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Cai a máscara

  Em breve estaremos todos na rua de volta, mas sem um item essencial com que já tinha me acostumado e mesmo afeiçoado. A máscara. Saberemos viver sem ela? Nesses dois anos, acompanhou-nos a todo canto, foi uma companheira sem igual, suportando o hálito diário sem reclamar. Da manhã à noite, mascarados, respirando vapores que embaçavam os óculos, cantando ou falando sem sermos percebidos, bodejando ou rindo intimamente, de si para si. Apenas a máscara segredava, ciosa do que trazíamos ali numa conversa mais muda que falada. A máscara escondeu tanto quanto protegeu nesses tempos de pandemia. Foi um alívio tê-la em alguns momentos, quando pôr-se atrás do pano ajudava a aguentar o dia, deixando para os olhos a responsabilidade por toda expressão. Olhos cansados de tanto falar, de tanto carregar a comunicação de uma vida por todo o tempo de confinamento e trabalho remoto. Para tudo e para nada nos olhávamos mais no olho, e isso era um ganho, mas também uma perda de energia, uma ativida...

Marvelização do mundo

Há um processo em curso, o da marvelização do mundo e das relações, que consiste em tomar cada mínimo aspecto da vida como se fosse um desses filmes em que homens vestem cueca por cima da calça para enfrentar vilões exuberantemente marcados pela maldade, cada um deles com características e predicados morais muito bem definidos. O paladino anticorrupção, o macho tecnicamente infalível, o militar mímico, o sumo-bondoso, o engomadinho, o calça-apertada e por aí vai, com capas e atributos para todos os gostos e bolsos. Da guerra à política, de Putin a Biden, de Bolsonaro a Lula, a régua rasa da marvelização abarca tudo, produzindo um efeito de proximidade enganosa que faz com que todo e qualquer usuário de rede social se sinta imediatamente um analista de qualquer assunto, alguém apto a tecer comentários sobre um embolado cenário internacional diante do qual especialistas de todos os cantos do globo se sentem encafifados, sem saber o que dizer. Mas não ele, o “Marvel boy”, um inveterad...

A torre

  Apenas ontem percebi a torre espichada na orla, um olho de Sauron que se eleva a alturas hiperbólicas e de onde se pode acompanhar a vida de qualquer fortalezense, morador do Montese ou do Carlito, da Beira Mar ou do Joaquim Távora. O ponto mais alto da cidade é esse espinhaço de concreto cuja vizinhança não lhe faz sombra. Em terra de pouca planta e onde árvore é mato, é triste olhar o bicho se esticando verticalmente, engordado com orgulho pelo olhar amatutado de quem passa e espia, o pescoço curvado a ver se consegue dar com o terraço. O último andar, aquele estágio mais distante da linha térrea, lá onde a bola em fenda de fogo varre a nossa terra-média. Houve um tempo em que era o contrário, a vista abarcava o terreiro do vizinho, a curiosidade chegando ao quintal, onde a gente, ainda miúdo, caçava uma peça de roupa, um brinquedo, um cajueiro onde se trepar, uma qualquer diferença entre os nossos e os outros. Os muros, mesmo os mais altinhos, eram transpostos com facilidade...

Botão de desistência

Ouvi a expressão de passagem, enquanto zapeava pelas redes: botão da desistência, mecanismo que, se acionado, abre uma porta através da qual é possível ir-se a um lugar que não este. Uma dimensão que corre em paralelo na qual o real é menos áspero e as regras, diferentes. A facilidade de transpor realidades, de cruzar fronteiras unicamente dispondo dessa comodidade, que está ao alcance da mão – mas não de qualquer mão, apenas uma mão privilegiada, já habituada a escolhas, a preferir isto ou aquilo, a gozar desse poder de separar o que é do agrado do que não é. Um botão como esses tantos do controle remoto ou do aparelho celular, que, de alguma maneira, já funcionam como irradiadores de outro mundo, por si mesmos universos próprios que dragam a atenção, que recobrem o entorno de uma qualidade de irrealidade. No dia a dia, porém, sabe-se que essa facilidade não está a um toque do dedo. Não a encontramos instalada na cozinha ou no corredor, no banheiro ou ao lado da mesa de trabalho, do...

Álbum

As fotos estragaram depois da chuva, os rostos manchados, o mofo diluindo a cobertura cromática, tornando infamiliar o familiar. Estranho o rosto da mãe, do pai, dos tios. Quem era carregado no braço, quem se agachara na hora do retrato, quem aparecia ao fundo da imagem, em contraste, num alçapão da memória? Não sabemos mais. Nunca soubemos. Peço o álbum pra mãe, que me devolve tudo com um gesto de afastamento, como quem entrega objeto pesado, sem serventia, um traste. A memória desfeita, malcuidada, o que eu faria com aqueles retalhos? Que tipo de história eu montaria? Talvez restaurar o possível, dar vida ao que ainda tivesse condições. Não sei. Por muito tempo o álbum permaneceria ao lado da mesa de trabalho, junto a uma bíblia onde mãe anotara o nome do padre que me batizara, hora de nascimento, informações tão precisas quanto desnecessárias agora. Páginas grudadas, cantos inteiramente desfeitos, um borrão todo, como um trabalho realizado a propósito de apagamento deliberado, inte...

Carnaval em Marte

  Sonho com o solo marciano, a aridez vermelha que conheço de jogar videogame e estudar as imagens que chegam por uma sonda cujos passos acompanho desde o início, quando chegou ali sob muita expectativa. O que revelaria o equipamento, um rover com pneus emborrachados? Escrevo a crônica do solo, o mundo alienígena visto sob a perspectiva do dispositivo que alonga a vista do olho humano e teletransporta a experiência, alargando o campo do vivido. Gostaria de andar ali, correr e tropeçar naquelas pedras, o relevo que parece Morro Branco. Então lembro das dunas, das falésias, do carnaval. Um carnaval em Marte, sem Covid, sem Bolsonaro, sem preocupações senão atravessar os dias de folia. Apenas dois blocos desfilando, Spirit e Opportunity, cujas direções, opostas, teriam um único ponto de contato, onde se encontrariam ao final do dia para uma grande farra. Mas isso não é parte do sonho, apenas delírio. Do sonho recorto apenas o chão marciano, calcinado como o do sertão, a piçarra cris...

Terreiro

  De noite chove, e da casa de alpendre se vê apenas sombra. A luz projetada do poste amarelece o terreno em volta da casa, que tem feitio de coisa abandonada. Passamos por ela sem parar. Mas, à frente, tenho desejo de voltar, bater à porta e perguntar se há vivente ali ou apenas fantasma. Pedir uma cadeira e demorar ainda na fachada, observar o terreiro lavado d’água desde a madrugada, os bichos recolhidos ao poleiro, alguns no cercado. Talvez visse a vó do outro lado, acenando como gosta de fazer nos sonhos, sem assustar. Porque já não me assusto com alma, não corro nem finjo incredulidade, não faço gesto de aperreio. Apenas vejo e estudo se quer auxílio e como posso servir-lhe, ou então ignoro, não tenho dívida com esse outro mundo. Eu ficaria ali sentado, cheirando a terra, aspirando mais um bocado o céu da cidade. Estamos na serra, passamos incógnitos. Ninguém nos conhece nem nós a ninguém, de modo que avançamos feito essas sombras que atravessam a chapada, três sombras de per...