Trata-se de pedaços de coisas que acumulei ao longo do ano, fragmentos escritos e depois abandonados, trechos de crônicas abortadas. Toda sorte de ideias e títulos de contos ou de novelas que jamais passarão disso, talvez porque goste da sensação de produzir esses começos sem que exijam de mim qualquer compromisso, sem que tenha com eles essa relacao possessiva ou de cuidado extremo, de maneira que não me preocupe se irão morrer por falta d’água ou de comida. Estão no mundo assim, falhos, e assim devem se virar, com suas metades faltantes.
E então, ao final, eu retorno e lanço um olhar que não é nunca de tristeza, mas de alguém que pelo menos remotamente pretende ordenar tudo aquilo? Não sei.
Acho que esse restolho é curioso, às vezes bonito. Tarde da noite, quando me volto e enxergo numa passagem um fiapo de luminosidade, não digo de elaboração nem de exemplo de uma prosa exuberante nem inventiva, mas de algo que carrega uma ideia – chamarei assim porque não posso agora, depois de um dia de trabalho, querer entender o que se passa ali na leitura do que não entendo direito.
Mas, voltando, tarde da noite, no corredor de casa, entre o quarto e a sala, é como se tivesse um contentamento difuso, espalhado por toda parte, sem alvo nem nervo nem órgão central que bombeia fluido vital para o restante do corpo. É um corpo descentrado, eviscerado, um corpo sem corpo, que está em toda parte e em nenhuma.
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