Pular para o conteúdo principal

Postagens

O boato como elemento coesivo no contemporâneo

Casal testa limites do boato-arte, forma hipervalorizada de subversão da ordem  Um conceito que merece estudo rápido, porém não apressado, visto que é categoria-chave, é o do boato, a fala que se perde entre mil e um atores, cujo início se desconhece e cujo fim nunca se vislumbra; a enunciação partilhada febrilmente e de teor ora assustador, ora concupiscente, segredada de orelha a orelha, boca a boca, como um dos arcanos de Fátima; password moderno que tem a propriedade de tornar o mensageiro, ainda que involuntário, e a audiência, ainda que inconsciente, membros venerandos dessa esquisita confraria de seres arregimentados mais com base no aleatório e no randômico do que no estatística e algoritmamente seguro.  Essa confraria atende pelo nome óbvio de Boataria.  O boato é a língua da modernidade, da pós, da pré e da vindoura, aquela que sequer se anunciou, a seiva bruta que alimenta os ramos mais distantes da árvore frondosa, os galhos incapazes d...

O negócio das rotinas

Acima, Faulkner, escritor cujas manias e rotinas resumiam-se a fazer a ponta do lápis sempre às 8h45min e jamais escovar os dentes enquanto a vizinha não apagasse as luzes da casa inteira Li recentemente, “é preciso parar enquanto ainda se tem alguma coisa pra dizer”. Parar, nesse caso, significa interromper uma atividade habitual de modo que, ao retomá-la no dia seguinte ou em dois meses ou mesmo cinco anos depois, persista esse sentimento familiar de que algo ainda precisa ser feito, algo precisa ser dito, o pote não secou, há ideias boiando nesse vasilhame que chamamos carinhosamente de nossa vida, o trabalho deve continuar, crie coragem e siga em frente e natureza dará conta do restante. Nunca esgotar nada, foi como interpretei essa frase, que só agora mostra uma ambiguidade antes imperceptível. Esgotar quer dizer ir até o final, lambuzar-se, chafurdar, exaurir, enfastiar-se e todas essas expressões que designam o ato de, mediante os recursos disponíveis, torna...

O dilema da Iracema sincera

A grande maioria das pessoas envolvidas com arte em Fortaleza vive da política da boa vizinhança. Do artigo da amiga Regina no O Povo de hoje. O que quer dizer “política da boa vizinhança”? É algo necessariamente ruim estabelecer com alguém que mora ao lado uma relação amistosa, regiamente desinteressada, fundada em preceitos civilizados, sem os quais damos lugar à beligerância mútua, situação essa que nem sempre rende bons frutos? Há substituto para a camaradagem doméstica que não seja a guerra fria declarada? Estou falando de um meio termo entre a franca bajulação, aquela que aspira a amealhar dividendos da mera proximidade que se desfruta de alguém, um político ou artista, por exemplo, e a postura deliberada de combate, o outro lado dessa moeda podre, comportamento que se caracteriza por agressividade desproporcional e pronto-rancor. Há um caminho intermediário? Existe – insisto na pergunta – “política da boa vizinhança” ou tudo não passa de um arremedo ha...

É possível viver sem ironia?

Infelizmente, o último patriarca da escola não-irônica, instituição cujo programa de estudos dedicava-se somente às manifestações sinceras, não está mais aqui pra responder a pergunta Embora corra sério risco de me ver precocemente rotulado como um diluidor vulgar, incapaz sequer de disfarçar o modismo que decidiu abraçar, espécie moralmente indefensável num mundo em que a originalidade é norma de conduta suprema, confesso meu pecado de antemão: não resisti ao charme do assunto. Resolvi falar de ironia – é possível eliminá-la ou estamos realmente fadados ao enfado que se traveste de esperteza e embota a visada do outro como uma unidade viva tão especial e única no mundo quanto nós mesmos?   Se esse não é o tema da moda, chega bem perto. Digamos que uma parcela considerável da inteligência discute agora formas de superação não apenas do discurso irônico, mas da cultura irônica, da qual as brilhantes analogias e charadas pop que pululam nas redes sociais como bólido...

Como foi de viagem?

Antigamente, numa galáxia muito distante, os antropólogos investigavam lugares ainda intocados pela civilização. Percorriam vastidões do mapa à procura dos vestígios de como a humanidade havia sido nos primórdios. Desperdiçavam tempo e dinheiro na tentativa de entrar em contato com sociedades diferentes da ocidental, baseadas em valores exóticos, entendendo-as não sob a ótica própria, mas por meio dos mecanismos internos que regiam essas mesmas formações. Obedeciam a um procedimento que, se não lhes permitia total inserção num contexto diverso, ao menos garantia alguma possibilidade de se colocar no lugar do outro sem, contudo, empoleirar-se num patamar de superioridade.  Nessa galáxia, o sumamente intrigante repousava numa zona similar à de Stalker , longínqua, feérica, uma autêntica América virginal, por exemplo, ilhas esquecidas pelo progresso ou tribos vagamente selvagens da Oceania, territórios cujas propriedades mágicas excediam as leis e regras de uma sociedade ...

O que faz um cosmonauta nas estepes

Cinco meses após consertar o probleminha lá na ISS, o cosmonauta, como eram chamados os aventureiros do espaço na antiga URSS, retorna e pousa nas estepes do Cazaquistão, antes parte dessa mesma antiga URSS, e nas estepes descobre algo que o marcará profundamente, algo que o fará arrepender-se inclusive de haver deixado pra trás o violão e uma gaita, presentes do pai no último aniversário, ocasião em que comemorou madrugada adentro seus 47 anos bem vividos. O cosmonauta, é o que parece ter acontecido nesse intervalo entre a travessia da atmosfera e o pouso, relembrou um nome que havia esquecido ainda na adolescência, quando caiu de uma árvore em cima de um cavalete e acabou fraturando três costelas. Esse nome, segundo informou uma fonte em off na agência espacial russa - embora o aventureiro tenha nacionalidade canadense, foi na Rússia que se deparou com a primeira de uma série de pistas para encontrar o que procurava –, tem importância considerável na vida do herói da...

História da franja

Não sei se já falei que a Duda é uma graça. Talvez sim, talvez não, de modo que vale a pena repetir – caso já tenha falado – ou afirmar – caso não tenha –: a Duda é uma graça. Quando me pediu para que lhe escovasse os cabelos, por exemplo, tratou de acrescentar que o desafio seria não apenas desembaraçar as melenas, mas produzir uma partilha equânime da franja, que deveria despencar à esquerda, dividida com rigor matemático. “Se não for assim, não consigo dormir, titio”, disse. Com isso, provocou 1) curiosidade com a alternância randômica no uso das formas “tio” e “titio” e 2) e medo diante da responsabilidade que era converter a massa informe de fios em um simpático arranjo capilar dotado de uma complexa e também esotérica propriedade terapêutica que induzia ao sono. Ciente das minhas limitações, caprichei no penteado, desfiz os nós recalcitrantes e deixei tudo estirado, lisinho, de caimento invejável, exatamente como as meninas de sete anos gostam que fiquem os c...