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Ainda sobre a foto da “Folha”

  Digo ainda sobre a foto da “Folha” certo de que já se falou o bastante sobre a imagem de Lula atrás de uma vidraça estilhaçada, mas também disposto a colaborar com essa superabundância analítica que é uma marca das redes, em que todos se encontram em condições de avaliar qualquer coisa a qualquer tempo, mesmo não estando. A imagem: Lula não apenas atrás da vidraça quebradiça, mas performando um papel curioso, que o coloca numa situação na qual ele mesmo não se pôs, ou seja, a de se portar com leviandade ante o momento de grande tensão que foram os atos golpistas de 8 de janeiro deste ano. Entendo por leviandade o repertório gestual que integra o quadro em que o presidente aparece, formado basicamente por elementos que sugerem descontração e relaxamento mesmo sob a ameaça exposta – uma ameaça escancarada a sua vida que, a rigor, não houve naquele dia? Me refiro ao Lula ajeitando o nó da gravata, exibindo um sorriso que destoa da postura que o presidente adotou ao lidar com as r...

Museu do golpe

  No começo apenas de brincadeira e depois a sério, me veio à cabeça a criação de um “museu do golpe”, espaço que se dedicaria não ao restauro de peças arruinadas pelo fascismo nacional responsável pela blitzkrieg tabajara do dia 8 de janeiro, mas a sua preservação tal e qual se encontram. Aquele relógio imperial do século XIX, por exemplo, cujo valor histórico exorbita o conserto de sua mecânica, seria então mantido como se vê hoje: inutilizado pelo vandalismo tupiniquim durante a invasão dos Três Poderes. De modo similar, outros dispositivos e artefatos destroçados, de obras de arte a mobília, passando por esculturas e a réplica da Constituição de 88, estariam a salvo de sua recuperação total ou parcial, sendo conservados quebradiços ou inservíveis para mais nada, sequer para a apreciação. Assim, o quadro de Di Cavalcanti, estimado em cerca de R$ 8 milhões e perfurado em seis pontos, continuaria como está: trespassado, danificado, num sinal de que algo ou alguém o atravessou no B...

"The last of us": a série e o jogo

  Voltei a jogar “ The last of us ” (no PS4) como preparação para a série da HBO depois de uma década do lançamento do game para o PS3, no já antediluviano ano de 2013 . Não sei se foi uma decisão razoável, uma vez que inevitavelmente, como fã do jogo, farei comparações entre as produções enquanto assisto, mas era o que tinha vontade de fazer no momento, por dois motivos: estou duplamente de férias (do batente e da faculdade) e minha filha queria conhecer o original. De modo que tenho avançado nos últimos dias em jornadas de uma hora ou pouco mais do que isso, quase sempre depois de leituras mais áridas no processo de escrita acadêmica que tem exigido bastante energia e tempo, quando tudo que queria era apenas abrir uma cerveja e me estirar numa cadeira tomando sol em algum lugar do litoral do Ceará. Sobre a série. Não estou propriamente receoso em relação ao resultado, a cargo de um diretor cujo trabalho mais recente é bem-sucedido (“Chernobyl”) e que ainda conta com o auxílio pr...

Dentro da zona de conforto

  Entre os mantras da retórica corporativa, não há talvez expressão mais detestável do que essa que nos pede para “sair de nossa zona de conforto”. Primeiro porque ter uma zona de conforto é, em si, um conforto e um privilégio pelos quais a maior parte de nós trabalha a vida toda, de maneira que abrir mão dela tão facilmente assim, sobretudo quando levou tanto tempo para conquistá-la, não parece algo razoável. O segundo motivo pelo qual essa frase é abominável diz respeito ao fato de que, como consequência lógica disso, nem todo mundo tem uma zona de conforto a que se apegar, na qual permanecer durante o dia e também de noite, às vezes no final de semana, como uma casa de praia num paraíso do litoral cearense.  Para a maioria das pessoas, a única zona que existe é a do desconforto e do risco, ou seja, a da redução de expectativas e de convivência com um grau nada saudável de incerteza em relação ao próprio futuro e ao de sua família. Apenas alguém cuja vida se deu em conforto ...

Patologia e astrologia

  Hoje em dia tudo é patologizado ou astrologizado, ou seja, nada escapa a um ou outro filtro, mas o que quer dizer exatamente isso? Que a patologização é o procedimento por meio do qual a conduta social é reduzida à doença ou explicada integralmente por ela, de modo que o arbítrio do indivíduo se dilua ao ponto de restar somente esse vetor orgânico ou biológico que incide sobre as decisões pessoais. Não é que fulano ou beltrana sejam assim, mas a doença os faz assim. Há um enquadramento patológico diante do qual é preciso compreender o que fizeram. A doença os explica, os justifica e, sob certo ângulo, os redime. Cada vez mais o rol de patologias se imiscui nessas relações cotidianas, ampliando-se progressivamente e abarcando um sem número de situações, das quais mantenho prudentemente certa distância, evitando nomeá-las explicitamente para não parecer que aponto o dedo para ninguém, o que inclui a mim mesmo. Não por acaso, a astrologização talvez tenha de ser encarada (é uma qu...

Lousa mágica

  Apenas hoje entendo o apelo da lousa mágica, a ideia de uma superfície que opere o apagamento quase ao mesmo tempo do registro, ou seja, um escrever-apagar que são parte do mesmo movimento, composição do mesmo gesto. Mas quando criança era apenas o fabuloso contido na brincadeira que interessava. De repente, o escrito já passado, e nada do que se dissera ali existia mais, tudo presente tornado pretérito. As lousas mágicas, porém, tinham um defeito: quebravam-se muito cedo, não eram duráveis, tão logo se começasse a usá-las, mostravam-se sensíveis a qualquer golpe mais brusco, de modo que, no dia a dia, algo sempre as inutilizava. Então era preciso comprar outra e mais outra, como se o custo da mágica fosse a consumição da matéria, não havendo possibilidade de conciliar o concreto e o sonho. A lousa mágica era uma ficção, nem se prestava como lousa, posto que nela não se escrevia de caneta comum ou com giz, tampouco como mágica, uma vez que seu truque era facilmente desvendável. A...

A Estação e o Dragão

A Estação – inicial maiúscula – é o novo centro do olhar e do fluxo cearenses, um espaço de alta frequentação e performance de classe num estado habituado a marcações de origem muito evidentes. Terra de cercadinhos, de puxadinhos VIP, de acessos restritos, de elevadores de serviço etc. Lugar de letrados, de ilustrados, de desfile dos signos de pertencimento e de distinção, de filiações e adesões, altamente carregado de um sentido de visibilidade, tanto por sua finalidade arquitetônica – é amplo e feito para isso, ou seja, para a exposição de obras de arte e também de seu público – quanto pela natureza das relações que se estabelecem ali. Mas nisso não há qualquer novidade, todo equipamento cultural, por mais democrático que se pretenda, tem sempre em sua entrada um guichê de cobrança de pedágio simbólico sem o qual os consumidores/cidadãos não têm acesso às experiências projetadas. A roupa, o público, a segurança, tudo seleciona antes de qualquer seleção, tudo barra antes de qualquer o...