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O prazer das coisas

Eu sei que esse discurso parece esgotado, cansado até, mas cada vez sentimos menos que algo é palpável, que se relaciona com o mundo por meio do som ou da textura, com os quais mantemos contato familiar, íntimo.

Seja um botão, um objeto qualquer, uma ferramenta antes comum, manuseada no dia a dia, ou uma atividade agora fora de moda, fora de propósito, fora da lógica.

Tudo se passa como se a tela fosse autossuficiente, por meio dela teríamos abolido o mundo material, o elemento táctil, um conjunto de sensações que se impregnam no ato em si da execução de um procedimento.

E nem falo da cerâmica ou da carpintaria ou de coisas apenas desse tipo, “manuais”, ou seja, que demandam mais tempo e por isso estabelecem outro grau de relação entre nós e as coisas, mas de gestos que antes acionavam dispositivos empregados com determinado fim.

Em algum nível, a gente tinha alguma ideia do processo, eu acho que sim.

Toda essa cadeia foi substituída, todo um repertório de odores ou de prazeres contidos no fato de que os objetos têm peso e volume e emitem sons que são ou não agradáveis, mas com os quais aprendemos a viver.

Esse mundo desapareceu, caiu em desuso, o estalido de uma máquina, a demora na resposta de um dispositivo, o ferramental acionado para que algo muito simples ficasse pronto.

Não tenho nostalgia do tempo que levava para me conectar à internet, não é isso que estou dizendo, não é essa a questão, um retorno ao tempo em que se levava mais tempo para tudo.

Estou falando que há uma série de nexos com a materialidade que está sendo deixada de lado por conveniência, em nome da virtualidade, porque é mais fácil deslizar as pontas dos dedos pela tela, porque o tempo de espera é menor, porque tudo é automático e num clique está à disposição, porque a ideia em si de que tudo deve ou deveria estar à disposição 24/7 é perigosa em muitos níveis.

E assim uma dimensão da vida também se esvazia, porque o mecanismo digital é fantasmagórico, por trás dele não há nada, nenhuma memória se fixa, nem visual, nem táctil, nem sonora nem cromática, e o celular é hoje o principal instrumento de mediação da vida com o mundo, e não se constrói qualquer memória com um aparelho assim.

Logo, não há rastro no seu uso, estamos abrindo mão de deixar uma pegada, de traçar um caminho, de riscar as pedras ou pintar as paredes da caverna que depois será vista como índice de existência da vida no ano de 2026.

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