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Uma imagem

  Às vezes é apenas uma imagem, noutras uma sucessão de quadros. O cômodo desarrumado, a mulher apenas de sutiã com o rosto contorcido, o homem sobre o seu corpo miúdo, a cama desfeita, os gritos. O que fazia ali? Eu não lembro. Tinha cinco anos, talvez seis. Passara a tarde na casa da vizinha quando o marido chegara e a vira comigo. Encheu-se de fúria, bateu na mulher, ou julgo ter batido, não posso ter certeza. Não porque eu estivesse lá, por outro motivo – qual? Fiquei encolhido no canto à espera do desfecho, mas posso também ter saído antes, enquanto discutiam e a mulher lhe atirava objetos ao alcance da mão. Cigarro, sapato, um vidro de perfume que se espatifou contra a parede e deixou a casa com esse cheiro por muito tempo e que agora subitamente recordo, sem entender por quê.

Velho normal

  Ouvi de uma amiga que tinha saudades do “velho normal”, expressão não aspeada e portanto destituída de qualquer traço de ironia que usava para se referir a esse tempo que hoje parece deslocado. O lugar de antes, um jurássico passado onde éramos outros, outras as demandas e outro o compromisso. O velho subitamente convertido em fator positivo, uma qualidade de que agora sentia falta ante o novo “novo” que, de novo, não tinha nada novo, apenas farsa ou falsificação. Bom, eu lhe disse, talvez tenhamos de considerar a hipótese não de um velho, tampouco do novo, mas de um normal “normal”, acomodando-se aos poucos, uma realidade (detesto a palavra) que se impunha pelo que é, embora não soubéssemos de fato o que nos aguardava, se um mundo refeito depois da doença ou apenas repetição do antigo, sempre mais forte, sempre presente, sempre a força que se arrasta e chega a essa outra margem. De todo modo, eu lhe falei, não tenho saudade, apenas a leve sensação de que vivi durante todos esses...

Volta às aulas

  A questão que se impõe agora, e para a qual tenho evitado olhar, é se nossos filhos devem voltar ou não às escolas e como voltar, se os mesmos ou se adaptados a espaços que os receberão diferentes, ante tudo que se viveu nesses seis meses de afastamento compulsório e reviravoltas, ânsias e agonias de separação. Nenhum plano contempla esse buraco. Então as crianças retomam o convívio umas com outras sem nada que se ofereça como explicação para o que experimentaram nesse interregno? Reagrupam-se em salas aclimatadas a esse novo real, divididas em pares ou trios, separadas por biombos, permanentemente higienizadas e asseadas para evitar que contaminem a si e aos outros? E por quanto tempo? Como dizer a um pequeno que, durante esse período, o mundo se pôs de ponta-cabeça e agora nada é mais como antes? Não sei, mas penso sobretudo nos professores, profissionais na ponta e parte do grupo de risco a quem não se dá ouvidos. De todas as vozes no debate, as menos audíveis neste momento ...

A origem do cearense

  De onde veio o cearense? Essa é uma pergunta a qual muitos pesquisadores tentam responder há décadas, sem sucesso, numa encruzilhada epistêmico-genealógica que vem desafiando gerações de intelectuais e inteligências, de Gilmar de Carvalho a Falcão.  De olho no boom das séries televisivas e no conceito de “streamingzação” da vida, no entanto, alguns estudiosos mais arrojados passaram a apostar no potencial cinematográfico e comercial de nossas indisfarçáveis raízes nórdicas, fixando nossa cearensidade no mesmo CEP de Thor e de outras celebridades do mundo mitológico, para motivo de orgulho. Por essa via de estudos, ainda no século XVI, esses proto-cearenses desembarcaram no território onde fundariam a província do Siará Grande calçando Crocs e usando “smartwatch”, a tez alva um tanto avermelhada ante a explosão de raios UVA e UVB que eles tentavam disfarçar apelando a bloqueadores com fator 80. Era o preço pela custosa aclimatação. Como se tratava de uma terra rústica, despid...

Quem cancela os canceladores?

  A dúvida surgiu quando uma pessoa que havia sido cancelada na madrugada anterior expôs logo cedo querelas antigas com um perfil cujo passado tinha nódoas, de maneira que, visto em retrospecto, não lhe cabia cancelar outrem, tampouco estimular cancelamentos em massa. De posse dessas informações obtidas por meio de rápida consulta a amigos de amigos de amigos, o neo-cancelado pôs-se a arquitetar o cancelamento do cancelador, alimentando uma espiral na qual início e fim se embaralhavam e era impossível determinar quem havia cancelado quem, se ele ao outro ou o outro a ele. Essa confusão tipicamente darkiana decerto não ajudava ninguém, sobretudo porque os postulados da nova ciência do cancelamento não comportavam relativizações, teorias sobre duplos e formulações acerca da indecidibilidade da existência de um gato dentro de uma caixa a cujo interior não temos acesso. Ou o bicho está vivo ou está morto, e se o animal não se resolve entre viver e não-viver, produzindo ansiedade e desp...

Posso ligar?

  O amigo provocou no telefone: ninguém mais liga pro outro, é um incômodo atender ligação, não sabia? Pois é, eu não sabia. Ainda supunha que um telefonema fosse dessas coisas triviais, uma banalidade na paisagem das relações cotidianas nas quais entabular uma conversa não carecia de autorização prévia do interlocutor e o diálogo era facilitado por uma disponibilidade educada e franciscana: eu doaria meu tempo para o outro, mesmo que se tratasse de um chato. Em que momento, portanto, dar um telefonema se havia convertido em suplício para quem faz e mais ainda para quem atende, um equivalente à espera na sala de um dentista cuja mesa está repleta de exemplares da “Veja” de cinco anos atrás estampando celebridades hoje desaparecidas ou subempregadas? Tão logo fui alertado pelo amigo do disparate que era demorar-se num telefone a palrar com outrem, no entanto, passei eu mesmo a evitar essa fadiga. A quem me procurasse, orientava enviar uma mensagem, a qual eu responderia por áudio ou...

Starnone e Ferrante: o duplo romance

É possível haver coincidência no fato de que dois autores comumente associados lancem ao mesmo tempo romances que não apenas se tangenciem, mas se complementem? É o caso de Domenico Starnone, com “Segredos” (Todavia), e Elena Ferrante, com “A vida mentirosa dos adultos” (Intrínseca), ambos publicados no Brasil quase simultaneamente. Se Ferrante reelabora temas que lhe são caros, como a família, a subalternidade, a violência e as máscaras sociais, Starnone também revisita o universo que se abre na sua prosa: as relações familiares e suas tensões, ora recalcadas, ora explicitadas nos conflitos domésticos. Em “Segredos”, o escritor apresenta Pietro, um professor cuja vida se constrói meticulosamente, tal como um projeto que se desenrola por cálculo. Assombra-o, no entanto, um segredo, dividido muito tempo atrás com uma mulher: Teresa. Não se trata de qualquer pecadilho, mas de um terrível segredo capaz de fazer ruir sua carreira como escritor e pensador reconhecido nos círculos da intelec...