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Um pequeno defeito

Gosto de junho como gosto de bolo e café e todas essas comidas do mês. Uma coisa boba ter com o tempo uma relação assim.
Há poucos dias fiz 38 anos. É uma boa idade. Muito velho para o engano, mas não totalmente para a ilusão. É sempre hora de dar com os burros n'água.
A dois dos 40, me pergunto sobre o que mudou. Nos últimos dois meses, estive assim, vivendo de véspera e antevendo um tempo sem medida no qual eu talvez conseguisse andar sem estar aos tombos. Uma caminhada até a esquina, uma volta de bicicleta.
Perto dos 40. Escrevo e me assusto. Ultrapassei a idade que meu pai tinha quando entendi que ele estava saindo de casa. Véspera. Foi um dia feliz.
E agora estou aqui, na vizinhança dessa coisa distante mas tão perto e sem qualquer certeza além daquelas duas ou três que a gente costuma carregar nos bolsos feito a poeira dos sentimentos que foram assentando nos móveis deixados pra trás. Uma cama, um tapete, um lustre, uma mesa desarrumada em torno da qual a vida se fazia e des…
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Metade

Agora que chegamos à metade de não sei o quê, o ano que termina antes do fim parece viagem sem agenda. Programação desfeita em cima da hora.
É junho, e do meio pro desfecho é como um filme cujo final está aberto e pra ele nos voltamos sem saber ao certo se o mocinho morre. Até que descobrimos que não há mocinho nem bandido nem filme nem enredo nem nada, apenas uma máquina de pinball e dentro dela esferas de metal se chocando enquanto do lado de fora alguém empurra com força esses êmbolos ou seja lá que nome tenha a ferramenta que desfere o golpe final.
E por golpe final me refiro ao gesto de afastamento derradeiro. Uma força de origem indefinida cuja intensidade é também mais inventada que real. Feito o amor, felicidade. Feito esse conjunto de afetos que se juntam à força do acaso e depois dele se alimentam até que também o acaso resolve pôr tudo a perder.
E perdidos andamos novamente. E perdidos entramos mais uma vez no café ou na livraria e lemos o jornal e pagamos o almoço e pergunt…

Todo homem

Todo homem precisa ao menos uma vez fazer o que as mães fazem todo dia.
Todo homem não precisa de ser mãe, tampouco de uma mãe.
Todo homem jamais será uma mãe.

Nenhum homem é como a mãe de outro homem que ficou pra trás.
A mãe de todo homem é como qualquer mãe.
Todo homem precisa na verdade de pelo menos uma vez na semana lavar o banheiro.
Esfregá-lo de próprio punho e depois varrer e andar pela casa com um zelo de coisas limpas, tempo passado como camisa na tábua.
Amores desfeitos como vincos na roupa e cortes na pele fina do rosto.
Pequenos acidentes tratados como fenômenos domésticos.

Pedra

Depois de tudo, já fechei e abri, guardei e tranquei, isolei a sete chaves e mantive distante da vista. Como um calendário de um ano que passou sem passar, expirou no ar. Mais palavra que gesto.
Depois de tudo ainda precisei andar sozinho. Um dia, na praia, fui até aquelas pedras. No começo não gostava de imaginá-las empilhadas sob sol tanto tempo, pedras sobre pedras dia e noite.
 Até que fui me afeiçoando. E da pedra voltei com sacos plásticos, garrafas, despojos de visitas alheias que não vi se ficaram ou foram embora.

Manipular caixas

Abrir caixas, desembrulhá-las como presentes que chegassem pelos Correios depois de muito tempo de espera. De dentro delas pescar os objetos guardados por anos e anos, pastas empoeiradas, livros, papéis inservíveis, revistas antigas cujas capas apresentam rostos que desapareceram ou que agora simplesmente já não têm a importância que tinham.
Verificar nas caixas a passagem do tempo, atentar para que o envelhece e o que ainda é presença, experimentar uma transmissão de algo que não se perde e reconhecer que a matéria esboroa sempre.
Ter com as caixas agora abertas uma relação do mágico com a cartola da qual retira um a um utensílios fantásticos com os quais ludibria a plateia.
Organizá-las por tamanho apenas, nomes e cores e títulos misturados uns aos outros em duas estantes apertadas contra a parede branca de uma cal lambuzada por mãos que não conheço.
E fotografar cada parte como forma de ir tendo com o arranjo uma familiaridade perdida.
E nessa tentativa ir deixando na caixa mais obje…

Dois autores que renovaram a literatura do trauma*

A bielo-russa Svetlana Aleksiévich dizia que a Rússia tem alma beligerante e que seu povo não conhece uma vida sem ideal de grandiosidade, algo que, por sua vez, se traduzia na arte, notadamente na literatura, seja pela monumentalidade das obras, seja pela natureza engajada da reflexão artística. A revolução de outubro precipitou esse espírito russo num caldeirão de disputas e confrontos. 
Dele emergiu uma arte interpelada constantemente pelo real, mas um real que era agora o resultado direto de condicionantes ideológicas e históricas no centro das quais estava a experiência socialista. Em O fim do homem soviético, a ganhadora do Nobel escreve que, passado tanto tempo desde 1917, o ano das duas revoluções, pretendia encontrar respostas para o drama sob o regime comunista nas histórias pessoais de homens e mulheres comuns, cavando fundo no que chamou de socialismo doméstico ou interior. 
Esse é um dos legados para a literatura: a jornalista e escritora pode esmerar seu estilo ouvindo o c…

O desfecho

E agora que termino penso por um instante no nexo que fará juntarem-se coisas tão díspares. O pai, L, o restaurante e o aniversário da primeira namorada, que hoje comemora sabe-se lá que idade, mas é certo que festeja neste 16 de maio o nascimento. Eu não serei capaz. Estou faminto, tenho pouca energia pra raciocinar e estabelecer pontos de contato lógico entre o que quer que seja, sobretudo em relação a fatos que se passaram quando tinha 16 anos.

Consigo, porém, distinguir um estopim ou gatilho – um elemento que desencadeia esse processo a partir do qual o fluxo se desprende e recua no tempo e avança e enxameia tudo com uma qualidade de agoniada incerteza. Desejamos sonho e beleza e mistério, mas mal pomos os pés na rua tudo que queremos é uma rede armada, lençóis trocados e uma tarde sem sol.
O pai, L, o restaurante. Uma linha que nasce distante e chega ao dia de hoje. Não ontem ou depois de amanhã, mas agora. O peso, a ausência, a saudade, o irremediável.

Constâncias. É talvez isso …