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Parágrafo noturno

Que se escreva não à noite, mas durante o dia, por alguém que acredite ser noite e não dia, que troque as horas e as luzes, que confunda claro e escuro e de vez em quando até nem veja diferença entre uma coisa e outra, estando e não estando, alguém cuja falta de capacidade para distinguir mudanças climáticas e pequenas alterações não seja um embaraço, um fardo, mas um motivo de alegria, um contentamento qualquer como dinheiro encontrado no bolso da calça dobrada no espaldar da cadeira. Um parágrafo assim, feito ao avesso, desengonçado, mais fabulação que história, mais acaso e desencontro que fio e caminho, mais lusco-fusco que meio dia ou noite já bastante avançada. 

Travessia

Outro exemplo é o da faixa em X do cruzamento das avenidas da Universidade e 13 de Maio, um trecho de intenso ir e vir formado por diagonais que partem de extremos diferentes e se encontram no meio da rua, num pedaço de asfalto onde só cabem paradas quando de manifestações estudantis, e aí, sim, é permitida a pausa no tráfego, a interrupção do fluxo, a falha do deslocamento. Sem isso, o encontro da faixa cruzada é uma casualidade, resultado de uma lógica probabilística – duas pessoas caminhando a partir de pontos diferentes em velocidades diferentes e sentidos contrários podem se encontrar no exato momento em que cruzam o corredor estudantil, no centro da faixa, no X do X que traçaram para facilitar a travessia de pedestres não de ponta a ponta, mas de extremos a extremos. 

Corrida espacial

Andou até o farol e lá de cima o que viu aqui em baixo pareciam formigas, só que um pouco maiores. Aquele pedaço da cidade nunca antes visto. Morava há 36 anos no mesmo lugar, vendo as mesmas ruas, as mesmas pessoas, mas ainda hoje se espantava de que tudo fosse tão diferente. Podia ser Fortaleza, mas também qualquer outro lugar.   Uma lista de locais que imaginava desconhecer parcialmente ainda que já os tivesse visitado antes: O cemitério de barcos. A praia. A praça central. A igreja. Um dia, passando de carro na avenida, tentou fixar cada rosto na parada de ônibus. Uma dúzia de pessoas. Aonde iam, o que esperavam, com quem falavam ao telefone? Sentiu novamente a vertigem de estar diante da vida que escapa. Era uma imagem-clichê, dessas que palestrantes usam nos auditórios quando querem impressionar uma plateia leiga. Era a imagem a que recorria sempre. Porque era simples, verdadeira e pessoal. Tudo acontecia fora dali, fora do que considerava como s...

A vida entre condomínios

Parece que a vida política do Brasil vive agora entre dois condomínios, o Aquarius e o Solaris. O primeiro representa uma resistência da classe média ilustrada contra o capital – com todas as reservas possíveis ao heroísmo salvacionista contido aí. Uma recusa, em suma, ao que atropela a vida, impondo-se como força da natureza.  Não é apenas o endereço da personagem Clara, vivida por Sonia Braga no filme homônimo de Kleber Mendonça Filho. Aquarius também dá nome a uma era cujas características são uma maior consciência, humanitarismo, revoluções, igualdade etc. É o tempo de abolir as fronteiras entre os povos e classes sociais. É uma era de retomada da utopia, e os modos do autoritarismo entram em colapso. Simbolicamente, a era de Aquarius equivale a um salto espiritual, com o humano mais próximo de si. Já vivemos esse tempo ou ainda tateamos às cegas? É aí que entra outro condomínio, o Solaris. Centro de uma operação policial, a Lava Jato, é onde se localiza o s...

Uma olhadinha pra trás

Vendo tudo em retrospecto, o que não deixa de ser um exercício melancólico, olhar novamente os fatos, agora com outros olhos, olhos de outra pessoa que não a que tomou as decisões então sensatas mas que, reexaminadas neste momento, parecem extravagantes, quando não claramente equivocadas e motivadas por razões que se apresentavam como questionáveis tão logo se tinha formado a convicção pessoal da qual resultariam. Vendo tudo em retrospecto, fico pensando se não deveria considerar a hipótese de que, qualquer que seja a decisão, jamais parecerá correta. Tenha a intenção que tiver, a gente não se contenta, entende? É amoral. A moral da história. E olha que pensei nisso relendo um texto publicado dois anos atrás do qual tenho até certo orgulho, mas que me fez lembrar de outro que me causa alguma vergonha. Logo, tratei de renegar. Mas, imediatamente, lembrei também que o futuro exerce um peso considerável. Tudo que não aconteceu, o que ainda pode vir, o virtual, o hipotétic...

A minha timeline

Agora as pessoas não falam mais na cidade, no bairro, na rua, na casa. Agora as pessoas falam na minha timeline, como se conhecessem cada um que faz parte da sua timeline, como se cada timeline fosse uma extensão ególatra de si mesmo, como se a rede de amigos refletisse as boas escolhas que fazemos, como se se tratasse realmente de uma rede, e de amigos em rede, e não de pessoas mais ou menos conhecidas que, embora conectadas, permanecem estranhas umas às outras, como se houvesse razão para orgulho no fato de que uma rede, de tão fechada, fosse refratária a qualquer notícia vinda do mundo de lá, como se, feito uma bolha, a TL, a minha TL, me mantivesse a salvo dessas mesmas notícias ruins que chegam de todos os cantos, como os linchamentos e assaltos, os preconceitos e os roubos, os assassinatos e os elogios a políticos de extrema direita, como se, mantido longe de notícias ruins, essas mesmas notícias passassem a não existir como num passe de mágica, como se, não existindo, e co...

Perdido

Foi o sonho novamente, o mesmo de antes, acordava e andava um pouco sem saber, como depois da escola quando ainda era criança e precisava chegar em casa  por outro caminho que não o de sempre. Daí tentei uma rua diferente. E outra. E mais outra ainda. E me perdi. Fui encontrado muitos quarteirões depois, noutro bairro, um amigo do pai me levou de volta na garupa da bicicleta. Em casa, o pai chorava na cozinha. Até hoje não entendo por que o pai chorava na cozinha e não na rua. O que o pai fazia em casa. Era a maneira dele de tentar me encontrar. Contar com a sorte. Outra vez foi ainda mais curioso: fui atropelado voltando pra casa de madrugada. Em casa, o pai de novo em desespero. Não lembrei de placa nem modelo do carro, apenas que tinha perdido o retrovisor. O pai saiu feito louco no dia seguinte e não voltou antes de encontrar o carro sem o retrovisor.  Era o mesmo que tinha me atropelado.