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Postagens

Diário da quarentena (parte 2)

Uma semana se passou desde que saí de casa pela última vez, de modo que precisei inventar razões para ir até a mercearia da esquina, único ponto de concentração de pessoas num raio de muitos quilômetros. Como faltasse banana em casa, calhei de que a fruta era necessidade básica, um item vital sem o qual o combate ao coronavírus fracassaria no ambiente doméstico, colocando a vida de todos em risco, algo como uma máscara ou álcool em gel. Era mentira, claro. Na verdade, eu só queria ver gente, não importava quem fosse, desde que fosse gente de verdade e não rostos em imagens de baixa qualidade na tela do celular ou do computador tremulando ou congelando em caretas sempre que a conexão caía ou perdia força. Desci à bodega, que é o termo mais adequado para chamar aquele espaço no qual garrafas de cachaça dividem os cestos de compras com pacotes de macarrão e latas de feijoada. Esperava encontrar os mesmos bêbados de sempre, homens mais velhos e também jovens cuja rotina etíl...

Diário da quarentena

Que fazer na quarentena? A dúvida incomodava, não apenas porque escancarava a condição privilegiada de quem se permite elencar atividades e distrações num momento de pandemia, mas também porque de fato carregava um sentido honesto: que fazer? Eu não sabia. Apesar das dificuldades, e cansado de ler jornais e ver TV com imagens de italianos bonachões manejando acordeons de suas casas instaladas em paisagens do século XVI enquanto bebericam vinho, tentei puxar um coro de Raça Negra na varanda de casa. Ninguém respondeu, exceto um gato no telhado da casa ao lado, que miou de volta, como se compadecido ante o esforço de criar uma sociabilidade no meio desse quadro de excepcionalidade a que o vírus empurrou a todos, impondo a distância como regra de convívio e fazendo do mundo um grande programa de fim de semana de adolescentes com dificuldade de relacionamento.   Eu estava cansado, portanto, irritado e cansado. Irritado, cansado e profundamente desconfiado diante de tudo...

Sem defeitos

Em que momento a gente passou a dizer que fulano ou fulana é “sem defeitos” em tom elogioso, ainda que de brincadeira, mas de partida anunciando essa pretensão de perfeição, de surpreender noutra pessoa não um equilíbrio mal-assentado, e sim uma projeção edulcorada e politicamente correta de justeza de caráter e infalibilidade? Desculpem a frase longa, mas é isso. Sem defeitos, que é o mesmo de isento de qualquer mácula ou mancha moral, tão reto e firme de espírito como se suas convicções houvessem passado por duas lavagens com sabão em pó e depois fossem estendidas na varanda para secar. Porque é disso que estamos falando quando o sicrano se vira e sapeca: mas ele é sem defeitos, admitindo-se aí toda a carga de exagero e licença poética que a fala carrega. Ora, se a gente sabe de antemão que ninguém é uma tábua, por que cargas d’água a expressão sem defeitos, que leva em si uma penca deles, se converteu num chavão lacrador de rede social e senha para autorizar a canonização ...

Antes da festa

Escrevo antes da festa, madrugada alta, computadores ainda iluminados. Uma chuva que bateu e já foi, abrindo caminhos na sexta que é também ela o começo de um quê. Depois vem o sábado e adiante o domingo, enfileirados, casal indistinto. Dele jamais se sabe, dela menos ainda, de modo que as horas do início se embaralham. Lembro quando o tempo era outro. Lembro do bloco e da rua apinhada e na rua desse momento em que bebi além da conta e dancei talvez certo de que ensaiava comigo um passo torto cujo ritmo aprendi. Desaprendi. Tornei a aprender, e agora sei de mim tanto que tento me fazer caber dentro desse corpo. Agora começa tudo de novo, as horas inaugurais feito uma corrida espacial, gente que se encapsula e é atirada num módulo lunar para muito depois de qualquer fronteira. Carnaval de projetar-se ao mais distante. De andar a esmo, vadiar, deixar-se aceso para mais de cinco horas, empenhados que estamos sempre em descer ao de dentro e em seguida voltar trazendo de lá restos de e...

Novas fantasias de carnaval

Paralisado por uma dúvida existencial sobre o que vestir na folia, fui até uma loja no Centro comprar fantasia de Carnaval para a festa que se avizinha e notei entre os presentes no estabelecimento um gosto sortido por novidades, coisas que eu nunca tinha visto antes e adereços até então desconhecidos – diria mesmo extravagantes. Procurei então ajuda com uma vendedora, que me disse sorridente que, a pedido do gerente, precisou renovar as prateleiras de última hora depois de um surto de procura por peças que antes estavam encalhadas ou cuja fabricação jamais fora cogitada por nenhuma costureira ou artesã de Fortaleza. E citou como exemplo a fantasia de Fiscal de *. Ante minha expressão de surpresa, ela cuidou em explicar em pormenores. Vendida a módico R$ 1,99, continuou a simpática funcionária da loja, a indumentária, a mais barata entre todas, permite ao brincante desfilar na avenida como um autêntico fiscal do * alheio, que é o cara ou a mina que chega perto e pede licença ao fol...

Cancelar ou chancelar?

Na dúvida entre chancelar ou cancelar tal pessoa que eu considerava bacana, caí na bobagem de esperar, ponderando prós e contras e tentando encontrar um meio-termo entre qualidades e defeitos. Mas esse exercício só me fez perder tempo, e a crista da onda passou levando consigo potenciais seguidores. Esse foi o meu pecado. Apenas muito tardiamente resolvi cancelar o cara, e então me pus a xingar a figura nas redes, me empenhando em críticas cada vez mais virulentas que eu fazia chegar a todos por meio do meu perfil no Twitter, a rede social perfeita para a propagação febril desse tipo de ação raivosa. As notificações pipocaram em instantes, não aplaudindo minha ojeriza e retórica inflamada, mas pedindo que eu revisse minha postura radical, já que o fulano havia se retratado minutos antes e explicado tudo numa postagem muito longa noutra rede que não costumo frequentar. Rapidamente passei a redigir eu mesmo o meu próprio mea culpa, admitindo que havia cancelado o dito-cujo sem ...

Mudar de óculos

Trocar de óculos é uma experiência. Altera o rosto. De repente, você é outra pessoa, os olhos se amiudando atrás de uma armação diferente da que costumava usar, o incômodo de parecer um alheio, um duplo de si – mas quem? A pessoa do óculos é e não é você, como o gêmeo siamês naquele retrato da festa de 15 anos. Eu a conheço? Talvez não, talvez sim. Vejo-a na imagem e lembro de dez anos atrás, quando passou no oculista logo depois de dilatar a pupila e sair trôpego pela avenida enxergando apenas borrão. O segundo par: desenho fino, uma bossa nos sobrolhos e as hastes num marrom esmaltado cafona. Tinha 30 anos então, mas parecia ter 40. Sempre foi velho. Bola pra diante. Naquele momento, a moda era aparentar mais idade, mas agora que tem mais idade, escolheu um modelo mais jovial. Nada colorido ou de aro muito adelgaçado, porque pode torcer e se partir com facilidade, basta esquecê-lo no sofá.  Queria um mais barato, então indicaram a loja dos evangélicos, ali no Centro. Foi até ...