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A minha timeline



Agora as pessoas não falam mais na cidade, no bairro, na rua, na casa. Agora as pessoas falam na minha timeline, como se conhecessem cada um que faz parte da sua timeline, como se cada timeline fosse uma extensão ególatra de si mesmo, como se a rede de amigos refletisse as boas escolhas que fazemos, como se se tratasse realmente de uma rede, e de amigos em rede, e não de pessoas mais ou menos conhecidas que, embora conectadas, permanecem estranhas umas às outras, como se houvesse razão para orgulho no fato de que uma rede, de tão fechada, fosse refratária a qualquer notícia vinda do mundo de lá, como se, feito uma bolha, a TL, a minha TL, me mantivesse a salvo dessas mesmas notícias ruins que chegam de todos os cantos, como os linchamentos e assaltos, os preconceitos e os roubos, os assassinatos e os elogios a políticos de extrema direita, como se, mantido longe de notícias ruins, essas mesmas notícias passassem a não existir como num passe de mágica, como se, não existindo, e com isso também não existindo as notícias ruins, o mundo se tornasse ato contínuo um lugar melhor e assim as pessoas tivessem realmente um motivo para estarem felizes como estou com a minha TL.

Mas acontece que o mundo não é a minha TL, está longe de ser uma TL, o mundo é desencontro e um choque constantes, e agradecer pela boa escolha de uma TL é no máximo festejar a eficácia de um filtro de amigos ou a lista de pessoas que você convidou para a sua festa de aniversário.

É algo esquisito pra deixar a gente alegre.   

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