uma piorada. Sei que escurece.
Uma carta de despedida é também uma carta de chegada. É uma dessas ironias que a gente cria a pretexto de entabular conversa com gente estranha. É como um papo no elevador. Escrever para dizer que vai embora. Ou escrever pra falar que fica ainda. Ficar ou ir. Tudo em arte é uma separação, do corpo, da família, da vida.
Li que García Márquez passou um ano e seis meses fora de casa para conseguir escre…

Domingo

Domingo é uma fresta, uma dessas que se formam na janela do quarto quando a gente se senta e o dia parece escorrer. A vida escorrendo sem ordem ou controle. É assim que vejo tudo, um fluxo de coisas que tento parar com as mãos, mas, bom, talvez não seja o caso de interromper nada agora. Ou talvez eu apenas não tenha força mesmo. Talvez já esteja tudo parado e o movimento é só ilusório.
Fato é que gosto de domingos. Uns clichês ambulantes. O de hoje, por exemplo, nublado e melancólico como um desses domingos colhidos diretamente no dicionário. Se fôssemos à procura do que quer dizer o dia ao pé da letra, encontraríamos a definição vivendo hoje. E olhar essas fotos de rodas de samba pela cidade apenas confirma a natureza triste do domingo. Um dia de contrastes.

O lado bom é que, quando damos por ele, acabou. Feito o amor, e lá vou eu me meter a falar disso novamente. Quando acaba? A gente não sabe.
Eu lembro que, em algum momento da vida, houve um sábado. Não sei como o restante das…