Pular para o conteúdo principal

Cidades invisíveis



Hoje é dia de feira de ciências, penso enquanto levas de meninos e meninas desfilam pela quadra da escola tentando equilibrar maquetes de papelão que reproduzem em versão diminuta a ideia de cidade que cultivam em casa.

Retornam para a sala de aula depois de uma semana às voltas com a tarefa de reconstruir um microuniverso fabricado com recipientes de creme dental, latas, algumas vasilhas e outros materiais de uso comum no dia a dia.

Nada deve ultrapassar o tamanho médio de uma bandeja, com 20 centímetros de largura por 40 cm de comprimento. Desafiadas a imaginar a vida numa métrica infinitamente menor, refazem os pontos cardeais de um itinerário afetivo e esboçam os limites de um cotidiano cujo horizonte ainda não aprenderam a enxergar por inteiro.

Alguns signos se repetem. Em quase todas, por exemplo, há pelo menos uma farmácia, à exceção de uma mais caprichada e até realista, que tem duas, além de um McDonald's todo pintado de vermelho, em contraste com as paredes caiadas de branco do comércio ao redor.

Na esquina de um desses modelos, espicha-se uma cordilheira de prédios que fazem vizinhança com um lava-jato. Acho curioso que o estabelecimento se anuncie assim, como um lava-jato, as letras escritas em caixa alta, tudo nele tão avesso à inventividade da meninice.

Não um cinema, um parque de diversões ou um campo de futebol, mas um item banal da trama urbana, o lugar do carro, elemento vital nesses projetos de metrópole e personagem em torno do qual o espaço se organiza, mesmo nos sonhos de criança.

É como se essas réplicas materializassem uma ordem do desejo alheia ao universo infantil. Nelas não há animais ou árvores, e seus modos de existir estão atrofiados, como se lhes tivessem dito: "vós que aqui entrais, abandonai toda a esperança".

O verso dantesco seguido da advertência: esta é a única cidade possível.

Essas aldeias invisíveis correspondem aos mapas cartográficos de pais e mães, habitantes do mundo dos adultos, mais preocupados em mimetizar a abundância de serviços ou marcações de pertencimento que situam esse recorte geográfico do que propriamente em abrir qualquer brecha para um ensaio de fantasia.

As coordenadas estão pré-moldadas: escolas, supermercados, sinais de trânsito e edifícios, caixotes miniaturizados formando os quebra-cabeças dentro dos quais, presume-se, essas famílias vivam. Quarteirões geminados, variações da mesma nota. Um mundo encolhido, não só em escala, mas também em potência.

Me pergunto se um observador mais atento talvez notasse uma marca de autoralidade nessas maquetes, um toque que as diferencie, aqui e ali uma tentativa de fuga do esquadro onde esses exercícios de fabulação se inscrevem, confinados por marcos já fornecidos como cercaduras para uma trajetória em estágio inicial.

Talvez, escondido em algum lugar, longe do olhar fiscalizador, uma criança tenha rabiscado um desenho mais estranho ou arquitetado uma construção assimétrica, desarmônica, até feia mesmo, incompatível com certa lógica cartesiana e competitiva, mas plena de sentido no âmbito da brincadeira que é alinhavar um futuro mais vasto do que esse miolo da cidade de sempre.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...