Que se escreva não à noite, mas durante o dia, por
alguém que acredite ser noite e não dia, que troque as horas e as luzes, que
confunda claro e escuro e de vez em quando até nem veja diferença entre uma coisa
e outra, estando e não estando, alguém cuja falta de capacidade para distinguir
mudanças climáticas e pequenas alterações não seja um embaraço, um fardo, mas
um motivo de alegria, um contentamento qualquer como dinheiro encontrado no
bolso da calça dobrada no espaldar da cadeira.
Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...