Eu sei que esse discurso parece esgotado, cansado até, mas cada vez sentimos menos que algo é palpável, que se relaciona com o mundo por meio do som ou da textura, com os quais mantemos contato familiar, íntimo. Seja um botão, um objeto qualquer, uma ferramenta antes comum, manuseada no dia a dia, ou uma atividade agora fora de moda, fora de propósito, fora da lógica. Tudo se passa como se a tela fosse autossuficiente, por meio dela teríamos abolido o mundo material, o elemento táctil, um conjunto de sensações que se impregnam no ato em si da execução de um procedimento. E nem falo da cerâmica ou da carpintaria ou de coisas apenas desse tipo, “manuais”, ou seja, que demandam mais tempo e por isso estabelecem outro grau de relação entre nós e as coisas, mas de gestos que antes acionavam dispositivos empregados com determinado fim. Em algum nível, a gente tinha alguma ideia do processo, eu acho que sim. Toda essa cadeia foi substituída, todo um repertório de odores ou de prazeres conti...
HENRIQUE ARAÚJO (https://tinyletter.com/Oskarsays)