Era manhã do dia da estreia da seleção quando um grupo mais entusiasmado de moradores do prédio, contagiado talvez pela onda do verde-amarelismo da qual eu mesmo começava a gostar depois de resistir desde o início da Copa, combinou de enfeitar a rua com bandeirinhas.
Uma corrente febril logo se espalhou, começariam primeiro com a fachada do edifício e depois se estenderiam até as esquinas, cobrindo todo o quarteirão.
Já tinha visto algumas vias na vizinhança que estavam de fato caprichadas, pinturas pelo chão de asfalto esburacado e meio-fio também. Eram ruas sem iluminação ou iluminadas precariamente, mas agora estavam enfeitadas. Sem árvores, mas pintadas, alegres, felizes. No muro uma pichação de facção, mas o hexa vem.
Em suma, um trabalho bonito, organizado, aqui e ali um brasão estropiado. Não era isso que importava. O que importava era essa sensação bissexta de que cruzar a rua proporcionava finalmente um sentimento de prazer coletivo, de força social coesa e mobilizada por um chamamento impessoal endereçado ao coração do povo.
Não é algo tão frequente assim nas ruas locais, não nas da minha cidade, pelas quais passamos apressados todo dia, seja por medo de roubo ou porque a paisagem é estriada por um emaranhado de fiação em contraste com o azul estridente de um céu que fez Orson Welles ficar cego prematuramente.
De maneira que o mais perto de decoração junina são essas instalações de cabo de internet descrevendo um ângulo abaulado por causa do furto de cobre diário nas redondezas, uma realidade com a qual a gente se acostuma rápido, vendo nela até uma certa poesia das coisas sem jeito nem finalidade.
Daí que os moradores do prédio tenham se investido desse mesmo ímpeto grupal, dessa energia que emerge a cada quatro anos, num civismo sazonal que começa e se esgota na Copa, mas de cujo proveito todos queremos tirar uma casquinha.
Rapidamente se confeccionaram tiras de plástico com as cores da bandeira. Basicamente amarelo e verde, sem tanto azul. Tudo ainda em quantidade insuficiente, de modo que restaram alguns vazios no trecho frontal do quarteirão, como uma maquete incompleta feita por criança deixada à própria sorte na execução de uma atividade da feira de ciências da escola.
Poucas pessoas haviam aderido ao convite enviado pelo WhatsApp do edifício. Estava explicado. Sem força de trabalho, nada feito. O ChatGPT ainda não é capaz de assumir forma física para se encarregar desse tipo de tarefa que muitos julgamos essenciais, desde que outros tomem a dianteira para fazê-las. Muitos que tinham festejado a iniciativa não chegaram a levantar a bunda da cadeira. Eu era um deles.
Mas era melhor algum colorido na rua do que nenhum, todos concordamos, sem deixar a peteca da disposição cair. Logo mensagens pipocavam elogiando mais o empenho do que o resultado, numa série de tapinhas nas costas virtuais e figurinhas de dançarinas com seus vestidos esvoaçantes e copos de cerveja brindando no vazio. Valeu pela tentativa. Na próxima a gente melhora – vocês melhoram.
Um dia, voltando da escola das minhas filhas, dei de cara com o grupo sobraçando fitas sob o sol da tarde. Quis me esconder. Eram quatro mulheres e um homem, todos suados e cobrindo os olhos com a mão em aba, num misto de arrependimento e vergonha, mais minha que deles.
Talvez quisessem desistir, eu acho que sim, o que seria totalmente compreensível e humano. Até louvável. Notei num deles, ou acredito ter notado, um pedido de ajuda expresso sub-repticiamente em olhares que eu cinicamente ignorava, enquanto acionava o portão eletrônico para entrar com o carro acima da velocidade. Não era como ignorar uma família esmolando na esquina, mas não posso dizer que me senti bem depois. Afinal, que exemplo eu era?
Ocorre que eles estavam pressionados pelo tipo de dever que domina mães e pais envolvidos com gincanas irrealizáveis, mas cuja desistência não é uma opção porque precisam ser o modelo para os seus filhos, do contrário vão se tornar apostadores ou influenciadores e viciados – ou, pior ainda, professores como eu.
Esse fastio moral passou rápido.
Já a decoração demorou mais do que o planejado, mas ficou pronta. Feia, mas concluída, eu disse isso em voz baixa no carro e repeti quando entrei em casa, falando sempre sozinho, como gosto de falar quando acordo. Mas alto o bastante para que minha esposa ouvisse e repreendesse a minha falta de espírito coletivo nessas horas e em outras.
Eu ainda estava mastigando penosamente essas verdades como pedaços de carne de segunda quando alguém avisou no WhatsApp que um caminhão havia passado pela rua e arrastado todos os enfeites, bandeiras, cordas, balões.
Não havia sobrado nada com que recomeçar o trabalho, exatamente como fazem essas pessoas que moram em zonas sob ameaça de furacões e precisam reconstruir suas casas de madeira de tempos em tempos com as tábuas que ficaram pra trás?, alguém quis saber (eu).
Nada, responderam tristemente.
Fui conferir. Desci as escadas às pressas. Cheguei lá sem fôlego. Não era propriamente verdade.
Na rua, dois ou três barbantes se contorciam ao vento com meia dúzia de bandeirinhas fixadas, para as quais fiquei olhando detidamente.
Admirei o estrago por um minuto. E mais outro. E mais outro ainda, antes de voltar e subir os três lances.
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