Pular para o conteúdo principal

Posso ligar?

 

O amigo provocou no telefone: ninguém mais liga pro outro, é um incômodo atender ligação, não sabia? Pois é, eu não sabia. Ainda supunha que um telefonema fosse dessas coisas triviais, uma banalidade na paisagem das relações cotidianas nas quais entabular uma conversa não carecia de autorização prévia do interlocutor e o diálogo era facilitado por uma disponibilidade educada e franciscana: eu doaria meu tempo para o outro, mesmo que se tratasse de um chato.

Em que momento, portanto, dar um telefonema se havia convertido em suplício para quem faz e mais ainda para quem atende, um equivalente à espera na sala de um dentista cuja mesa está repleta de exemplares da “Veja” de cinco anos atrás estampando celebridades hoje desaparecidas ou subempregadas?

Tão logo fui alertado pelo amigo do disparate que era demorar-se num telefone a palrar com outrem, no entanto, passei eu mesmo a evitar essa fadiga.

A quem me procurasse, orientava enviar uma mensagem, a qual eu responderia por áudio ou texto escrito em algum instante perdido do meu dia atribulado, simulando ao máximo naturalidade e o mesmo tipo de interação humana que teríamos acaso estivéssemos pendurados no fone. Mas ligar, nunca.

E assim as semanas se passaram sem que, desse mundo alheio e estranho, eu conhecesse a voz estalando do outro lado, ao vivo e simultânea, num ato de conversação que se desenrola para emissor e receptor ao mesmo tempo, produzindo aquele abismo de significado que é resultado de uma variável que tentamos eliminar a todo custo hoje em dia: a incerteza.

Ora, pessoa orgulhosamente ocupada que eu era, aos poucos descobri o prazer de excluir os mediadores e assegurar controle absoluto sobre a minha vida disponível para terceiros. Tornei-me um excelente gerente de resultados pessoais, organizando cada indivíduo segundo critérios de “atendebilidade”.

Explico: “atendibilidade” é uma escala criada por mim para classificar os membros do meu círculo social direto e indireto, tais como amigos, parentes, colegas de trabalho e desavisados.

Num intervalo de um mês, por exemplo, eu havia atendido somente duas ligações da mãe (atendibilidade máxima), uma do pai e outras duas do chefe. Recusei todas as demais sob pretexto de que eu estava muito atarefado quando, na verdade, jogava videogame ou comia pão com café na varanda de casa enquanto o gato se aninhava sobre meus pés. Mas isso importava? Claro que não.

Não demorou para que o telefone parasse de tocar e as mensagens escasseassem de vez. Desapareceram até as ligações com DDD 011 ou 021 cujo interlocutor normalmente emudecia quando, num ato impensado nesses dias em que tinha saudade de ouvir a voz de quem quer que fosse, atendia e dizia um débil “alô”.

Como não houvesse serventia, me desfiz do aparelho telefônico e do computador, que acabava reproduzindo e-mails aos quais eu também não desejava retrucar. Por um efeito cascata, joguei fora um tablete e a caixa de som inteligente, fazendo cessar qualquer movimento “smart” que pudesse existir na casa.

Ao cabo de sete dias de varredura diligente à cata de qualquer objeto que pudesse ecoar os sons da natureza humana, finalmente descansei. Em redor, o silêncio era tão persistente que me fez ouvir o barulho distante de um casal andando na rua. Sobre o que conversavam? Eu não sabia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...