segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

VINGADOR

De volta muito tempo depois. Mais magro, mais bonito, mas ainda sem graça, desatento, preguiçoso. Perseguido por cavaleiros do apocalipse, essas almas penadas que, se não riem à toa, se não podem simplesmente viver sem atormentar, se não vão além do arremedo, também não permitem que outras pessoas sigam quietas.

Estou falando de gente cujo caráter faz qualquer vilão ou vilã de novela parecer um cordeirinho. Estou me havendo com esses espíritos. Em 2010, renovo o estoque de sabres de luz.

Mas a vida, a vida segue – eu vou junto. Quer dizer, vamos juntos.

Fim de semana cinematográfico – cheio de uma nova jogatina. Depois explico. Ora, estamos embaralhados com a semana. Preciso: 1. descanso; 2. coragem; 3. força. Ano que vem, em texto intitulado POR QUE DESGOSTO DE JOÃO MIGUEL, fundamento o sentimento – mais que sentimento, a certeza – que alimento em relação a esse ator. A tese é simples: João Miguel é ruim. Tanto quanto Selton Melo.

Os dois não se livram de si onde quer que estejam – nem dos seus personagens.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Gira, sol


Tem dias que a gente acorda e ainda que algumas plantas queridas, algumas plantas que eram filhas, filhos, sobrinhos, girassóis, rosas, cristas de galo, essas plantas que faziam tanto bem, cravos e alecrins da mesma forma, hajam da noite para o dia murchado, perdido as cores e morrido, mesmo nessas horas um sentimento que é quase vulgarmente indescritível mas que se parece muito com felicidade ocupa todos os vãos da casa.

É também nessas horas que você pensa ora, nunca pensei, jamais imaginei, mas está acontecendo. Ela está aqui. Esse par de sandálias Azaléia indica, esse perfume, essa camisa, esse prendedor de cabelos, esses cabelos soltos reiteram indefinidamente ela está aqui. Para sempre?

Sim, para sempre, peço.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Eles evoluem


Alien, o 8º passageiro é um filme engraçado. É cômica a precariedade. Tem um clima tragicômico. Há partes simplesmente inverossímeis, inconsistentes, ridículas. A tensão também é diluída. Os personagens são fracos. Mas a trama é boa: empresa que opera transporte de cargas universo afora simula resgate em planeta distante após captarem suposto sinal em um radar. Envia um cargueiro-rebocador até o planetinha sinistro. O sinal é verificado. O animal se aloja na barriga de um dos tripulantes. O cenário está armado. As mortes virão, alguém pensa.

Reparo principalmente na mudança de comportamento do monstro de um filme para a sua sequência imediata: Alien III. Num, ele é um humanóide. Caminha como vocês e eu caminhamos: sobre duas pernas, eretos. Hostiliza os tripulantes da nave distribuindo abraços. E sevicia mulheres penetrando-as com um aguilhão tamanho família. É pervertido.

E arredio às câmeras. Só aparece para matar. Por fim: projeta uma segunda mandíbula que, se não foi obtida mediante derretimento de uma bicicleta cromada, não sei. Desconheço a origem.

Em outro filme, o Alien é um monstro mais parecido com os monstros selvagens de filmes de ação. É animalesco. Atravessa corredores escuros a galope. Mostra-se mais. E tem jogo de cintura.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Não conta comigo


Não se enganem – a raça não tem jeito. Está fracassada. As metas da conferência de Copenhague não serão cumpridas – são inatingíveis. O Brasil não vencerá a Copa de 2010 – nem a de 2014.

Bono Vox tem contas em paraísos fiscais. Os filhos adotados por Madonna costumam ficar sem partes essenciais de seus corpos – eles são usados em experimentos genéticos financiados pela popstar. Visam ao lucro e ainda promovem eficientemente o merchandising social da cantora. Segundo cálculos de institutos de pesquisa gabaritados, cerca de 1/3 da receita obtida apenas com a venda de CDs deve-se à boa pinta dos meninos. Subliminarmente, claro. Objetivamente, o dinheiro vem da compra espontânea dos discos. Subjetivamente, é o exato oposto.

O Greenpeace é o braço militante do agrobusiness no Brasil. E por aí vai. Da mesma forma, não atribuam santidade a ninguém. Desconfiem – eis a sabedoria. E tenham sempre uma carabina à mão. Ou uma colher de pau.

