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A história das goteiras

Não sei se já observaram uma goteira. Como se forma, os desenhos que restam quando o sol desponta e ela vai embora, a pressa das pessoas em aparar a água tão logo percebem que na casa há um vazamento. Na rua tomam banhos e até se divertem nas biqueiras, mas o ambiente doméstico é sagrado. Nele não se permitem goteiras, que têm qualquer coisa de agourentas. Ou de desleixadas. 
Primeiro a telha que se afasta. Um gato à procura do cio, um vento mais forte, um soluço da própria casa. Conjunto de fatores casuais que resultam nessa abertura. Depois a chuva, que precisa vir inclinada, como a pedir licença para entrar. Permitida, vem a goteira. 
Mas antes é preciso que chova intensamente por curto período ou muitas horas. Num caso como no outro, produz-se a fenda através da qual a água se verte, como sangue quando nos cortamos em regiões pouco irrigadas. Vovó dizia: está minando sangue. E no corpo a parte ferida começava porejar aos bocados. 
A goteira é a falha da casa, disso todos sabemos. Mas…
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Pedra

É como se desaprendesse.
Primeiro tomar a caneta, depois o papel, recitar brevemente a lista de tarefas. Apenas para esquecê-las no primeiro instante. Uma litania da solidão.
Então lembrar novamente, agora passando a culpar-se. Afinal, está tudo atrasado, tudo em compasso acelerado, tudo que corre e volta e torna a correr.  

Tento. Como se friccionasse duas pedras molhadas na tentativa de produzir fogo.
Nada de fagulha, nada de chama. Apenas o som da pedra lascando-se contra a outra, o choque de uma superfície cuja solidez ninguém coloca em dúvida.
Tenho inveja da pedra que não se move.

O apartamento

O apartamento está pintado, as paredes sem marcas. Cruzo a entrada de pedras. Se alguém viveu por ali nos últimos 12 meses ou 12 anos, não se sabe. Os quartos, os móveis, nada retém memória. Fico pensando nisso ainda por uns segundos.  
Damião é moreno, baixo. Veste calção e bermuda. Tem cheiro forte de desodorante. Tipo desconfiado. Atravessa a sala e aponta o guarda-roupa embutido. Depois dá três tapinhas na pia do banheiro, que balança. É nova, ele diz. São todos iguais, mas os detalhes fazem a diferença. Pouca gente repara.
Simpatizo imediatamente com Damião. Tipo que gosta de detalhes, e detalhe hoje não tem tanta importância. Talvez até se queixe quando os pretendentes a inquilinos ignoram uma demão de tinta mais caprichada, uma porta bem assentada, uma janela que abre sem rangido. É o seu trabalho naquele momento. Ele tem orgulho, dá pra notar. É o que chama de detalhe.
Imagino uma rotina como a sua: limpar, varrer, regar, rebocar quando necessário, colocar o lixo do lado de for…

O tempo passa

Gosto e desgosto da festa de fim de ano. Os fogos, sim; a passagem, não. Tem uma explicação. Quando criança, uns cinco anos, a mãe convidou pra ver o ano passando. Era 1986.
Me chamou no quarto e disse desse jeito: venha ver o ano, meu filho. Eu fui. Afinal, queria ver o que se passava quando um ano acabava e outro começava.
Na minha cabeça, era visível esse momento no qual um período de 12 meses entregaria a outro a responsabilidade pela sorte de todos e depois seguiria pra casa, alquebrado mas satisfeito porque finalmente conseguira dar entrada nos documentos para se aposentar – sob a gestão de Temer, imagino que os anos tenham mais dificuldade de finalmente cumprirem sua cota de contribuição.  
Acompanhei minha mãe pelo corredor até a rua. Eu esperava que essa passagem do ano fosse um pouco como o crepúsculo. O sol caindo ou nascendo, a escuridão chegando ou indo embora, o céu matizado de laranja. E finalmente o dia ou a noite, plenos. Ou seja, um fenômeno que eu pudesse enxergar enq…

Ele que viu o abismo

Escrevi o que podia, esvaziei. Fiquei repleto de nada. Fui de ponta a ponta a correr se via quem passava na rua. Os vultos, as pernas, a saia. Estive por horas perto de cair do batente. Arrisquei um salto quando suspeitei que fosse. Não era.  
Enchi e copo e bebi muitas vezes. Fui e voltei, achei que morreria se não estivesse novamente prestes a. Duvidei de que conseguiria. Me certifiquei de que era. E era de fato.
Agora chego ao final. Um tempo revoltoso. Queria defini-lo, mas não cabe numa palavra. Queria ignorá-lo, mas cortou o corpo. Tampouco poderia dizer que se trata de um ano como qualquer outro. Não foi. Não será. Um golpe de mar, um braço de areia que se levanta animado por tal humor perverso e despenca, fazendo levantar uma nuvem sobre a cidade.
Ele que viu o abismo.
Não os clichês de queda e superação. Mais tropeços e ferida. Mais nudez e morte e delírio. Mais o fogo e a fome e a falta. Mais os dias todos passando como um tropel de bestas em estouro pela vida afora. E, no ent…

Um papo com H

H, meu amigo, não vá por aí, tampouco por aqui. Qualquer direção precipita o dito, e toda escolha é também o fim da linha.
Conheço você há tempo suficiente pra entender que tem evitado tudo isso por uma razão que talvez não entenda. Não é brincadeira, H, viver não é preciso.
Lembra da foto na praia? Então. Aquilo também mexeu comigo, também me fez tremer um pouco, sobretudo agora nesse período de festas e coisas tais que nos colocam meio tristes. Já pensou na tristeza que é uma árvore de Natal, por exemplo? Um rosário com bolinhas de neon na entrada do prédio?
Tudo tão enfeitado, tão excessivo, inflacionado. 
H, meu irmão, meu alter-ego, minha sombra na qual projeto tanto de medo e de coragem, tanto de amor e de vida. Não se canse, não se renda, não se amole com essa conversa de que as coisas passam.  

Nada passa, H. Tudo é permanência. 
Outro dia li uma carta que você escreveu a um amigo que não pediu sua opinião, mas, como contigo é sempre assim, um eterno implicar-se nas coisas alheias,…

Pessoas que talvez você conheça

A segunda frase que tinha anotado no caderno era essa. Uma sentença que leio frequentemente quando entro no Facebook e ele se encarrega de sugerir rostos e nomes, numa roleta de afinidades eletivas baseadas em algoritmos cuja lógica interna é tão precisa quanto adivinhar o futuro na borra do café.
Pensei nas cartas, no dia de ontem, nas fantasias que escolhemos matar, num poema de Ana Martins Marques postado na mesma rede social que termina com uma frase marcante que evito até reproduzir porque não sei que estragos é capaz de causar em alguém tão cheio de suscetibilidades, uma deficiência que se acentua às vésperas do Natal. 
Pessoas que talvez você conheça são amigos dos amigos, gente que, em tese, tem interesses comuns aos seus. Ou ainda pessoas que vão passando pela linha do tempo da vida de cada um.
Outra expressão engraçada: linha do tempo. Esta eu não anotei, mas falo dela aqui brevemente. 

Curioso pensar no tempo como um novelo que se desdobra, dando origem a essa linha cartesian…