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MEIA MARATONA DO MEIO-FIO (leia antes tópico CÃES DO ALUGUEL)

Vale destacar que, a nível de CAPS LOCK, não pude descobrir o que estava sendo sorteado, ou BINGADO, enfim, qual era a prenda à qual a vizinhança concorria em caso de acertos plenos, ou seja, caso a cartela fosse não apenas inteiramente preenchida, mas entregue na hora certa ao organizador ou alguém que cumprisse essa função nos termos estabelecidos pelo estatuto do BINGO, de modo que, em momento algum, esse ganhador virtual pudesse ser acusado de passar batido, algo triste que acontece com um contingente espantoso de pessoas todos os dias. E o que vem a ser PASSAR BATIDO? Pessoas passarem batido (passarem batidas, passarem abatidas etc.) pela sorte é algo cada vez mais comum na contemporaneidade. Com as novas tecnologias, então, ficam plantadas as condições necessárias à distração. Um exército cotidiano de mentes distraídas deixa as fornalhas da indústria da dispersão toda hora em direção às esquinas da deambulação, às fábricas e aos cursos de graduação e pós. São os t...

CÃES DO ALUGUEL

E se, de repente, à falta do que dizer, o homem do 302 resolvesse narrar o que faz a vizinhança? E o que faz a vizinhança? Avizinha-se cada dia mais um pouco, adiando a invasão, afastando a fronteira, estabelecendo pequenas coalizões de intrigas&amor. O vizinho dá um grito, por exemplo, é uma ação que pode ser atribuída ao corpo sem forma da vizinhança. E assim também a filha esperneia no corredor, as roupas secam na laje, a senhoria afixou um novo bilhete no qual pede gentil mas firmemente que, por favor, informem quando e como os técnicos das operadoras de telefonia e internet farão visitas e se essas visitas devem se estender por mais de uma hora, razão pela qual uma segunda pessoa seria necessária para acompanhar os passos, as revolutas manobras nas fiações elétricas e, por que não, as conexões clandestinas e fios soltos que os estrangeiros deixam nas terras nativas que encontram, barbarizando uma vida pacata, ou seja, a nossa, minha de recém-chegado e deles de m...

Formas de voltar, formas de perder, formas de encontrar

Acima, imagem que está na capa de Formas de volver a casa , livro do Alejandro Zambra ainda não publicado no Brasil.  Fui ler o texto do meu xará Carlos Henrique e lembrei que também me perdi ainda criança. Tinha 8 anos quando pus minha família em desespero, embora só recorde mais claramente do choro do pai. Foi o que me marcou quando cheguei em casa após ser encontrado em outra área da cidade por um amigo da família que passava de bicicleta. Me pôs na garupa e disse que me levaria de volta.   Vi o pai com as mãos na cabeça, os cotovelos fincados na mesa, os cabelos assanhados, cercado pela mãe e outras pessoas, vizinhos, desconhecidos, gente curiosa, que fareja tragédia a quilômetros. A vó tava num canto da sala, os tios noutro, os primos maiores sem entender ao certo o que acontecia. Eu finalmente retornava, tranqüilo entre melancias, depois de perambular pelo bairro ao tentar encontrar um caminho diferente que me levasse da escola à casa. Motivo: um amig...

Setenta e duas horas sem fumar

Parar de fumar é como abrir a geladeira e dar de cara com uma bandeja cheia de sobremesa de chocolate e mentalmente imaginar que tudo aquilo não traz felicidade, mas o seu contrário, a infelicidade, e que cada molécula de gordura presente naquela embalagem marrom com líquido cremoso é um atentado moral a todas as pessoas que agora mesmo sofrem de diabetes, incluindo minha mãe, claro, e meu tio também, ambos diabéticos, todavia não fumantes.  De maneira que não podem entender o tamanho da euforia/ansiedade cada vez que olho pra janela da sala e projeto um "eu lírico" fumante escorado no parapeito. De cigarro em punho, o holograma que sou eu vê curioso a vida passar lá em baixo enquanto absorve com tranquilidade as cinco milhões de toxinas que, ao cabo de uma jornada existencial dedicada ao tabaco, nos matam de uma hora pra outra.  Então é nesse instante que a projeção de mim mesmo fumando contente um cigarro fictício na janela de casa se desfaz como a própria fumaça ...

Sem filtro

A novidade, não sei exatamente se nova, é fotografar a paisagem natural ou humana e apor, como notinha de rodapé não irônica (ao menos a priori): "sem filtro". Isto é, sem intervenção, sem manipulação, sem truques de prestidigitação. As coisas como realmente são: uma manhã de céu azul (sem filtro), um sorriso (sem filtro), uma garrafa de cerveja na mesa (sem filtro), os dois pés descansados sobre o tamborete tendo ao fundo as dunas arrastadas grão a grão pelo vento aracati - maravilhosamente sem filtro. O “sem filtro” pretende atestar algum nível de sinceridade menos óbvia, funcionando como um selo de autenticidade semelhante ao afixado em alimentos orgânicos, de modo que, à beleza da situação, acresce dizer, como forma de ajuntar inegável valor ao produto: sem agrotóxicos.  Sendo assim, o orgânico está para os alimentos como o não filtrado está para o real: a cereja do bolo. Indo um pouco além, é possível enxergar no conceito de "orgânico" uma n...

O sagrado beijo interespécies

Estava até relativamente convencido de que uma casa limpa e com tudo no seu devido lugar significa a pacificação imediata do espírito e o refúgio da carne, mas foi só abrir o jornal e ler uma reportagem fazendo chacota com a Cientologia, uma religião pela qual não tenho a menor simpatia, sentimento que se estende às demais em igual medida, para que esse idílio doméstico se desvanecesse no ar. O que dizia a reportagem? De modo jocoso, comparava a religião criada por L. Ron Hubbard a uma história de ficção científica maluca na qual um extraterrestre com nome esquisito começando com Z vem à Terra para dizimar os inimigos e devolver alguma possibilidade de vida às pessoas. Para quem quiser informar-se sobre o tema, sugiro o artigo da Wikipédia. Sei que, falando assim, reduzo o potencial de exotismo da Cientologia, que parece arranhar o infinito. A versão completa da sinopse, no entanto, é uma saga complexa. É como se Tolkien e Alan Kardec resolvessem não apenas escrever u...

Puzzle doméstico

A luta com o doméstico não tem fim. Trata-se de peleja cujo resultado sabemos de antemão, e ele não é outro senão a derrota.  Vejam o caso do sofá, por exemplo. Chegou aqui desconjuntado, feito em pedaços, cada parte recostada à parede, inofensivo qual um Tiradentes esquartejado, muito pouco ciente da realidade total, refém da minguada ciência de si, alojado numa entristecedora falta de recursos cognitivos.  Pois esse mesmo sofá, até pouco tempo atrás um alienado, logo pôs-se a dificultar a vida dos moradores da casa, primeiro aparentando ser fácil de manusear quando, em verdade, é um verdadeiro quebra-cabeças; segundo, opondo uma resistência sobre-humana ao encaixe perfeito dos braços e pernas, o qual, mesmo agora, passadas três horas de agarra-agarra, lambe-lambe, esfrega-esfrega, roça-roça, sobe-desce, permanece uma miragem, um amplo desejo irrealizado, uma vontade de potência que não se realiza num curto horizonte de expectativas.  A ironia é que u...