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O negócio das rotinas



Acima, Faulkner, escritor cujas manias e rotinas resumiam-se a fazer a ponta do lápis sempre às 8h45min e jamais escovar os dentes enquanto a vizinha não apagasse as luzes da casa inteira


Li recentemente, “é preciso parar enquanto ainda se tem alguma coisa pra dizer”. Parar, nesse caso, significa interromper uma atividade habitual de modo que, ao retomá-la no dia seguinte ou em dois meses ou mesmo cinco anos depois, persista esse sentimento familiar de que algo ainda precisa ser feito, algo precisa ser dito, o pote não secou, há ideias boiando nesse vasilhame que chamamos carinhosamente de nossa vida, o trabalho deve continuar, crie coragem e siga em frente e natureza dará conta do restante.

Nunca esgotar nada, foi como interpretei essa frase, que só agora mostra uma ambiguidade antes imperceptível.

Esgotar quer dizer ir até o final, lambuzar-se, chafurdar, exaurir, enfastiar-se e todas essas expressões que designam o ato de, mediante os recursos disponíveis, tornar urgente a extração de todos os benefícios possíveis de uma situação/pessoa/sentimento qualquer, ignorando sabiamente o porvir e descrendo sem remorsos de qualquer noção de cultivo lento e gradual, seja de cereais ou de afetos.

É, por um caminho inverso, admitir a falência do amanhã e, faminto, reconhecer o óbvio, o que nos leva a entender que as atitudes e decisões acabam sendo barbaramente governadas por aspirações imediatas e não por sonhos projetados no laboratório de nossa ciência particular – quer dizer, nem tanto.

A frase, que soa autossocorrista, diz respeito na verdade a rotinas que escritores famosos como Kafka e Faulkner e Joyce adotavam no dia a dia a fim de viabilizar suas obras-primas, a receita doméstica cujo resultado foram os livros que esses caras escreveram. Levantar cedo, dormir tarde, escrever de pé, beber vodka, caminhar, fumar, transar mais, alimentar um ódio genérico contra todos, redigir deitado na cama, escolher um cômodo da casa e isolar-se nele etc.

Receitas de sucesso testadas por escritores de sucesso. Uma delas era exatamente esta: “é preciso parar enquanto ainda se tem alguma coisa pra dizer”.

Isso nunca pareceu fazer tanto sentido. 

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