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Mostrando postagens de junho 22, 2026

O prazer das coisas

Eu sei que esse discurso parece esgotado, cansado até, mas cada vez sentimos menos que algo é palpável, que se relaciona com o mundo por meio do som ou da textura, com os quais mantemos contato familiar, íntimo. Seja um botão, um objeto qualquer, uma ferramenta antes comum, manuseada no dia a dia, ou uma atividade agora fora de moda, fora de propósito, fora da lógica. Tudo se passa como se a tela fosse autossuficiente, por meio dela teríamos abolido o mundo material, o elemento táctil, um conjunto de sensações que se impregnam no ato em si da execução de um procedimento. E nem falo da cerâmica ou da carpintaria ou de coisas apenas desse tipo, “manuais”, ou seja, que demandam mais tempo e por isso estabelecem outro grau de relação entre nós e as coisas, mas de gestos que antes acionavam dispositivos empregados com determinado fim. Em algum nível, a gente tinha alguma ideia do processo, eu acho que sim. Toda essa cadeia foi substituída, todo um repertório de odores ou de prazeres conti...

Rua das bandeirinhas

  Era manhã do dia da estreia da seleção quando um grupo mais entusiasmado de moradores do prédio, contagiado talvez pela onda do verde-amarelismo da qual eu mesmo começava a gostar depois de resistir desde o início da Copa, combinou de enfeitar a rua com bandeirinhas. Uma corrente febril logo se espalhou, começariam primeiro com a fachada do edifício e depois se estenderiam até as esquinas, cobrindo todo o quarteirão. Já tinha visto algumas vias na vizinhança que estavam de fato caprichadas, pinturas pelo chão de asfalto esburacado e meio-fio também. Eram ruas sem iluminação ou iluminadas precariamente, mas agora estavam enfeitadas. Sem árvores, mas pintadas, alegres, felizes. No muro uma pichação de facção, mas o hexa vem. Em suma, um trabalho bonito, organizado, aqui e ali um brasão estropiado. Não era isso que importava. O que importava era essa sensação bissexta de que cruzar a rua proporcionava finalmente um sentimento de prazer coletivo, de força social coesa e mobilizada ...

Perdido na CazéTV

Perdi o momento em que resenha virou a resenha, esse híbrido que quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo, sinônimo para engraçado e outras coisas cujo significado eu não saberia desfiar agora, sob a pressão do gap geracional que me afasta, nascido nos idos dos 1980, dessa turma pós- 2000, para a qual o normal é a conexão desconectada, a atenção desfocada, de que é exemplar a transmissão da CazéTV. De férias e com tempo relativamente livre, tentei assistir aos jogos da Copa pelo canal do Casemiro, de quem gosto sem conhecê-lo, gosto por supor que era um sujeito comum que de repente venceu na vida. Mas, fora isso, ou seja, fora essa simpatia meio sem razão, admito que não comprei totalmente a história. Digo, me sentia naquele meme do Didi vestindo uma roupagem juvenil sem de fato ostentar um predicado etário para tanto. Tenho 46, e minhas roupas são de alguém que envelheceu sem se preocupar com roupas. Não sei, mas algo no tom e no modo de tratar a matéria era dissonante, não se encaixava....