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Quem cancela os canceladores?

 



A dúvida surgiu quando uma pessoa que havia sido cancelada na madrugada anterior expôs logo cedo querelas antigas com um perfil cujo passado tinha nódoas, de maneira que, visto em retrospecto, não lhe cabia cancelar outrem, tampouco estimular cancelamentos em massa.

De posse dessas informações obtidas por meio de rápida consulta a amigos de amigos de amigos, o neo-cancelado pôs-se a arquitetar o cancelamento do cancelador, alimentando uma espiral na qual início e fim se embaralhavam e era impossível determinar quem havia cancelado quem, se ele ao outro ou o outro a ele.

Essa confusão tipicamente darkiana decerto não ajudava ninguém, sobretudo porque os postulados da nova ciência do cancelamento não comportavam relativizações, teorias sobre duplos e formulações acerca da indecidibilidade da existência de um gato dentro de uma caixa a cujo interior não temos acesso.

Ou o bicho está vivo ou está morto, e se o animal não se resolve entre viver e não-viver, produzindo ansiedade e despesas extras para seu dono, que não sabe se deve alimentá-lo ou deixa-lo morrer de fome, cancele-se o pet (apesar de correntes animalistas sustentarem que apenas outros gatos podem cancelar gatos por estarem em pé de igualdade, e um humano que cancelasse um gato estaria tão somente impondo uma virtual superioridade interespécie).

Previsivelmente, tal como na série de ficção alemã na qual todos os personagens viajam através do tempo ao mesmo tempo para encontrar a todos em outros tempos, num grande hub quântico onde ninguém se entende e sabe para onde vai, o ciclo sem fim de cancelamentos resultou na falência do modelo.

Afinal, se não era mais possível dizer quem cancelava o quê e quem, como assegurar a distinção entre canceladores e cancelados? Pior: como garantir que o carimbo da cancela não seria prejudicado com essa leva de pessoas cujo cancelamento vinha sendo revisto por instâncias como as redes sociais, que descancelavam ou recancelavam ao sabor dos humores, havendo mesmo quem pagasse para reaver o perfil livre de pecados?

A questão evoluiu, alimentando fóruns na internet e grupos de Whatsapp por meses a fio. Sem sucesso. Um selo de cancelador oficial foi cogitado e logo descartado por receio de um fiasco como o do “bitcoin”. Um censo de cancelados também surgiu como hipótese, mas a empreitada, a exemplo da enciclopédia iluminista, consumiria muito tempo e mão de obra. Foi também deixada de lado.

Diante desse beco sem saída teorético e comportamental, alguém chegou a sugerir um “apocalipse digital” ao qual apenas os não-cancelados sobreviveriam. O evento, chamado ironicamente de “Sic mundus creatus est”, teria o objetivo de repovoar o planeta unicamente com os “puros digitais” ou algo que o valha. Por envolver também grande contingente humano e uma engenharia complexa, a ideia soçobrou de imediato.

Até que, a pretexto de atenuar o peso do problema e permitir novamente o convívio pacífico entre os bípedes inteligentes, um ex-cancelado, hoje convertido a cancelador com tendências espiritualistas, lembrou que todos nascemos cancelados aos olhos punitivos do Criador e que apenas Ele, do alto de seus milhões de seguidores e de sua onipotência multiplataforma, estaria em condições de cancelar ou não. Ao que se fez silêncio, não se sabe se de concordância ou divergência, de cancelamento ou aplauso.

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