Pular para o conteúdo principal

Postagens

Antes de dormir, depois do fim do mundo

Ultimamente vinha pensando na maneira mais correta de narrar, isto é, de transformar tudo em palavra e a palavra em memória, reviver o tempo apenas em sua dimensão estética, cortar fora o que fosse afeto em demasia, que pesasse além do que podia suportar. 
Um fracasso, claro, de modo que sequer tentou levar adiante. Mais um projeto natimorto. À velha pergunta sobre o limite da escrita, respondia com um muxoxo, um disfarce para a questão de fundo mais grave, que era: tudo posto aqui, em palavra, afeta o outro tanto quanto a si mesmo, tudo vai e volta, cai e ergue-se.
E foi com essa bobajada que consumiu a tarde, as horas difíceis da tarde. Havia escrito cartas, reescrito o já dito, numa peleja sem fim. Agoniou-se com o silêncio, o vexame que era surpreender-se em sobressalto, tão frágil e descarnado, tão impotente e solitário. Desavisado, encontrava o espelho e se surpreendia desfigurado, o rosto contorcido. Não mais sorriso. Careta. ão era o mesmo. Não era ele. Era outro.  
Um dia intei…
Postagens recentes

Violência

E pensou então que todo acidente tinha essa dimensão da palavra, que afetava um modo de dizer, de se referir, que tudo acontecia e imediatamente ganhava essa camada de linguagem. Talvez mesmo enquanto acontecesse.
Agora mesmo, por exemplo, via-se como um desses acidentados numa maca no corredor à espera de cuidados, um tratamento que fosse, qualquer ampola de analgésico, mas o fenômeno que o abatera não tinha nome. A dor era a dor sem nome, a agonia sequer podia chamar-se porque lhe faltava o básico: a letra que pacifica o dito, o dito que confere carnalidade a uma coisa vazia.
L sabia disso tanto quanto eu, sabia que o mero fato de chamar-se acidente a algo que parecia mais um ataque carregava um mundo de sentidos e disputas. Sabia que não se tratava de amor ou casualidade, era um ato de violência.
O jeito bruto de chamar o fenômeno por si. Como quando se cai. O jeito de lamber as feridas, expô-las ao tempo para que fechem, olhar o corpo e chamar à conversa cada pedaço em avaria, cad…

O acidente de L

L me conta que um homem se atirou na frente do seu carro enquanto deixava o restaurante. Era um rapaz e tinha uma cerveja na mão, lembra, talvez estivesse bêbado e o fato se limitasse a isso, um jovem bêbado atacando uma mulher na rua. E dizer que se limitava, como se se tratasse de ninharia, já era em si uma violência. 

Mas é possível que também não estivesse embrigado e fosse apenas desespero. Algum desespero que houvesse tentado controlar, talvez L o fizesse lembrar de um rosto, quem sabe se L não fosse esse elo que o rapaz evitasse sempre que se deparava com a matéria própria da memória, que queima e fere a pele mais que fogo, mais que asfalto quente.
Eu respondia e L prontamente rejeitava qualquer resposta, não estava satisfeita com nada, esperava que eu a consolasse e dissesse que se tratava obviamente de um assédio, um ataque covarde cometido por homens em grupo a uma mulher desgarrada.
E pensei que L tinha razão, fora alvo de uma emboscada, sim, era tão frequente que uma mulher…

A música de K

Peço ajuda a K, digo que preciso de uma palavra, qualquer uma. Explico que é um mote para algo que não sei ainda. Ela me envia uma música. “Qualquer palavra serve.”
Escuto. Embora não esteja com ânimo pra ouvir, deixo rolar enquanto escrevo e leio. Paro um pouco. Murmúrios, umas frases soltas, coisas desconexas. No meio da confusão sonora, distingo “amor”.
A música termina, ainda não tenho ideia do que fazer, mas a expressão “qualquer palavra serve” acaba ficando.
Penso em João Silvério Trevisan e no seu novo livro, “Pai, Pai”, no qual revolve o magma das relações familiares. Revira a própria vida, expõe-se, dá-se a ler sem pudores, sente que foi além ao falar tanto mas já é tarde. Talvez tenha se arrependido. É um sentimento com o qual uma hora ou outra temos de lidar.
Imagino o sofrimento, mas Trevisan fala também sobre o processo curativo da escrita. A capacidade de reviver o trauma, a dor, percorrê-los novamente, agora com certo distanciamento, mas não totalmente a salvo.
Nunca se…

Uma conversa com H (parte iii)

Mas existir não bastava, e tudo que havia dito até ali sofria de um mesmo mal: eram palavras excessivamente alegóricas, tudo metáfora, nada que dissesse do sentimento o que pudesse haver de raiz, nenhum mineral, nenhum amor como a pedra que afunda, apenas perfumaria e esse jogo impetuoso de expressões com duplo ou triplo sentido, palavras empilhadas que ruíam ao menor tremor de mãos.
H escutava e escutava. Depois franziu a testa, olhou pra longe e chorou. Talvez até um choro falso, pensei com alguma crueldade. Apenas a lágrima que é mais uma lembrança da glândula, uma reação do músculo, o corpo que se rebela contra o automatismo. Não o ataque, mas a simulação, não o golpe, mas o prenúncio do golpe e da dor que se seguiria.
Então H chorava para que não precisasse chorar depois, numa economia de gesto e afeto que explicava muita coisa. E mesmo que não concordasse, ainda que calasse sobre a imprecisão de tudo que falava e a insuficiência das coisas escritas, mesmo as que aparentavam toda …

Uma conversa com H (parte ii)

E de repente revi tudo. E nesse movimento também revi H e todo o processo, do início até o fim. Era importante apanhar as coisas pelo nome, ele mesmo acrescentou, não exatamente compreendê-las, mas saber que estavam ali e que tinham esse rosto, não eram como ideias soltas, não como as coisas sem contorno, umas fantasmagorias. Eram ideias com pé e cabeça e tronco, cheiro e boca, cabelo, costas, dedos e unhas, quadris e ventre.
O fato de que as ideias de H tivessem ventre animava ainda mais a conversa, foi só nesse momento que senti: talvez ele chegue aonde quer, a esse ponto indefinido ainda, mas que existe, talvez consiga delimitar e recortar e se aproximar e tocar esse ponto crucial.
Os sentimentos não são como animais fantásticos, disse mais uma vez, e era tão comum em tudo que falava a referência a animais, ao que não tem arbítrio, a tudo que é apenas força e ímpeto.
Lembrou da expressão usada por Dante quando chega ao inferno: selva selvagem. Era ali que H desejava viver, na selva…

Uma conversa com H

Evitei essa conversa com H por muito tempo, seja por que razão for. Mas agora foi difícil escapar, estávamos ambos ali, no mesmo quarto, H com ar cansado e eu disposto a ouvir o que estivesse a fim de dizer porque já não podia correr, eu também farto desse jogo de gato e rato.
H, essa letra muda, começou num tom autodepreciativo que não me comoveu nem um pouco. Em seguida desfiou o rosário conhecido de sempre: dores, exaustão, agora dera pra sentir também os ombros e os joelhos, não sabia se somatizava tudo ou se era a idade se impondo com seu cortejo de pequenas falências físicas. Fosse o que fosse, acentuava essa sensação de que atravessava um deserto munido apenas de caneta e papel.  
De todo modo é bom cuidar disso, respondi tentando soar o mais empático possível, já que as agonias de H eram também as minhas, suas aflições, dúvidas e vacilações tão próximas de tudo que eu mesmo sentia. Mas, naquele momento, era importante que H entendesse o peso de tudo. E ele entendia, talvez mais…