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O sagrado beijo interespécies



Estava até relativamente convencido de que uma casa limpa e com tudo no seu devido lugar significa a pacificação imediata do espírito e o refúgio da carne, mas foi só abrir o jornal e ler uma reportagem fazendo chacota com a Cientologia, uma religião pela qual não tenho a menor simpatia, sentimento que se estende às demais em igual medida, para que esse idílio doméstico se desvanecesse no ar.

O que dizia a reportagem? De modo jocoso, comparava a religião criada por L. Ron Hubbard a uma história de ficção científica maluca na qual um extraterrestre com nome esquisito começando com Z vem à Terra para dizimar os inimigos e devolver alguma possibilidade de vida às pessoas. Para quem quiser informar-se sobre o tema, sugiro o artigo da Wikipédia.

Sei que, falando assim, reduzo o potencial de exotismo da Cientologia, que parece arranhar o infinito. A versão completa da sinopse, no entanto, é uma saga complexa. É como se Tolkien e Alan Kardec resolvessem não apenas escrever uma história a quatro mãos, mas delegá-la a Tim Burton, sob supervisão dos irmãos Coen. 

E isso é o máximo.

Mas o que importa mesmo, e o que provocou desconcerto pessoal logo às primeiras horas do dia, é o raciocínio segundo o qual a Cientologia lembra um desarrazoado roteiro de filme B, o que não deixa de ser verdadeiro. Ocorre que as demais linhas de profissão da fé (catolicismo, judaísmo, islamismo e por aí vai) pecam, se me permitem afirmar, por razões semelhantes. Lendo sobre a Cientologia, é possível encontrar um paralelo noutra religião de massas para cada ponto esquisito.   

Em comum, todas acreditam num deus que, por definição, é um ET, ou seja, alguém que veio de muito longe, quando não de outra dimensão, montado em naves cuja velocidade é muito maior que a da luz ou simplesmente aportando aqui sem necessidade de explicação ulterior; alguém que não pertence ao nosso mundo, ainda que o tenha criado num passado de intensa atividade laboral e hoje descanse a maior parte do tempo, sintonizado 24 horas nas peripécias da humanidade, vendo tudo sentado no braço do sofá como uma deidade entediada com o espetáculo de luzes e cores produzido desde que as formas de vida mais básicas foram gradualmente se convertendo em estruturas complexas e o regime de alimentos cozidos ingeridos por nossos ancestrais redundou em coisas ruins, como o cinismo e as amizades potencialmente daninhas, mas também em coisas boas, como o amor, o sono e o pão carioquinha com manteiga e café.  

Pois bem. Esse deus alienígena com pretensões quase sempre nababescas e preferência por obras faraônicas também opera ações miraculosas com a finalidade de garantir uma vida mais agradável segundo os padrões prescritos nas tábuas das crenças, padrões esses criados sem a necessária consulta aos seguidores. Ou alguém se recorda de haver opinado sobre o teor dos dez mandamentos? Definitivamente, os credos não se dão bem com o escrutínio popular nos moldes democráticos.

Logo, o princípio ativo de qualquer religião é o mesmo, qual seja: agente externo superpoderoso decide (os motivos variam segundo a filiação) instituir uma civilização baseada em usos e costumes pré-definidos. Para tanto, recorre à força, ao poder do convencimento, às armas de lasers, a golpes de judô ou ao amor. Não importam os métodos: a finalidade é igual.

Esse mesmo deus tratará de estabelecer um conjunto de metas a serem cumpridas. Céu e inferno, por exemplo, cumprem, nesse amplo projeto divino, funções similares às do plano de cargos, carreiras e salários em uma empresa.

A diferença é que a empresa capitaneada por esse ente não-humano abarca praticamente tudo: a Terra, as estrelas, o mar, o infinito. Uma empresa secular, quando muito, tem seu raio de ação ampliado a todos os continentes em que se divide o planeta, e isso é somente pó de estrelas se comparado ao alcance da multigaláctica (multidimensional) firma divina. 

A par das regras do reality, e plenamente satisfeitos com a possibilidade de alçarmos vôos mais ousados, obtendo posições hierarquicamente mais interessantes na cadeia de mando da fé, partimos para o ataque. Traçamos um roteiro de missões cujo objetivo final é o mesmo em praticamente todas as religiões: superadas as contingências do agora, nos concentrarmos na virtual felicidade a ser conquistada quando, ao cabo de uma vida inteira de ascese soft, colocarmos os pés nessa plataforma idílica chamada Paraíso (pós-morte ou não).

Ora, com uma ou outra diferença, a Cientologia premia os seus fiéis com recompensas em quase tudo similares às das religiões de massa. A ciência dos famosos, como é pejorativamente conhecida, também é enganosa a ponto de rogar para si o direito de se considerar séria. 

Vale perguntar: em que medida (havia jurado nunca mais na vida começar uma pergunta com "Em que medida...", mas agora é tarde) - em que medida Maomé, Jesus Cristo e outros protagonistas dos roteiros monoteístas parecem mais verossímeis que as personagens bizarras dessa afiliação prezada por astros de Hollywood?

Comentário: não deixa de ser cômico o fato de que parte considerável da imprensa consiga rir dos aspectos caricatos da Cientologia, inegáveis em seu vasto panteão de esquisitices, e, ao mesmo tempo, achar normal o milagre da multiplicação dos peixes, a cura da cegueira com saliva, a volta de Lázaro à vida e a ressurreição após três dias. Ou as virgens do profeta. Ou a circularidade do espírito. 

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