Do contrário, ficaremos surpresos quando o vizinho a quem você cedera o lugar no ônibus disser dali a dois dias – passa o celular, passa a carteira, passa o pâncreas. Mas, vejam só: isso está acontecendo.

O que andam fazendo? Recebi romance de Junot Díaz. Leio ainda hoje. Bom, bom - lerei nos próximos dias.

A melhor hora para escrever é pela manhã, quando os dedos parecem filhotes, e não faltando 57 minutos para as dez da noite.

Observação: se receberem golpes baixos, entendam assim – trata-se de carinho exacerbado. E VAMOS EM FRENTE.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Cravo, alecrim e cacto


Isto é um blog de cinema? Definitivamente, não. É um blog de literatura? Não. É um blog pessoal? Também não. É um blog sobre internet, sobre outros blogs?

É um blog do instante. Não tem poesia. Não quer ter. Detesta poesia. É um blog antivanguarda. É um blog reacionário – partido da reação. É um blog sem atualizações. É um blog – mas poderia ser diário. Poderia ser livro. Poderia ser filme, curta, longa, média. Poderia ser um retrato, um quadro, um disco, um rosto, um gozo, um filho.

Um filho? Até um filho.

Mas pode nem ser blog. É um conjunto heterogêneo de textos mal-escritos. Não tem imodéstia. É isso. São escritos quentemente – porque nascem antes do pensamento. Textos vêm antes do pensamento. Saem. Como a tia que vai embora da festa de Natal antes que a nora chegue. As duas não se dão. Uma acha que a outra quer ir para a cama com o marido – o marido da outra.

Podiam trocar de marido, fazer um swing. Resolveriam o impasse.

Agora, vamos dizer que o autor – OSKAR – vem se divertindo escrevendo (meu Deus, como é estranho dois gerúndios lado a lado) o que lhe dá na cabeça.

Quero desenhar minhas próprias tiras. Tenho um caderno em branco e quatro canetas Bic novinhas: verde, vermelha, preta e azul. Além da lapiseira que ganhei de presente de aniversário. Pertencia a uma ex-colega de trabalho. Jamais esquecerei o gesto. Porque adoro lapiseiras, são símbolos da infância. Escreve tão bem.

Farei isso agora. Desenhar. Tirinhas de humor. Esperem. Serão publicadas aqui mesmo. Esperem mesmo. Quero fazer isso em algum momento. Além do livro no ano que vem. Quero fazer.

E ser pai.

Filmes, filmes, filmes

O fato é: fim de semana cinematográfico. Agora mesmo espero apenas voltar para casa e ver o restante de Alien e Last Days.

Ontem vi Slumdog Millionaire. Que filme é esse? Não sei. Arrebatou platéias, sim. Mas não vale uma bolacha molhada. É rápido, alegre, colorido e dançante. Mas arrebatador? Nunca. Não sei se estava no “modo ranzinza” ou se apenas tenho envelhecido mais do que deveria – e, por extensão, me tornado mais impaciente do que deveria. O que não quer dizer absolutamente nada. Porque os velhos não são mais sábios. Viveram bastante, mas não necessariamente melhor que qualquer um. Muitos viveram apenas estupidamente.

Voltando. Sei algo: ouvi dizer que ganhou tantos prêmios porque traz alegria em um momento estranhamente complicado para o planeta. Ora, mudem-se as regras, então. Premiem-se os filmes mais alegres e coloridos do ano. Danny Boyle é camarada. Dêem um Nobel da Camaradagem para ele. Premiem as crianças indianas. Mas não digam que o filme é bom cinema. Não é.



Vi também Um estranho no ninho – a história de um homem que confronta um sistema. Um homem transgressor – estuprou uma menina de 15 anos, foi preso e, em seguida, levado para um hospital psiquiátrico – que revira as regras de uma instituição. Em resumo: A. R. Randall quer demonstrar que a vida metódica é autoritária. O sistema de regras, classificações e cura concebido e aplicado pelo hospital é doentio, bizarro – bem mais que a loucura dos doentes mentais. Resta a ele – transgressor, delinqüente, louco – consertar as coisas por ali. E perguntar no final: quem é mais doente aqui?

Um ótimo filme. Destaques: as grandes atuações de Jack Nicholson e Louise Fletcher.


Vou indo. Volto na segunda-feira.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Te espero lá


Adoro essa revista.

