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Hotel

  Amanhã uma viagem curta, um refúgio por poucos dias. Acordamos cedo, arrumamos as malas e partimos. Asseguro-me de levar sempre o de que preciso, refaço as contas, repasso as palavras que pretendo dizer e as frases que talvez anote. Como sempre, levarei livros que ficarão de lado na maior parte do tempo, seja por desinteresse, seja porque nessas viagens a leitura, uma modalidade habitual, doméstica, se desloca, e entre o ato e a página se instaura a estranheza que a dificulta. Vou para perto, logo ali, uma reta ao fim da qual avistamos uma subida que continua assim por muito tempo, até que finalmente chegamos, quando já desconfiávamos de que a angulação em decolagem não cessaria. Devemos passar por esse hotel onde eu um dia estive. Ainda criança, talvez seis ou sete anos. O corpo arranhado de uma queda de skate, um anzol que se pendurou na roupa, uma prancha quebrada na piscina. Numa das histórias que conto a minha filha, ele é assombrado. Agora ela me pergunta se podemos dormir ...

Apocalipse

  Disparo num carro que não comando porque não sei dirigir, mas isso não importa agora. Um prédio desaba ao fundo, ruidoso. Uma ponte desmorona vagarosamente, como alguém que derrubasse uma pilha de pratos em câmera lenta no chão da cozinha de um restaurante, digo a mim mesmo sem conseguir explicar a natureza dessa imagem. Há fogo e explosões, mas não se sabe onde. Adivinham-se fumaça e gritos vindos de uma rua próxima, mas de lá não se descobre ninguém, nem vivos nem mortos, tampouco mortos-vivos. Sei que estou sonhando, algo me adverte de que o registro não é pra valer, como se houvesse um diretor por trás do pano piscando pra mim, e por isso desejo continuar. Porque sei que posso me arriscar, ao menos aqui, como se usasse as boias na piscina ou estivesse certo de que, se saltasse agora, haveria uma rede de proteção. Estou gostando do que vejo, jogando meu próprio sonho, num cruzamento entre virtualidade e realidade, entre descuido e consciência. Uma zona de risco calculado em me...

Sequências

  Todo dia os mesmos números, ou talvez sejam números distintos, com uma diferença de apenas um ou dois algarismos, não posso ter certeza. O celular toca, eu atendo, digo oi ou olá ou boa tarde ou bom dia, uma gravação começa e então desliga sozinha. Bloqueio o número, não quero que volte a ligar, mas outro é discado em algum lugar por uma mão ou programa cujo propósito é esse. Fazer contato com quem não quer mais atender um telefonema ou evitar isso a todo custo. Mas há sempre um modo de encontrar quem se esconde, a gente nunca está totalmente protegida ou a salvo do que teme ou provoca algum tipo de temor inexplicável. Essas ligações começam sempre nos dias pares, muito cedo da manhã. Depois seguem pela tarde e entram pela noite. Às vezes apenas números ímpares. Noutras, sequências que intercalam senhas antigas de cartão de crédito ou números primos, divisíveis por dois, múltiplos de três e por aí vai. Padrões, alguns mais evidentes, outros menos escancarados, como esse de ontem....

A língua da CPI

  Uma CPI se constitui sobretudo de linguagem verbal, ou seja, de um conjunto não muito amplo de termos que os senadores e senadoras repetem incansavelmente durante as mais de sete horas de depoimentos, com pausa breve para almoço ou ir ao banheiro. Tome-se o vocábulo “declinar”, por exemplo, usado e abusado pelos nobres congressistas, com destaque para declinações e emprego do verbo num sentido particular. Grosso modo, recorrem à palavra a fim de informar, de modo que vossa excelência estaria sempre declinando nomes ou verdades secretas, segredos de alcova, revelações capazes de mudar o curso da história ou, até mais frequentemente, questiúnculas que não estariam em princípio de acordo com o espírito de uma investigação parlamentar. No mais das vezes, contudo, declinar é apenas um jeito mais empolado que o senador arranja de pedir ao depoente que lhe conte uma fofoca, e nisso a CPI tem sido pródiga. Sim, a boa e velha fofoca, que edifica a alma da nação e salva o Brasil fazendo-...

De repente cringe

Jovens acusam velhos de serem velhos e os velhos, por sua vez, os jovens de serem jovens, de modo que a guerra etária que explodiu nas redes sociais se resume a uma troca de amabilidades intergeracional cujo efeito é revelar que os jovens são jovens e os velhos, velhos, no que estão todos cobertos de razão. Afinal, faz parte do ethos jovem desgostar do hábito do velho e do velho, maldizer o gosto do jovem, um conflito que se arrasta desde que o mundo é mundo e justifica a própria existência tanto de velhos quanto de jovens. Esse é o único Fla x Flu atemporal. A isso deu-se o nome de “cringe”, ou vergonha alheia, um sentimento que talvez se expresse melhor numa palavrinha que, para mim, sumariza tudo isso com mais eficácia, graça e sem necessidade de recorrer a estrangeirismos: “uó”. Um corte de cabelo, uma roupa, uma dança ou modo de vida são “uó” quando... Bom, a gente sabe quando são, é algo que dispensa qualquer explicação, basta olhar. Aquela ombreira que a tia usava, a camisa do p...

Na fila

  Depois de um ano e meio de pandemia e das perdas familiares, da morte de um primo, de um amigo, de amigos de amigos ou de parentes que estiveram doentes e por cuja recuperação torci, estou com vacina marcada. Chegou minha vez. Sinto que não posso me expor, mesmo a ida à esquina me parece arriscada agora que tenho data e hora para a imunização contra a peste. É como se não pudesse descuidar, como se o vírus pudesse me encurralar a qualquer vacilo, agarrando-me pelo pescoço quando menos esperar. Talvez pressinta na euforia dos modos e gestos aqueles cuja imunização se avizinha e, qual bicho traiçoeiro, ataque saltando de trás da moita, frustrando a satisfação de estar protegido contra a doença. É meu pessimismo falando, por certo, mas não convém duvidar. Não recordo a última vacina tomada. Lembro de uma agulhada, mas não de vacina mesmo, tipo gripe ou outras. Estava em viagem de trabalho pelo sertão quando me senti mal, tremia dos pés à cabeça, o queixo batia. Sentei numa calçada ...

Café da manhã

  A mãe está feliz porque súbito os filhos chegam um a um, todos novamente reunidos pela primeira vez desde o início da pandemia. Saímos de casa e agora dividimos a mesa no café da manhã. Ocupo o braço do sofá, a irmã a soleira da porta, o pai a quina da mesa, o irmão está a caminho, mas deve chegar logo, vem de moto, de onde não se sabe, mas avisou pelo Whatsapp que não demora mais e que o aguardássemos para o café. Mas antes, mesmo quando eu não tinha chegado ainda, a mãe já se servira do bule e do pão e do cuscuz e do queijo, é seu aniversário e pode ditar as regras, fazer como quer, banquetear-se sem leis ou preocupações com diabetes ou a pressão alta, mas sem exageros, eu lhe direi depois, no que ela assentirá sem tanta confiança. Bato na porta, toco a campainha, entro desajeitado, o pai me abraça antes da mãe, que está sentada e se surpreende, de modo que podemos considerar ter cumprido o objetivo de não levantar qualquer suspeita quanto à chegada de cada irmão. Um do leste...