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Viagem

Pensei num balanço, coisa que escreveria a fim de retomar o fio do ano perdido entre casas descosturadas e botões desfeitos.  Desisti ante o esforço. Caberia uma rememoração custosa, coisa que não me vejo capaz de fazer agora, talvez nem tão cedo. O que não impede de ir sozinho amiudando uma conversa comigo, algo próximo dessa ruminação bovina que demarca um cotidiano com vagar. Fico andando, somente. Um arrastado de chinela de dedo pelo corredor como se rondasse a porta entreaberta atrás da qual se esconde - o  quê? Eu não sei. Depois descalço, as plantas dos pés tocando o frio da cerâmica, e em seguida tudo se ajustando numa temperatura só. É ano sem medida este que se encerra. Tempo dilatado no qual cabe muito e do qual muito escapa pelas bordas.  Matéria inapreensível, tão escorregadia que não arrisco deter sob o risco de não haver nada ao final para segurar.  Quem sabe volte antes da meia-noite do dia 31 de dezembro deste 2018 a dizer qualqu...

Natal sem partido

Depois das brigas e discussões no WhatsApp. Depois dos laços desfeitos pelas urnas. Depois de xingar primos e cunhados e chamá-los de coxinhas ou mortadelas. Depois de mandar a tia às favas. Depois de renegar os vínculos sanguíneos e rasgar fotos de catecismo em que aparecíamos ao lado daquele tio que de repente se revelara um preconceituoso de carteirinha. Depois dessa carnificina política que durou dois turnos eleitorais e ganha sobrevida a cada nova liminar de ministro mandando soltar o Lula, chegou a hora de reencontrar a família na ceia do Natal. Bom, eu não sei como me comportar na primeira celebração do tipo após as eleições. Falo com honestidade. Fã da data, costumo fazer um rodízio de ceias, passando por cada casa de parente coletando um dízimo em fartas Tupperware que depois empilho na geladeira e das quais me sirvo até o ano seguinte sem precisar comprar absolutamente um farelo na mercearia. Neste ano será assim? Não sei. Por mais devotado à solidariedade e...

Circular

Talvez não exista outro modo de ir avançando senão esse, tatear as coisas pelas beiradas, tocar cada uma antes de finalmente experimentar. E depois parar, dolorosamente parar. Um caminho tortuoso, acidentado, mas que, depois de feito, guarda essa sensação de que vale a pena. Por ora me interessa essa forma circular, um movimento giratório que parece às vezes não sair do lugar e, todavia, é como um desses furacões que rodopiam em dois níveis: sobre o próprio eixo e à frente, atraindo e repelindo ao mesmo tempo. Salto agora. Reli trechos de contos antigos, muito antigos. Casualmente encontrei o livro, do qual li partes pulando. Apenas um se salva. É narrado por uma mulher. Nos demais já não há essa força. Não me agradavam antes, bem menos agora. Não se sustentam, não param em pé. Estão vazios dessa verdade que não é apenas estética, mas pessoal também. Uma verdade que projetamos no que fazemos para que as coisas não se percam no oco. Esse conto da menina é difer...

Um novo arquivo

Nomeio o arquivo. Em seguida começo a escrever. Amar é passar a chamar o impalpável pelo nome. Antes não o conhecíamos, agora é familiar, um rosto, um cheiro, uma certa topografia afetiva, o estranho progressivamente tornando-se mais e mais perto, o longínquo criando braços nesta outra margem. O arquivo é despretensioso. Chama-se “contos”, e nele vou juntando textos escritos nos últimos cinco ou seis ou dez anos, no caso de alguns mais antigos que remontam a outra vida. A maior parte, no entanto, é composta por material recente, dois anos, no máximo. Tenho dificuldade de ir mais longe, então me apego a esse agora escapadiço que tento reter a um custo alto. O custo é ir cavando mais fundo enquanto escrevo, varejando feito mosca um prato de comida ou um bicho solto no pasto. Cavar como minerar. É com isto que escrever se parece em muitos momentos, mediante ferramentas cegas e inadequadas, ir batendo e lascando o metal contra pedras afiadas à procura sabe-se lá de quê, sem q...

Um encontro

A mulher de cabelo descolorido o encara mais uma vez. Sheila, ela mentiria mais tarde. Usa shortinho curto e top rosa. Na verdade, mal chega a erguer a mão. Sai na frente. Logo atrás segue o homem. Magro, veste calça bem engomada e camisa passada por dentro, uns sapatos engraxados marrons que lhe dão mais cinco anos além dos 43 que tem. Carrega uma capanga sob o braço. Os dois se afastam da praça, àquela hora ruidosa. Entram numa rua movimentada, barracas de milho e churrasco e produtos importados, quinquilharias chinesas trazidas aos milhares e distribuídas no centro. Ela então pede que se aproxime. Baixinho, pergunta se ele prefere pagar o quarto ou se poderiam ir a um indicado por ela. O homem assente. Andam mais dois quarteirões até chegar ao edifício de fachada espremida entre lojas de estofados. Um prédio que já foi shopping e ótica. O quarto tem cheiro de Leite de Rosas e detergente. A mobília se constitui de penteadeira e cama.   Finalmente a olha ...

Cascas

A casca grossa do baobá, impenetrável como carapaça de bicho antediluviano encontrado náufrago na areia da praia. Era domingo. Passeava pela cidade, visitava marcos históricos da fundação da metrópole. Um farol, uma estátua, uma praça. Procurava entender a raiz, como começara e como terminaria. Fora parar ali andando, ao lado da árvore gigantesca cuja copa encobria outras copas. O corpo riscado como o dela, tatuado às dezenas e centenas, nomes inscritos de adolescentes apaixonados, corações feitos com corretivos, balões registrando aniversários, um sem número de datas. Declarações de amor. O tronco largo, de quantos braços precisaria para envolvê-lo, quantos corpos bastariam para alcançar a largueza daquela árvore? Lembrou então de sua pele rugosa, o trato severo dos produtos baratos que usava para se banhar, lavar o rosto, as partes. Nele não havia diligência nenhuma. Cravos e espinhas o cobriam como escaras do baobá doente que, no entanto, preservava uma vit...

Interior

Uma coisa bonita é quando pergunta: qual é o seu interior? Como se houvesse uma cidade aonde pudesse voltar a cada temporada, um lugar de pouso, descanso e rememória. Feita em modo de conversa, o objetivo não é descobrir nenhuma qualidade pessoal ou radiografar a natureza morfológica de nossos órgãos vitais, se de fato existem ali dentro da caixa torácica pulmões, fígado e coração. A pergunta quer simplesmente entender de onde você vem. Parte da certeza de que você é daqui, de Fortaleza, mas chegou à cidade vindo de outra, perto ou distante, e dela carrega algo, uma lembrança, uma experiência, um conjunto sensorial diverso ao qual recorre quando precisa entender do que é feito. A maneira como é formulada, portanto, já pressupõe que, embora viva nesta geografia, o seu interior é outro. Para onde você volta, então? A essa paisagem afetiva e geográfica. O seu lugar de origem, seja a própria, seja a familiar. Se você não tem, seus pais ou avós devem ter. Quando crianç...