Besteira. É tão ruim quanto qualquer outra. Hoje, terça-feira, 2, dezembro, calor infernal. As ruas cheias de gente com sotaque diferente. Na hora do almoço, ele estende o mapa da cidade sobre a mesa e, com o indicador, passeia por vias que desconhece. Tem cara de bobo. Ela também. Turistas têm caras de idiotas aonde quer que vão. Soa estúpido perguntar ao vendedor onde fica localizado o cinema da cidade. O mesmo que 99% da população conhece. Menos você, turista.

Faz três dias não posso comer direito. Sinto dores na barriga constantemente. Elas começam devagar, mudam de lugar, logo se intensificam e, quando percebo, estou fazendo caretas no banheiro. É batata. Quer dizer, não é batata. Batata é sentir a mesma coisa há três dias. Não sei por quê. Minha alimentação é a mesma. Exceto pelos sanduíches, os litros de refrigerante que venho ingerindo e as horas passadas sem comer ultimamente.

Fora isso, estou bem.

Não consegui me formar agora. Todos da turma passaram na minha frente. Entendo agora a cabeça do aluno repetente – estive perto de ser rebaixado várias vezes quando era estudante, mas escapava no final. Era bom nisso – fingir que ia ser reprovado e, num vôo de fênix, dar a volta por cima.

Hoje estou cansado. Perto dos 30, não há mais graça em imitar uma ave idiota que renasce sempre das cinzas.

Agora, indo para casa repetir a série abrir a porta / tomar banho / escovar os dentes / cometer ilicitudes / folhear alguma revista / comer alguma coisa / deitar / assistir o que estiver passando na televisão / fechar os olhos levemente / mudar de lado no colchão / e dormir.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Kill them!

Deus!!!

Enquanto isso, estou aqui vendo se consigo comprar uma camiseta branca, básica, com 2010 escrito em dourado, e uma calça folgada, do tipo que nos deixa masculinamente livres para andar nas festas de final de ano sem qualquer preocupação com a pomada do dia seguinte. E ainda: um presente, básico, aviso, para ela, ela, a AndoRi-nh-A.

Give me a salad, please...


Tudo bem. Vamos aos fatos da semana. Finalmente vi Distrito 9. Li muita besteira sobre o filme nesse tempo todo em que estive humanamente hesitando entre ver e não ver. Acabei vendo. E gostando.

Acho que traz novidades. Usa muito bem recursos dos videogames. Jogos de tiro em primeira pessoa, essas coisas. Gosto dos efeitos. A nave suspensa sobre a favela parece realmente suspensa. Os alienígenas são críveis. Ele é rápido, certeiro.

Não gosto do começo: como notificar 1,8 milhão de ETs batendo de porta em porta? Não entendo. A abordagem é falsa. Os aliens são fortes, grandes, arrancam um braço como se estivessem despetalando uma flor. E não havia tantos policiais acompanhando quem entregava as correspondências.

Um detalhe que poderia ter melhorado.

Outro ponto: a leitura política é rasteira. Bem rasteira. Por que tanta gente superestimou a política? O que vale é: a narrativa. Como é narrado o caso. Como são expostos os personagens. Se os ETs podem ser vistos como negros segregados... Não importa. O que importa é: diretor assiste a filmes e emprega recursos inteligentemente. Um exemplo: parecer um documentário.

Distrito 9 flerta com a realidade. Na verdade, faz parte da família de filmes que têm seu êxito visceralmente proporcional à porcentagem de realidade que conseguem reunir. Sendo assim, lançam campanha de publicidade em que o grande trunfo é dar tratamento de realidade ao trabalho ficcional (nos EUA, cartazes com os dizeres “Expulsem os aliens” foram espalhados).

Resumindo: o filme é ótimo. Final bem-resolvido, cenas de batalha arrebatadoras. É boa ficção científica. E custou apenas US$ 30 milhões, quantia arrecadada apenas em três dias de exibição nos Estados Unidos.

Meu grande temor: a continuação. Porque vai haver uma, sim. Neil Blomkamp já disse isso. “Estou apenas procurando uma boa história”, confessou. Algum esperto está agora mesmo conjecturando modos e estratégias para faturar com Distrito 10. E se antes havia desconfiança suficiente para impulsionar o trabalho criativo, agora é diferente: talvez haja dinheiro sobrando. E isso pode significar: O FIM.

