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Voto

Meia noite e quinze, então já é domingo, esse dia estranho em que milhares – milhões – de pessoas têm de tomar uma decisão, por uma razão ou outra. Escolher um lado, um nome pra chamar de melhor ou pior, mas sempre em relação a outro nome. Logo, a outro grupo de eleitores, cujas motivações são igualmente legítimas e sinceras e honestas – presumidamente honestas – quanto as do primeiro grupo. Tudo isso em tese. Tudo isso em tese. Na prática, há sempre um veja bem, meu bem. Hoje não é diferente. Há razões pra tantos gostos estranhos, e às vezes o gosto normal esconde uma fruta podre. Como o hábito saudável, o corrupto. Há razões que nenhuma razão explica, disse Drummond ou foi Clarice Lispector ou alguém se passando por Drummond ou Clarice num perfil falso. Um mal-entendido que se desfaz com o Google. Voltando. Esse dia estranho. O voto. A certeza de que influencia no jogo, que decide, que contribui para formar esse quadro que se desenha algumas horas depois, votos ...

Espera

Fico dando voltas, como alguém na esquina que espera. Sem saber, espera. Dou mais uma volta. E outra. E mais uma. Espero que aconteça. Finalmente, vai acontecer. Espero mais um pouco. Não acontece ainda. Penso que não chegou a hora, a hora certa, a hora que cada coisa escolhe para ser o que de fato é. Aquela hora em que olhamos e pensamos: tinha de ser. Não era. Ainda. Não, por enquanto. Fingiu esperar mais um pouco antes de ir embora e se perguntar se não deveria ter esperado além do tempo que as pessoas habitualmente esperam algo pelo qual já não têm esperança. Esperar por birra, por farra, porque não é como qualquer um, e, além do mais, esperança é um conceito quase cristão. Ele não era. Não é cristão. Então esperou. Depois foi embora.

O dia do mês

Vamos ver se consegue agora que já não tem tanto tempo, apenas o tempo que falta, e o tempo que falta é sempre esse ponto indeciso entre o que passou e o que vem pela frente. Que época difícil, que ano difícil, que semana idem, ontem mesmo foi um dia bem complicado, mas hoje talvez não seja – acabou sendo.    Ontem saí e dei dois passos adiante, quando queria mesmo era recusar, andar pra trás, recuar no tempo e no espaço, não um retrocesso cronológico, tampouco material, mas regredir num certo aspecto que até acho difícil de explicar. Uma volta a algo que nem existe mais, talvez nunca tenha existido, um retorno a um estado de latência, de potência, nada acontecia ainda, apenas semente. Bobagem, penso depois, porque todo estado é resolução e a verdade de um anterior, logo, nada de quadros estáticos em que vislumbramos o mundo como acontecimento por vir. Tudo está sempre vindo. A gente dá de cara com as coisas porque quer. Porque anda desatento. Porque tenta desvia...

Parágrafo noturno

Que se escreva não à noite, mas durante o dia, por alguém que acredite ser noite e não dia, que troque as horas e as luzes, que confunda claro e escuro e de vez em quando até nem veja diferença entre uma coisa e outra, estando e não estando, alguém cuja falta de capacidade para distinguir mudanças climáticas e pequenas alterações não seja um embaraço, um fardo, mas um motivo de alegria, um contentamento qualquer como dinheiro encontrado no bolso da calça dobrada no espaldar da cadeira. Um parágrafo assim, feito ao avesso, desengonçado, mais fabulação que história, mais acaso e desencontro que fio e caminho, mais lusco-fusco que meio dia ou noite já bastante avançada. 

Travessia

Outro exemplo é o da faixa em X do cruzamento das avenidas da Universidade e 13 de Maio, um trecho de intenso ir e vir formado por diagonais que partem de extremos diferentes e se encontram no meio da rua, num pedaço de asfalto onde só cabem paradas quando de manifestações estudantis, e aí, sim, é permitida a pausa no tráfego, a interrupção do fluxo, a falha do deslocamento. Sem isso, o encontro da faixa cruzada é uma casualidade, resultado de uma lógica probabilística – duas pessoas caminhando a partir de pontos diferentes em velocidades diferentes e sentidos contrários podem se encontrar no exato momento em que cruzam o corredor estudantil, no centro da faixa, no X do X que traçaram para facilitar a travessia de pedestres não de ponta a ponta, mas de extremos a extremos. 

Corrida espacial

Andou até o farol e lá de cima o que viu aqui em baixo pareciam formigas, só que um pouco maiores. Aquele pedaço da cidade nunca antes visto. Morava há 36 anos no mesmo lugar, vendo as mesmas ruas, as mesmas pessoas, mas ainda hoje se espantava de que tudo fosse tão diferente. Podia ser Fortaleza, mas também qualquer outro lugar.   Uma lista de locais que imaginava desconhecer parcialmente ainda que já os tivesse visitado antes: O cemitério de barcos. A praia. A praça central. A igreja. Um dia, passando de carro na avenida, tentou fixar cada rosto na parada de ônibus. Uma dúzia de pessoas. Aonde iam, o que esperavam, com quem falavam ao telefone? Sentiu novamente a vertigem de estar diante da vida que escapa. Era uma imagem-clichê, dessas que palestrantes usam nos auditórios quando querem impressionar uma plateia leiga. Era a imagem a que recorria sempre. Porque era simples, verdadeira e pessoal. Tudo acontecia fora dali, fora do que considerava como s...

A vida entre condomínios

Parece que a vida política do Brasil vive agora entre dois condomínios, o Aquarius e o Solaris. O primeiro representa uma resistência da classe média ilustrada contra o capital – com todas as reservas possíveis ao heroísmo salvacionista contido aí. Uma recusa, em suma, ao que atropela a vida, impondo-se como força da natureza.  Não é apenas o endereço da personagem Clara, vivida por Sonia Braga no filme homônimo de Kleber Mendonça Filho. Aquarius também dá nome a uma era cujas características são uma maior consciência, humanitarismo, revoluções, igualdade etc. É o tempo de abolir as fronteiras entre os povos e classes sociais. É uma era de retomada da utopia, e os modos do autoritarismo entram em colapso. Simbolicamente, a era de Aquarius equivale a um salto espiritual, com o humano mais próximo de si. Já vivemos esse tempo ou ainda tateamos às cegas? É aí que entra outro condomínio, o Solaris. Centro de uma operação policial, a Lava Jato, é onde se localiza o s...