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Mostrando postagens de setembro 17, 2016

Uma olhadinha pra trás

Vendo tudo em retrospecto, o que não deixa de ser um exercício melancólico, olhar novamente os fatos, agora com outros olhos, olhos de outra pessoa que não a que tomou as decisões então sensatas mas que, reexaminadas neste momento, parecem extravagantes, quando não claramente equivocadas e motivadas por razões que se apresentavam como questionáveis tão logo se tinha formado a convicção pessoal da qual resultariam. Vendo tudo em retrospecto, fico pensando se não deveria considerar a hipótese de que, qualquer que seja a decisão, jamais parecerá correta. Tenha a intenção que tiver, a gente não se contenta, entende? É amoral. A moral da história. E olha que pensei nisso relendo um texto publicado dois anos atrás do qual tenho até certo orgulho, mas que me fez lembrar de outro que me causa alguma vergonha. Logo, tratei de renegar. Mas, imediatamente, lembrei também que o futuro exerce um peso considerável. Tudo que não aconteceu, o que ainda pode vir, o virtual, o hipotétic

A minha timeline

Agora as pessoas não falam mais na cidade, no bairro, na rua, na casa. Agora as pessoas falam na minha timeline, como se conhecessem cada um que faz parte da sua timeline, como se cada timeline fosse uma extensão ególatra de si mesmo, como se a rede de amigos refletisse as boas escolhas que fazemos, como se se tratasse realmente de uma rede, e de amigos em rede, e não de pessoas mais ou menos conhecidas que, embora conectadas, permanecem estranhas umas às outras, como se houvesse razão para orgulho no fato de que uma rede, de tão fechada, fosse refratária a qualquer notícia vinda do mundo de lá, como se, feito uma bolha, a TL, a minha TL, me mantivesse a salvo dessas mesmas notícias ruins que chegam de todos os cantos, como os linchamentos e assaltos, os preconceitos e os roubos, os assassinatos e os elogios a políticos de extrema direita, como se, mantido longe de notícias ruins, essas mesmas notícias passassem a não existir como num passe de mágica, como se, não existindo, e co

Perdido

Foi o sonho novamente, o mesmo de antes, acordava e andava um pouco sem saber, como depois da escola quando ainda era criança e precisava chegar em casa  por outro caminho que não o de sempre. Daí tentei uma rua diferente. E outra. E mais outra ainda. E me perdi. Fui encontrado muitos quarteirões depois, noutro bairro, um amigo do pai me levou de volta na garupa da bicicleta. Em casa, o pai chorava na cozinha. Até hoje não entendo por que o pai chorava na cozinha e não na rua. O que o pai fazia em casa. Era a maneira dele de tentar me encontrar. Contar com a sorte. Outra vez foi ainda mais curioso: fui atropelado voltando pra casa de madrugada. Em casa, o pai de novo em desespero. Não lembrei de placa nem modelo do carro, apenas que tinha perdido o retrovisor. O pai saiu feito louco no dia seguinte e não voltou antes de encontrar o carro sem o retrovisor.  Era o mesmo que tinha me atropelado. 

Era essa a agonia

E continua, mesmo sem continuar. Não sei quem disse isso. Pensei que seria bom estar agora perto daquela parte da orla em que os navios ficam encostados como se à espera, mas sem esperar de fato mais nada da vida, navios parados sem expectativa, senão continuarem exatamente onde estão. Carcaças, eu disse, e você concordou. Ou voltando pra casa de ônibus do terminal, numa BR escura, meio escorado na janela, meio de lado na cadeira, procurando um jeito confortável de estar ocupando uma cadeira num ônibus que se desloca a 80 km/h numa BR entre um bairro e outro, vendo pelo caminho pizzarias cheias e famílias inteiras ao redor de garrafas de Coca como nativos celebrando um totem. Tudo vazio, exceto pelas varandas e fachadas de motéis. O contraste entre dentro e fora, o zumbido de lá e a música de cá, essa festividade medida e controlada e a ânsia de algo que ninguém explica, ninguém define, ninguém conhece. Era essa a agonia. 

Tudo como antes

Eu falei bem no começo que tinha desistido de escrever porque agora já não conseguia colocar as coisas em perspectiva, as coisas de sempre tinham criado como vida própria, mas era caso de seguir adiante e se perguntar se tinham memo. Concorda?

Paisagem

A gente se olha e não vê mais o que costumava ver, as coisas se deslocaram. É o hábito de sempre. Mudam de lugar ao menor sinal. A gente não lembra mais o que disse, lembra? Acho que não. Apenas que pensávamos que seria algo assim, e por assim leia-se qualquer coisa que não sabíamos definir, e não definir o que não sabíamos era um modo estranho de se contentar com o que havia. Sendo o que havia essa coisa sem forma que foi tomando gosto aos poucos e depois acabou. Foi assim, lembra? Eu não lembro mais. Todos os registros apagados, tudo vazio, nada do que estava está mais. É como as coisas são hoje em dia,  a gente deixa pra trás, varre, esfrega e fica tudo como se não houvesse, um pouco sem vestígio. Sem nada. Sem pegadas. Uma paisagem nova, mas já vista, evocando o que estava aqui antes da chegada de gente estranha.