Pular para o conteúdo principal

Postagens

O ChatGPT não sabe vaiar

  Numa entrevista fictícia com o ChatGPT, eu lhe faço perguntas triviais, tais como o que é “vergonha alheia” ou “biloto”, e lanço comandos inesperados e mesmo ilógicos, como a definição de “vaia cearense”, uma variante exótica do fenômeno pouco conhecida fora do estado. Como se trata de um suprassumo tecnológico, um Pinocchio maquínico, capaz de façanhas num piscar de olhos, sócio-majoritário de um sem-número de HDs de dados armazenados, suponho que, em algum cadinho de seu emaranhado algorítmico, haja uma solução para a minha indagação moleque, cujo propósito é não apenas medir o grau de conhecimento, mas de malícia. Afinal, máquinas sabem vaiar? A inteligência artificial, porém, se embaraça, tropeça nas palavras, alega estar em processo contínuo de aprendizagem, diz que em breve poderá ter todas as respostas a essas e outras questões e que sem dúvida o seu intuito é auxiliar, oferecendo informações precisas sobre quaisquer assuntos. Sei. Isso soa como qualquer adulto apanhado ...

Dialética do fã (2)

Fã ou “hater”? Pergunta-síntese da dinâmica virtual, a questão embute uma dualidade a partir da qual se organizam as vidas nas redes e para além delas, ou seja, uma troca que se dá em torno de um binarismo cujos pontos cardeais são, de um lado, o apoio incondicional (fã) e, do outro, o ódio cego (“hater”). Do amigo, do colega de trabalho e até mesmo das relações amorosas, exige-se hoje em dia essa espécie de contrapartida afetiva que prevê um vínculo sem arestas, feito todo com base numa adesão total que não aceita dissidência nem o mais remoto traço de crítica. “Meu (minha) namorado (a) não é apenas meu (minha) namorado (a), mas meu (minha) fã.” É-se fã de alguém como se é fã do Barcelona, de bolo de milho ou da Anitta, não havendo espaço para sentimentos conflitantes. O conflito, por si, é negativo, contraproducente e, sob o ponto de vista da gestão dos afetos, algo a ser evitado porque desorganiza o empreendimento social do qual se é sócio-majoritário e figura pública, como um CEO d...

A Estação e o Dragão (2)

  A Estação é o novo centro do olhar e do fluxo cearenses, um espaço de alta frequentação e performance de classe num estado habituado a marcações de origem muito evidentes. Terra de cercadinhos, de puxadinhos VIP, de acessos restritos, de elevadores de serviço etc. Lugar de letrados, de ilustrados, de desfile dos signos de pertencimento e de distinção, de filiações e adesões, altamente carregado de um sentido de visibilidade, tanto por sua finalidade arquitetônica – é amplo e feito para isso, ou seja, para a exposição de obras de arte e também de seu público – quanto pela natureza das relações que se estabelecem ali. Mas nisso não há qualquer novidade, todo equipamento cultural, por mais democrático que se pretenda, tem sempre em sua entrada um guichê de cobrança de pedágio simbólico sem o qual os consumidores/cidadãos não têm acesso às experiências projetadas. A roupa, o público, a segurança, tudo seleciona antes de qualquer seleção, tudo barra antes de qualquer obstáculo físico ...

Passagem

  Era isso, eu queria ir em frente, mas não sabia de nada. Eu queria outra vida, mas não sabia qual. Eu queria estudar, mas não havia escolhido o quê. Eu queria livros, mas não tinha dinheiro. Eu queria viajar e morar numa comunidade alternativa em Minas Gerais e fazer o caminho de Santiago de Compostela com minha primeira namorada, mas tive de me contentar com um emprego de entregador de pizza das 16h às 22h em troca de um salário cuja metade eu gastava com romances e a outra metade eu não sei exatamente o que fazia, mas juro que não era tanto assim a ponto de eu poder fazer uma farra. No barco eu me sentia como se de volta à sala, de volta a antes de fazer essas escolhas, uma pequena transgressão do tempo. Mas agora era diferente porque eu não tinha ninguém que me interrompesse. Podia ficar ali o tempo que fosse, sair e voltar, andar pela popa e a proa devastadas pela maresia e ferrugem e observar por quantos dias desejasse o movimento contrário. As ondas quebrando contra o metal...

Bloqueio de classe

  Há um sentimento particular que acomete a quem tem origem social nas classes mais baixas e, por golpe de sorte ou esforço próprio, ascende de alguma maneira. Chamo de bloqueio de classe. Acontece em situações específicas, normalmente de acesso a espaços cuja entrada não se considera como permitida, a exemplo de aeroportos, restaurantes caros, festas glamorosas etc. Em suma, locais de encontro de uma parcela rica ou candidata a isso, nos quais o dito-cujo ou a dita-cuja se encontra, embora sua presença ali seja um acontecimento, ou seja, um evento contingente, resultado de uma conjunção de fatores extraordinários que resultaram nessa configuração especial. Para todos os efeitos, ele ou ela não deveria estar lá, ocupando aquele lugar, habitando aquele espaço, conversando com aquelas pessoas e dispondo daqueles confortos, salvo por algum ponto fora da curva que lhe garantiu a possibilidade de escapar ao horizonte profissional familiar. Isso costuma desencadear ansiedade, fobias, n...

Dialética do fã

  Fã ou “hater”? A pergunta embute de saída essa dualidade a partir da qual se organizam as relações nas redes e para além delas, ou seja, uma troca que se dá em torno de um binarismo cujos pontos cardeais são, de um lado, o apoio incondicional e, do outro, o ódio cego. Do amigo, do colega de trabalho e mesmo das relações amorosas exige-se hoje essa espécie de contrapartida afetiva que prevê um vínculo sem arestas, feito todo com base numa adesão total que não aceita dissidência nem o mais remoto traço de crítica. É-se fã de alguém, e ponto final, não havendo a possibilidade de que nessa relação haja espaço para a nuance ou sentimentos conflitantes. O conflito, por si, é negativo, contraproducente, pouco valorizado e, sob o ponto de vista da gestão dos afetos, algo a ser evitado porque desequilibra os chacras. Não é por acaso que a palavra, antes limitada para se referir a um artista ou clube de futebol, ou qualquer outra coisa diante da qual uma pessoa se toma de absoluta devoção,...

Os ianomâmis e o cartão de Bolsonaro

Não apenas as imagens dos ianomâmis desnutridos causam impacto e tristeza, além de revolta e vergonha, como também o contraste entre as fotografias dos povos sem assistência médica e alimentar e as notícias sobre gastos no cartão corporativo de Jair Bolsonaro se revela cruel, mas não casual. Divulgadas praticamente ao mesmo tempo, trata-se de duas faces da mesma moeda, o genocídio de indígenas e a política em proveito próprio e dos seus – seus familiares e seus aliados, entre os quais o garimpo ilegal. Em quatro anos, Bolsonaro levou a cabo esse plano de morte, pelo qual deve ser investigado. Sua obra é essa que vemos estampada agora nas capas dos jornais, correndo mundo: corpos reduzidos a pele e osso, crianças maltratadas, um ecossistema e suas populações predados sob estímulo do chefe da nação. Enquanto isso, o então presidente alimentava-se de cortes nobres de carne, picanha e outras, sovando-se de bebidas lácteas bem ao seu feitio e refestelando-se com o que há de melhor nos cômod...