Pular para o conteúdo principal

MEIA MARATONA DO MEIO-FIO (leia antes tópico CÃES DO ALUGUEL)



Vale destacar que, a nível de CAPS LOCK, não pude descobrir o que estava sendo sorteado, ou BINGADO, enfim, qual era a prenda à qual a vizinhança concorria em caso de acertos plenos, ou seja, caso a cartela fosse não apenas inteiramente preenchida, mas entregue na hora certa ao organizador ou alguém que cumprisse essa função nos termos estabelecidos pelo estatuto do BINGO, de modo que, em momento algum, esse ganhador virtual pudesse ser acusado de passar batido, algo triste que acontece com um contingente espantoso de pessoas todos os dias.

E o que vem a ser PASSAR BATIDO?

Pessoas passarem batido (passarem batidas, passarem abatidas etc.) pela sorte é algo cada vez mais comum na contemporaneidade. Com as novas tecnologias, então, ficam plantadas as condições necessárias à distração. Um exército cotidiano de mentes distraídas deixa as fornalhas da indústria da dispersão toda hora em direção às esquinas da deambulação, às fábricas e aos cursos de graduação e pós. São os titãs da eloquência de bandana.

E o que vem a ser ELOQUÊNCIA DE BANDANA?

Pensem na eloquência; agora, pensem numa bandana, essa espécie de chapéu ou similar cuja propriedade maior é ridicularizar quem a utiliza.

Agora juntem os dois itens, BANDANAS DA ELOQUÊNCIA ou o contrário, ELOQUÊNCIA DE BANDANA, e tem-se aí uma razão a mais para rir na vida.  

Voltando ao assunto inicial: o que essas pessoas perderam ao esquecerem que estavam ganhando?

É uma pergunta que me faço todos os dias e para a qual jamais encontro resposta definitiva, apenas uma sombra sussurrando como um velho Monza enguiçado na avenida Pereira Filgueiras na madrugada de sexta pra sábado.

Eis a resposta: perde quem ganha e ganha quem perde; perde duplamente quem sabe que perde e lamenta a derrota, ganha duplamente quem sabe que ganha e celebra a vitória, ganha e perde em doses iguais quem deixa o jogo de lado e aposta corrida sobre o meio-fio.

Que, no fim das contas, é o único esporte sério que interessa no Ceará: A MEIA MARATONA DO MEIO-FIO. 

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...