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A catraca, a faixa e a cidade

Penso no que pode haver de comum entre uma catraca de ônibus, uma faixa de pedestres e uma cidade quase aniversariante, mas não qualquer catraca, não qualquer faixa nem qualquer cidade. Uma catraca duplicada, com pavimento superior e feitio de puxadinho, de modo que não se possa atravessá-la com mochila às costas, por exemplo, tampouco carregando-se sacolas de compras ou uma criança de braço. Uma catraca a serviço do suplício, como se vê, inventada certamente por quem tenha estudado esses instrumentos medievais dos quais os carrascos se serviam nas suas lidas de infligir dor e desespero aos citadinos daquela época. Exagero? Então tome-se de coragem e apanhe um ônibus na porta de casa, desassombrado (a) leitor (a), embarcando nessa nau desconfortável e quente, ao preço de módicos R$ 4,50, para uma volta pela urbe prestes a soprar velinhas. A catraca-duplex, porém, é dispositivo todo nosso. Tecnologia de controle made in Fortaleza: incongruente e exclusivista. Uma gambiarra que cont...

Cidades invisíveis

Hoje é dia de feira de ciências, penso enquanto levas de meninos e meninas desfilam pela quadra da escola tentando equilibrar maquetes de papelão que reproduzem em versão diminuta a ideia de cidade que cultivam em casa. Retornam para a sala de aula depois de uma semana às voltas com a tarefa de reconstruir um microuniverso fabricado com recipientes de creme dental, latas, algumas vasilhas e outros materiais de uso comum no dia a dia. Nada deve ultrapassar o tamanho médio de uma bandeja, com 20 centímetros de largura por 40 cm de comprimento. Desafiadas a imaginar a vida numa métrica infinitamente menor, refazem os pontos cardeais de um itinerário afetivo e esboçam os limites de um cotidiano cujo horizonte ainda não aprenderam a enxergar por inteiro. Alguns signos se repetem. Em quase todas, por exemplo, há pelo menos uma farmácia, à exceção de uma mais caprichada e até realista, que tem duas, além de um McDonald's todo pintado de vermelho, em contraste com as paredes caiadas de br...

O falso casaco do papa

  Escrevo num pedaço de papel “o casaco falso do papa”, mas logo me dou conta da impropriedade da frase, visto que não se trata de peça inautêntica de vestuário, como se poderia supor olhando a imagem que correu o mundo. Nela, a maior autoridade da Igreja Católica desfila por alguma viela de Roma, não por acaso a eterna capital da moda. O rosto está erguido e os lábios entreabertos, no olhar a autoconfiança de um Drake um dia antes de cancelar a sua participação num festival de música em um país qualquer do cone Sul. Reescrevo a sentença na intenção de corrigi-la: “o falso casaco do papa”. Inverto as posições entre os vocábulos, mas a dúvida persiste. Afinal, deslocar o adjetivo não resolveria o problema, pelo contrário, a natureza marginal do agasalho estaria acentuada, levando-se a crer que o sumo-pontífice teria adquirido o item numa lojinha do centro da cidade, sem nota fiscal que atestasse a santidade daquela transação, tampouco sua legalidade. Me pergunto se comprar mercadori...

Desinfluencer

Talvez já tenha passado da hora de começarmos todos a desinfluenciar, ou seja, a exercer uma influência com sinal invertido ou nenhum, destinada a encorajar uma potencial audiência a que deixe de fazer o que supúnhamos que devesse, e passe a fazer o que lhe der na telha. Parece complicado, mas é simples. A um “desinfluencer” de destaque, com milhões de seguidores e selo de verificação, caberia, entre tantas possibilidades de atuação, desestimular o consumo excessivo ou a adoção dos algoritmos como métrica de vida, fazendo minguar, se preciso for, sua própria base de fãs. Das técnicas de embelezamento às dicas de treino, das sugestões de cardápio às listas de livros, nada escaparia da potência silenciosa e desanimada desse Zuckerberg no multiverso, cujo principal atributo seria o poder de convencimento de que não há nada nem ninguém que se possa convencer. Onde houver ligeireza, pregaria o evangelho do desinfluencer, que eu leve a vagarosidade. Onde houver LED, que eu leve o “chiaroscu...

Nada em nenhum lugar

  Admito de partida que não vi o filme do Oscar até o final, não pude vê-lo, não consegui, fui incapaz. É como se me faltasse um atributo, meu sistema operacional subitamente aquém das tecnologias avançadas pelo longa-metragem que foi o grande vencedor da festa da indústria cinematográfica estadunidense. De repente, não me sentia dotado do background exigido para desbloquear as funcionalidades que a obra prometia ao final do arco-íris da experiência pela qual eu havia pago e da qual naturalmente queria um retorno. E isso, claro, me pareceu significativo, o fato de que eu não tenha conseguido terminar, que tenha desistido ou adiado até agora a retomada do consumo; de que, mesmo neste momento, solte mais uma vez a reprodução na TV da sala, apenas para suspendê-la minutos depois, vencido novamente pela minha obsolescência individual. Então me pus a perguntar por quê. Por que eu encontrava uma dificuldade incontornável e ainda não compreensível de participar daquele espetáculo audiovis...

Patologia e astrologia (2)

  Hoje em dia tudo está patologizado ou astrologizado, ou seja, nada escapa a um ou outro filtro, que funcionam como mecanismos complementares. Mas o que quer dizer exatamente isso? Que a patologização é o procedimento por meio do qual a conduta social é reduzida à doença ou explicada integral ou parcialmente por ela, de modo que o arbítrio do indivíduo se dilua ao ponto de restar somente esse vetor orgânico ou biológico que incide sobre as decisões pessoais. Não é que fulano ou beltrana sejam assim, mas a doença os faz assim. Há um enquadramento patológico recorrente e sintomático diante do qual é preciso compreender o que fizeram. A doença os explica, os justifica e, sob certo ângulo, os redime. Cada vez mais o rol de patologias se imiscui nas relações cotidianas, ampliando-se e abarcando um sem número de situações, das quais mantenho prudentemente distância, evitando nomeá-las para não parecer que aponto o dedo para ninguém, inclusive para mim. A patologização é subproduto de v...

Trapaça

  Meu avô era o que se chamava de trapaceiro, jogava com cartas marcadas cuja sintaxe apenas ele conhecia. Eram marcas muito sutis, meu tio não soube explicar, mas dizia que ele fazia microincisões no baralho, nas pontas das cartas, intervenções de pouca legibilidade, uma espécie de ourivesaria da malandragem, de modo que apenas ele e mais ninguém conseguiria identificar o naipe e a numeração. Ganhou algum dinheiro à sua maneira, viajando e jogando apostado, até que um dia morreu numa briga.  Morreu na rua, escorado num muro, segurando a barriga depois de levar um tiro. Outras famílias têm marcos afetivos na cidade onde vivem. Ali foi nosso primeiro encontro, acolá foi a primeira comunhão da sua irmã etc. A minha, contudo, era mais extravagante. Quando passávamos de carro a caminho da casa da minha mãe, meu pai apontava a esquina e dizia “seu avô morreu bem naquele canto”, indicando o local onde hoje funciona uma loja de autopeças, e acho mesmo que ninguém empregado nesse comé...