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Mostrando postagens de julho 25, 2011

Pequenos acontecimentos

Estando na sala por cerca de duas ou três horas, o pensamento repletamente concentrado, tomado de coisas por si mesmo, dava voltas e voltas em torno de uma questão literária de menor cabimento. Estando na sala, não evitou surpreender-se quando cinco ou seis das sementes de uma planta cuja flor é azul turquesa se espalharam pela casa, provocando efeito semelhante ao do entrechoque de bolas de gude atiradas ao acaso por mãos de criança ou ao de bolas de sinuca após uma tacada desastrosa. Escrevia desde a manhã. Uma xícara de café ao lado do computador, pilhas de livros e revistas e o jornal do dia aberto na página de opinião constituíam o quadro matinal severamente repetido dia após dia, sem reclames, sem pausas nem intromissões. Estava nesse pé, dignamente recolhido, sequer tinha deixado a casa para almoçar. Parte preguiça, parte obsessão. Um punhado de esferas negras feito sementes de maracujá saltou da estante, derramou-se no chão, escondeu-se atrás das cadeiras e entre as vias expr

Aspa

Do André Conti, editor da Cia. das Letras, em artigo dos bons: "Como em qualquer livro, para ler Ulysses basta abri-lo na primeira página e seguir até a última. Esqueça os paralelismos com a Odisseia . Esqueça que o conjunto dos dezoito episódios forma um corpo humano. Esqueça as dezenas de variações de estilo, o exibicionismo linguístico, as referências cifradas a acontecimentos obscuros e esquecidos. Ulysses não foi escrito para revolucionar o romance moderno. Ele revolucionou o romance moderno porque coloca todas essas questões a serviço de algo maior: falar, da maneira mais cândida e terna e divertida possível, de quem você é. O resto fica para uma segunda (e terceira) leitura."

Aeroporto velho

PARTE I Não sem razão, lembrou, a vida naquele tempo era estranhamente complexa, havia a namorada, antes dela eram as paixões de infância e antes ainda não era nada. Havia os irmãos, os primos, as primas, os amigos, a escola, os estudos, o SNES, a TV, o São Paulo, a mãe, o pai, o cachorro, um pé duro chegado ainda filhote que levaria de um bairro a outro por dois anos e meio até que, numa dessas paradas, a 13ª, quem sabe, o cachorro resolvesse que era o bastante, e foi. Perguntar a avó o que se deu com ele, se morreu, sumiu, acha que desapareceu porque, cavoucando a memória de agora, não consegue encontrar qualquer sentimento pesaroso relacionado à perda do animal, um cachorro querido, um dos poucos a que dedicou parcela de carinho e tempo. O cachorro simplesmente foi embora, está certo disso. PARTE II Cogita, talvez houvesse mais que agora. Havia a turbulência de estar no meio enquanto olhava pros lados e também pra frente, sem entender ao certo aonde as coisas levariam, o qu

Fragmento arrancado de fora

Andorinha Sinhá Pensava ela que fosse a única maneira de aproximar-se, de sentir-se. Acreditava que, naquele momento, pudesse ficar de igual para igual. Queria ser mulher madura, mostrar-se decidida, segura, sentir-se dele a todo instante. Pelo menos, ali, na cama, queria comandar. Não era sexo que buscava, embora fosse assim que descobria sempre, que estava a um patamar abaixo. Queria ser leve, bonita e inteligente. Na verdade ela queria ter um dom. Queria poder ajudar a todos. Doía-lhe na alma ver o mundo. Ela queria poder dizer e escrever coisas bonitas. Queria tanta coisa que não sabia o que queria. Mas o que mais queria era ter um amor, mas não sabia comportar-se. Queria o início, o começo. Onde podia fazer e dizer coisas bobas. Queria ter tomado café da manhã.