Pular para o conteúdo principal

Postagens

Volta às aulas

  A questão que se impõe agora, e para a qual tenho evitado olhar, é se nossos filhos devem voltar ou não às escolas e como voltar, se os mesmos ou se adaptados a espaços que os receberão diferentes, ante tudo que se viveu nesses seis meses de afastamento compulsório e reviravoltas, ânsias e agonias de separação. Nenhum plano contempla esse buraco. Então as crianças retomam o convívio umas com outras sem nada que se ofereça como explicação para o que experimentaram nesse interregno? Reagrupam-se em salas aclimatadas a esse novo real, divididas em pares ou trios, separadas por biombos, permanentemente higienizadas e asseadas para evitar que contaminem a si e aos outros? E por quanto tempo? Como dizer a um pequeno que, durante esse período, o mundo se pôs de ponta-cabeça e agora nada é mais como antes? Não sei, mas penso sobretudo nos professores, profissionais na ponta e parte do grupo de risco a quem não se dá ouvidos. De todas as vozes no debate, as menos audíveis neste momento ...

A origem do cearense

  De onde veio o cearense? Essa é uma pergunta a qual muitos pesquisadores tentam responder há décadas, sem sucesso, numa encruzilhada epistêmico-genealógica que vem desafiando gerações de intelectuais e inteligências, de Gilmar de Carvalho a Falcão.  De olho no boom das séries televisivas e no conceito de “streamingzação” da vida, no entanto, alguns estudiosos mais arrojados passaram a apostar no potencial cinematográfico e comercial de nossas indisfarçáveis raízes nórdicas, fixando nossa cearensidade no mesmo CEP de Thor e de outras celebridades do mundo mitológico, para motivo de orgulho. Por essa via de estudos, ainda no século XVI, esses proto-cearenses desembarcaram no território onde fundariam a província do Siará Grande calçando Crocs e usando “smartwatch”, a tez alva um tanto avermelhada ante a explosão de raios UVA e UVB que eles tentavam disfarçar apelando a bloqueadores com fator 80. Era o preço pela custosa aclimatação. Como se tratava de uma terra rústica, despid...

Quem cancela os canceladores?

  A dúvida surgiu quando uma pessoa que havia sido cancelada na madrugada anterior expôs logo cedo querelas antigas com um perfil cujo passado tinha nódoas, de maneira que, visto em retrospecto, não lhe cabia cancelar outrem, tampouco estimular cancelamentos em massa. De posse dessas informações obtidas por meio de rápida consulta a amigos de amigos de amigos, o neo-cancelado pôs-se a arquitetar o cancelamento do cancelador, alimentando uma espiral na qual início e fim se embaralhavam e era impossível determinar quem havia cancelado quem, se ele ao outro ou o outro a ele. Essa confusão tipicamente darkiana decerto não ajudava ninguém, sobretudo porque os postulados da nova ciência do cancelamento não comportavam relativizações, teorias sobre duplos e formulações acerca da indecidibilidade da existência de um gato dentro de uma caixa a cujo interior não temos acesso. Ou o bicho está vivo ou está morto, e se o animal não se resolve entre viver e não-viver, produzindo ansiedade e desp...

Posso ligar?

  O amigo provocou no telefone: ninguém mais liga pro outro, é um incômodo atender ligação, não sabia? Pois é, eu não sabia. Ainda supunha que um telefonema fosse dessas coisas triviais, uma banalidade na paisagem das relações cotidianas nas quais entabular uma conversa não carecia de autorização prévia do interlocutor e o diálogo era facilitado por uma disponibilidade educada e franciscana: eu doaria meu tempo para o outro, mesmo que se tratasse de um chato. Em que momento, portanto, dar um telefonema se havia convertido em suplício para quem faz e mais ainda para quem atende, um equivalente à espera na sala de um dentista cuja mesa está repleta de exemplares da “Veja” de cinco anos atrás estampando celebridades hoje desaparecidas ou subempregadas? Tão logo fui alertado pelo amigo do disparate que era demorar-se num telefone a palrar com outrem, no entanto, passei eu mesmo a evitar essa fadiga. A quem me procurasse, orientava enviar uma mensagem, a qual eu responderia por áudio ou...

Starnone e Ferrante: o duplo romance

É possível haver coincidência no fato de que dois autores comumente associados lancem ao mesmo tempo romances que não apenas se tangenciem, mas se complementem? É o caso de Domenico Starnone, com “Segredos” (Todavia), e Elena Ferrante, com “A vida mentirosa dos adultos” (Intrínseca), ambos publicados no Brasil quase simultaneamente. Se Ferrante reelabora temas que lhe são caros, como a família, a subalternidade, a violência e as máscaras sociais, Starnone também revisita o universo que se abre na sua prosa: as relações familiares e suas tensões, ora recalcadas, ora explicitadas nos conflitos domésticos. Em “Segredos”, o escritor apresenta Pietro, um professor cuja vida se constrói meticulosamente, tal como um projeto que se desenrola por cálculo. Assombra-o, no entanto, um segredo, dividido muito tempo atrás com uma mulher: Teresa. Não se trata de qualquer pecadilho, mas de um terrível segredo capaz de fazer ruir sua carreira como escritor e pensador reconhecido nos círculos da intelec...

O mundo secreto de Elena Ferrante

Após intervalo de cinco anos desde o último livro publicado, a escritora italiana Elena Ferrante volta às prateleiras das livrarias. “A vida mentirosa dos adultos” (Intrínseca) chega apenas em setembro por aqui, mas já está disponível desde o mês passado aos assinantes do clube de leitura da editora, em tradução de Marcello Lino. No novo romance, uma adolescente chamada Giovanna se volta para a própria família à procura de desvendar-lhe os segredos, explorando os desvãos da língua, o italiano e sua forma dialetal, e também do sangue, representado pela tia Vittoria, a quem a protagonista é maldosamente comparada pelo pai. O ponto de partida é uma frase flaubertiana: “Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia”, narra Giovanna, à época com 12 anos, filha do típico casal da elite intelectual. Eis o golpe, o mesmo aplicado por Emma a Berta em “Madame Bovary” – como se a linhagem perdesse força naquele elo, então condenado a repetir um passado que não c...

Arrepender-se

Gente, eu tô aqui primeiro pra pedir desculpas, segundo porque já se passaram dez anos desde o meu sumiço, terceiro porque acho que já era tempo de eu mesmo me perdoar por tudo de ruim que eu falei naquela festa no meio da quarentena de 2020, vocês lembram? Eu tava realmente muito bêbado, feliz da vida, cercado de amigos, e então decidi naquele instante que eu iria deliberadamente perder as estribeiras, ainda que isso me custasse muito, como de fato custaria. Ainda custa. Mas são águas passadas e não vale a pena reviver isso. De maneira que achei oportuno voltar agora não pra explicar o que houve, mas pra dizer que hoje sou uma pessoa transformada, sabe? Eu realmente precisei cumprir esse arco narrativo de vilania para chegar ao outro lado melhor do que eu era, isso tinha de acontecer de fato porque eu me sentia esgotado. Então eu quebrei por dentro e por fora, por dentro porque passei a sentir uns problemas na cervical e arritmias, síndrome do pânico etc., por fora porque minha pele d...