NEVER Morre... Never MORRE!


Muito cuidado com os comentários, minha gente. Não quero ser processado. Sequer tenho a décima parte do que pede a justiça no caso Emílio Moreno. Portanto, contenham-se. Não falem tanto. Não sejam baixos. Nem vulgares. Não ataquem pelas costas. Não firam egos. Não exultem quando os seus inimigos acharem que a vida já não tem sentido algum.

Enfim. Sejam cordatos. Sejam finos. E assoviem quando pisarem nos seus pés. Estou aqui, andando, andando. Correndo quando o apito soa histérico. E andando quando há brisa, e a pressa é apenas hábito incurável.

Aviso logo: ontem fui ao TJA. Vi aquela peça. Do italiano que mudou radicalmente os paradigmas do teatro cartesiano, estabelecendo pontes sólidas entre o movimento uniforme e a física quântica, construindo noções antitéticas entre poesia, futebol e videogames, invocando arquétipos enterrados por camadas espessas de desumanização ao longo dos tempos.

Digo também: não entendi nada. Achei bastante chata. E quase tive a maior crise de risos da minha vida inteira. Enquanto a dois metros da cadeira a atriz encarava um crânio de plástico vestido com um terno e enfeitado com três margaridas, Andorinha cochichou algo solidamente incrível no meu ouvido.

Cochichou: “Será que ele era o marido dela?”

Fiquei vermelho, azul, amarelo. Fixei um ponto escuro acima da minha cabeça. Identifiquei poeira suspensa no ar, magnetizei os pensamentos, recordei o enterro do meu tio há dois anos. Em vão. Ao lado, ela se sacudia, reprimindo politicamente um riso que deveria ter sido liberado naquele salão embalsamado.

Mas não. Reprimimos a investida do humor como a parteira que devolve a criança ao útero da mãe quando o descobre deficiente – o filho, não o útero.

Fim da história. Como diz o corvo: NEVER MORE.

domingo, 22 de novembro de 2009

ABsolutamente nada


Duas coisas. Ter obrigações é chato. É verdadeiramente doentio.

PARÊNTESES: estou no tempo dos advérbios. Só agora descobri: têm uma função belíssima na língua portuguesa. Dão ares de profundamente, de absolutamente refletidos. Ares, ares. São ares. Talvez não digam nada quando enfileirados. Seguidamente. Adverbiais.

Acordar no mesmo horário. Dormir sempre no mesmo horário porque no dia seguinte você deverá levantar às 5h30, apanhar o ônibus que passa às 6h45. Finalmente, chegar ao trabalho às 7h30.

Doentio. Absolutamente.

Depois, talvez nada pudesse funcionar direito, sem grandes erros, se fosse diferente. Se não tivéssemos obrigações.

Por ora, por ora. Quero depredar residências. Lembrando: amanhã recomeça tudo. Tudo. Tudo.

Tudo bem, vamos lá.

De modo que...


Nem sempre o domingo é engraçado. Quase nunca é. Pode ser cansativo, exaustivo mesmo, mas jamais engraçado. Hoje não seria diferente. Principalmente quando:

1. Você acorda, prepara café, toma banho, veste-se. Bebe o café, come alguns biscoitos. Depois, lembra que, um dia antes, enquanto olhava o interior da garrafa como se procurasse ali respostas para todas as perguntas que açoitam a raça humana - existe água na Lua? Por que o Coiote nunca conseguiu capturar o Papa Léguas? -, ela havia adivinhado o manual. Molhado. Aos pedaços. Ainda cheirando a café.

2. Enquanto se prepara para sair, caminhar um pouco, ouvir os barulhos de uma rua sem movimento num domingo de novembro, um sexto sentido enferrujado vomita a informação: você não está só. No topo do edifício vizinho, um urubu sorri. Sacode levemente as asas. Venta bastante. De modo que ele balança pra lá e pra cá. Penso que vai cair. Não cai. Vou embora. O urubu permanece imóvel.

Sendo assim, melhor dar tudo por encerrado. Voltar pra casa. Checar as fechaduras. Conferir se a mangueira do gás está realmente em bom estado. Ver atrás das cortinas – que cortinas? Enfim: desassombrar o ambiente invocando a palavra do Criador.

Ora, ora, ele dirá surpreso com a deferência.

LISTAS, LISTAS, LISTAS

Se é pra dizer... ME SINTO lento. Lentamente, movimento braços e pernas. Caminho sem pressa. Penso devagar. Não sei o que é. A alimentação é a mesma. Menos leite, mais café, menos suco, mais macarrão.

E uns biscoitos de coco bem doces. Exatamente os mesmos que comia quando era criança. Sentava de frente para a televisão esperando o desenho animado. Encostava o copo com leite no chão, amassava os biscoitos com a colher. E comia tudo.

Sem internet. Sem leituras no domingo. Mais livros. Acho que é isso. Umberto Eco nos diz: fazer listas equivale a tentar enganar a morte. Quero listar as coisas que me incomodam no momento: a faculdade, o jornalismo, a literatura.

Três coisas. E uma outra: a pessoa.

Das quatro, detestar a pessoa é a que mais me surpreende. Porque tem a ver diretamente comigo. É pessoal. Uma diatribe que tenho. Sendo claro, evidente: você é uma linha, uma curva. Você é qualquer coisa. Quer rearranjar essa coisa que é você, mas não consegue. Pergunta-se: posso? Eu realmente posso modificar esse desenho feito de mim?

Todos acham: sim, você pode. Sequer levam em consideração o fracasso pessoal que carregam diariamente.

Preciso reler e pensar seriamente. Pensar nisso. No que está dito. Mas, como se trata de texto sem compromisso, rápido, feito exclusivamente pra internet e sem pretensões de se perpetuar no cânone ocidental, fico tranqüilo. Vou almoçar.

Antes, digo: estou lendo. Nem sei explicar direito. Novamente, recorro a Eco, que diz: fazemos listas porque não sabemos explicar as coisas. E cita como exemplo o caso dos cientistas que levaram 80 anos – quase a idade da minha avó – para definir um ornitorrinco – e não conseguiram. Como saída, listaram as características do animal: terrestre, aquático, põe ovos, mamífero.

Do que se depreende: mesmo as listas são incapazes de explicar o que quer que seja. No máximo, mostram um lado, mas nunca “o que é”. Para ele, “o que é” está errado. Devemos parar de procurar “o que é”. Constitui parte da filosofia escolástica, superada pelas ideias renascentistas.

Agora, preparo uma lista de compras. E uma outra, cujo objetivo verdadeiro é listar as coisas que precisam de listas.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

REc ou Quando os Nós Resolvem Falar


Mas nada disso tem relação direta ou mesmo indireta com a quarta-feira, 18. Não tem. Estive falando generalidades, coisas que vão e que também vêm aleatoriamente. Digo, sem pensar. Sem pretender, chegam e se despedem. Chegam, mas se despedem.

Atacando a mensagem: não faça isso. A gente não merece. Deve haver reciprocidade.

A palavra é: reciprocidade. Entendido?

Querer, não querer

Tudo muda rapidamente. O que estava ali já não está mais. Está aqui - mas agora é diferente. Porque houve deslocamento. No deslocamento, alteração, mudança, transmutação.

Isso é básico. O que está havendo é mudança, deslocamento, alteração. Não sei de que natureza, espécie. Sei que é significativa. O que havia antes não há mais. E o que não havia, há – mas diferente. Ainda bem.

Pode ser simplesmente a idade. Estou envelhecendo. Nem tudo tem tanta graça quando se olha pra trás. Nem tudo. A infância é um ponto luminoso. A adolescência, um borrão. A idade adulta, um hiato, salto sem volta, sem rede, sem resgate.

Alguém me tira daqui? – não posso gritar. Como se diz: a gente vai indo. Segue. E para quando der vontade.

Mas, curioso: às vezes deixa-se de ser algo quase que por mágica. Não se sabe a razão, mas a mudança, imperceptível, foi operada e, agora, converteu... Converteu um dado branco em vermelho, um telhado azul em muro cinza.

Estou fazendo rodeio. Não sei atacar o assunto. Preciso dar voltas, voltas, achar eu mudei de tema, ignorei a força primeira. A verdade: não sei falar direto. Atravesso ruas enviesadas tentando percorrer o trajeto mais rápido entre dois pontos. Como dizem: um erro de origem. Porque a menor distância entre dois pontos é uma reta.

Ao menos na matemática. Na vida, a menor distância entre dois pontos pode ser um círculo. Ora, ora, sim, um círculo.

Não sei, não sei. Preciso trocar as pilhas do controle remoto, dobrar a rede, lavar camisas, regar uma planta, enxugar a louça, fazer café. No fundo, nada disso tem a ver com tristeza, mas com mudança. É chato transformar-se. Ser outra coisa que não você. Você negativo. Porque mesmo os defeitos.


A gente quer bem aos defeitos. São como o filho torto.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

I was there


2012: vejam, sim.

Reduzo tudo à metade. Leituras, horas gastas em frente ao PC. Sem internet, leio mais. Em compensação, passo mais tempo sentado, fumando, vendo a movimentação rasteira dos roedores que desfilam no terreno baldio. De pé, vejo-os melhor, apressados, copulando, atravessando distâncias. Parecem terroristas se escondendo de alguma força policial. Das corujas?

Quem sabe.

Reduzo tudo. Escrevo uma vez por semana. Não sei se vai dar certo. Muita coisa tem dado errado. Os dias da semana, a alimentação, as revistas, as cores do arco-íris. Sem esforço, sem esforço.

Lado B quase parado.

Voltando. 2012 é um bom filme. Muita explosão, muita correria, muito clichê. O cientista que prevê a catástrofe, o presidente – negro – que “afunda juntamente com o navio”, o tecnocrata inescrupuloso, os heróis ordinários, a dimensão humana da catástrofe, a rotina que, mesmo com o fim do mundo iminente, persiste. Está tudo lá.

O filme vale porque consegue transmitir alguma verossimilhança. Digo: porque convence. De fato, paramos para pensar: e se isso realmente estivesse acontecendo conosco? E se o mundo estiver em perigo? Muitos devem ter sentido isso, essa angústia ao ver edifícios inteiras vindo abaixo, ou cidades inteiras desaparecerem, afundarem no mar.

Eis a fórmula. 2012 faz efeito porque o final dos tempos nunca sai de moda. Quer dizer, não é uma ideia que se possa afastar assim, facilmente. Ao contrário: está cada vez mais presente.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

ELa tomou o quarto, a sala, a cozinha


Ainda, ainda. Sobrevivendo.

Depois da cortina de fumaça que invadiu o quarto há dois domingos, acordo sempre ressabiado, temendo ser definitivamente engolfado pelo negrume que vem do quintal das velhinhas. É uma sensação esquisita essa de ir dormir sem saber ao certo se no dia seguinte você vai acordar bem, deitado na cama ou na rede, ou dando voltas e voltas no centro gravitacional de alguma galáxia macabra.

O fato é que ninguém sabe explicar direito do que se tratava, se restos de animais mortos ou pedaços de madeira, se pneus velhos ou vestidos considerados sem préstimo pelas idosas. De todo modo, fico intrigado com a durabilidade do efeito. Sempre que chego em casa, é como se tivessem acabado de atear fogo ao cesto de roupas sujas. Minhas camisas têm agora esse segundo ou terceiro odor: fumaça. Além dele, o cheiro de suor e fuligem da rua.

Bom, era isso. Recado dado. Tenho menos de três semanas para escrever dois capítulos de uma monografia que, se não tem atrapalhado meu sono, é só porque nada no mundo consegue atrapalhar meu sono. Menos de três semanas para escrever algo em torno de quarenta mil caracteres. Acho que mais, não sei direito.

Assim, podem me dispensar de festas, aniversários, casamentos, saídas no fim de semana. Só tenho ido a igrejas ultimamente – pedir por meus pecados e rezar para que a banca escolhida para defesa tenha algum dó de mim.

Deus, se eles não sabem o que fazem, eu garanto: também não sei.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

VEjam: COragem, o Cão COVARDE, sou eu


LEt's SEE

Vamos ver se tudo fica bem neste fim de semana. Ver se o que tem de acontecer acontece. E se o que tem de parar de acontecer de fato se retrai, não acontece.

Vamos ver se ele não esquece os amigos, se não cutuca inimigos, se não brinca com a vida. Vamos ver se respeita os limites, se logra equilíbrio, se não caminha lento, se não anda depressa, se não atropela, se não se atropela.

Se não se atrapalha.

Vamos ver se dança no ritmo, de acordo com a música, ou se, autista, ouve uma canção que ninguém mais toca, ninguém mais ouve. Vamos ver se tem espírito coletivo, se não celebra sozinho a festa da sexta-feira.

Vamos ver se tem luz nos olhos, no sorriso. Vamos ver se se encanta, se desencanta.

Vamos ver se para de falar, se consegue calar, se conclui as mudanças. Se reata as andanças. Se entra na dança. Vamos ver se respira aliviado, se desentope as artérias, se voa aprumado.

Vamos ver, vamos ver.

sábado, 31 de outubro de 2009

Sem assunto III

Atrasadas: Palestina, jornal de domingo passado, Quem quer ser um milionário?. Aquele do Sebald.

Muita coisa. Uma vida inteira atrasada. Parada em algum ponto. TINha que tomar à esquerda, mas segui em frente.

Reduzir a marcha, mas avancei.

Sem assunto II

O que fazem no fim de semana? Segunda-feira, finados. Tenho dois tios lado a lado no cemitério. Mas não saio de casa.

Nem para ver a irmã. Discurso.

Amanhã compro televisão. Coloco tudo na sala-cozinha. Meu apartamento é mágico: saio da sala para a cozinha sem mover um centímetro. Apenas ali, parado.

É a classe média apertada.

Discurso. Breve: descrição do escritório do obstetra / ginecologista / sexólogo. Muitas vulvas de plástico decorando as paredes claras. Muitos quadros exibindo mulheres grávidas cercadas por flores, árvores, numa clara exacerbação pelo mau gosto da fertilidade feminina. Depois falo. Agora, agora. Mudança. Ainda não sei onde pus as coisas. Estou encontrando. MUdança. Detesto.

Sem assunto

Uma entrevista.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

HOJE

Essa quinta-feira está marcada. Como a mais bonita.

Desta estrada.

Another

For her

Do(u) meu Jeito

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

De novo

Bom, uma semana inteira sem textos. O que tenho a dizer?

Esperança de ti. Esperança de ti mesmo agora, mesmo que tudo pareça perdido. Porque se há esse sentimento bonito, há tudo.

Notícias em breve. Aguardem. Oskar esteve fora, perdido, fora da rota, mas começa a se encontrar novamente. A vida é gangorra.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

To Dormir

Aqui. Leiam. Volto correndo antes que sintam minha falta na sala apertada de reuniões.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O NÃO-DOENTE

Ora, ora, querem saber de quem se trata?

Y. é um estudante metade judeu, metade palestino, nascido na França mas culturalmente educado nos Estados Unidos – acertou quem pensou em Pittsburgh. Tem a pele morena, pernas cambaleantes e cabelos encaracolados, óculos de lentes e aro grossos. Veste-se quase sempre com camisas de flanela quadriculadas, calça leve, sapatos brancos, sem mais adereços além dos olhos esbugalhados. Não é exatamente um dândi – quem o conhece sabe que não.

Vive em Fortaleza há pelo menos 21 anos. É ilustrador, desenhista, escritor, viciado, insone, vândalo, desocupado. Abriga uma MOLÉSTIA INOMINADA cujo tratamento é dificultado precisamente porque a MOLÉSTIA É INOMINADA. E isso quer dizer:

Y. tem ataques freqüentes que o sacodem por 1h20min32segundos. Fosse epiléptico, teria alguma chance de viver por certo período de tempo. Fosse. SUA DOENÇA É INCOGNOSCÍVEL. Não está catalogada nos manuais clínicos.

Pronto, falei. Espero que possam identificá-lo na rua depois desse perfil acuradíssimo.

Notícias do cacto

Depois de se fingir de morto – cobriu-se de um “verde IJF” dos pés à cabeça -, o cacto revive. Eu o salvei, me felicito sempre que passo no corredor e enquanto sou acalmado pelas ondas que quebram a alguns metros da minha janela vejo suas pernas e braços esverdeando-se lenta mas firmemente, lenta mas alegremente soa bem melhor que qualquer outra coisa. Tem um broto nascendo-lhe junto aos pés. Um broto bem verde. O miolo também parece bem saudável quando noto espalhar-se numa medida convicta.

Andorinha, nosso cacto vive.

Se ainda tivesse celular, se ainda tivesse carteira também, faria inúmeras fotos do cacto e diria veja, ele está a salvo, sua saúde é de ferro, parecia demente, parecia incurável, parecia para sempre haver embarcado em uma nau clarineta com destino certo ao inferno dos cactos porque para cactos, alguém disse, mesmo o céu espinhoso é infernal.

E agora vai viver mais tempo que você e eu.