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Atleta fracassado

  Assistir Olimpíada é lembrar de cada um dos esportes em que fracassamos, do judô à capoeira, passando pela dança e natação e futebol de salão e corrida, enfim, a lista é inesgotável. E assistir com a mãe ao lado, como fiz nos últimos dias, piora ainda mais. Tá vendo, filho, podia tá ganhando essa medalha do vôlei. Mãe, tenho 1,73m, não ganharia nada além de bola na cara. Mas e a natação? E assim a conversa se segue. Ela sabe que natação é meu ponto fraco, mais ainda que futebol. Sou atleta frustrado, sim. Tenho o espírito competitivo, mas não a disciplina de quem um dia sonha ganhar qualquer coisa. Lembro de uma corrida no bairro organizada pela associação local. O circuito era uma volta pela rua, saindo da sede da instituição e voltando a ela. Largada dada, avancei na frente dos outros, mas precisei parar na esquina seguinte. Do contrário, não estaria aqui para contar a história. A meu favor devo dizer que nunca gostei de correr, muito menos de correr sem motivação, como é o cas...

Visagem

  A visão da avó saindo da igreja em passos lentos, o impróprio do horário, cinco da tarde, o pipoqueiro ao lado que não atinava para nada. Tudo isso me fez desejar que a imagem fosse tão somente o que era: a projeção do corpo que não existia, o vestígio da existência, a poeira sacudida do vestido que ela não usava mais e que a mãe enfiara numa sacola e mandara entregar a uma família mais pobre. A avó tinha morrido, eu sabia, todos sabiam, e aquela era a sua missa de corpo presente, a cerimônia da qual eu tinha escapado porque não aguentava o cheiro de velas e os quadros da via-crúcis na parede. Tampouco o perfume forte da tia Ofélia, que se aprontava mesmo para ir à esquina porque o amor podia bater à porta a qualquer instante, até numa igreja de um bairro na periferia na quinta-feira de janeiro de um ano qualquer. A avó não gesticulava, não olhava para nada. Era mais como se estivesse esperando ou tentasse se fixar num ponto muito além do seu horizonte, percorrendo com a vista o ...

Cubo mágico

  Há meses compramos um cubo mágico, que agora mantenho a meu lado, como um totem. Repousa sobre uma impressora velha que acumula poeira. Divide o lugar com um pinguim que ganhei de uma revista em visita a uma feira de livros muito tempo atrás. Olho pra ele, procuro decifrá-lo à distância, sem tocar nas suas faces. As cores embaralhadas. Breves combinações e sequências que tento encaixar, sem sucesso, mas talvez esse objeto não se possa reduzir a esse papel a partir do qual alguém o maneja a fim de ser bem-sucedido. Resisto à tentação de procurar pistas na internet, vídeos que me ensinem a montar o cubo, fórmulas que abreviariam o trabalho de organizar passo a passo cada um dos pequenos quadrados dentro do quadrado maior. Uma infinidade de possibilidades, como devem imaginar. Seis rostos, cada um dotado de nove fragmentos distribuídos em meia dúzia de cores. Tenho esses orgulhos infantis, competitivos. Recuso o atalho em certas situações apenas por vaidade. Esta é uma delas. Posso...

As 12 casas

  A esta altura, não sei se é relevante falar sobre a natureza do que escrevo aqui. Certamente não é, mas vou correr esse risco. Talvez já esteja claro que acumulo pedaços, fragmentos, retalhos com que vou tentando construir algo, dar feito de coisa inteiriça, sem jamais saber ao certo se consigo, como é comum entre pessoas com essa mesma monomania. Escrevo desde 2005, quando criei o espaço, que foi mudando de nome até que Corrida espacial se firmasse por razões que não entendo. Quer dizer, até entendo. Há simbologia, um campo de interesse científico-histórico-onírico situado nessa expressão, um conjunto de sentidos que ela carrega que me fazem querer falar, que abrem janelas. Remetem tanto a espaços quanto a tempos. Justificados nome e objeto, quero dizer ao leitor eventual, aquele que chega casual ou inadvertidamente: isto não é um diário, não é um bloco de notas, não é um arquivo, não é um blog pessoal, não é um caderno de anotações. É um pouco de cada uma dessas coisas. Gosto d...

Precisamos falar sobre a cadeira gamer

  Pode parecer leviano abordar assunto tão comezinho, mas não queria terminar o dia sem tratar de um tema que considero incontornável: a naturalização da cadeira gamer como um item do cenário doméstico em tempos de live. Artefato antes de nicho e situado num contexto específico no qual é majoritariamente associado à cultura jovem, mas convertido a dado da paisagem de reuniões virtuais pelas necessidades pandêmicas, a cadeira gamer tem uma qualidade que, a meu ver, a impede de passar despercebida quando empregada para fins de auxiliar a comunicação interpessoal. De espaldar alto, espichada, com detalhes em vermelho ou noutras cores berrantes, o móvel, se podemos chamá-lo assim, galvaniza a atenção de imediato, impossibilitando a conversação em termos fluidos. Ante um convidado ou palestrante abancado numa cadeira do tipo, parte da concentração se dirige ao que ele ou ela fala, parte vasculha e se perde nos detalhes da cadeira em si, parte tenta responder por que diabos ele ou ela ...

Exames

  O amigo escreve, melhor, manda uma mensagem de áudio que escuto à moda antiga, sem acelerar. Voz pastosa, quase 11 horas da manhã. São tempos ainda de trabalho doméstico, de maneira que os hábitos se acomodaram numa encruzilhada de público/privado na qual os códigos, e o sono entre eles, se confundem. O amigo diz nessa voz melosa que fará uma bateria de exames na semana seguinte. Melhor, que está fazendo, e cita então exames de sangue, de vista, de coração etc. Uma infinidade de cuidados que não sabia que os de minha idade, os chegados aos 40, careciam de tomar. Tento lembrar de quando meu pai tinha 40, se vivia assim, se já se precavia, mas não consigo. O pai sempre foi atlético, não serve de exemplo. Corria e lutava boxe. Conto que eu mesmo fiz algo do tipo outro dia. Não correr ou lutar, mas me submeter a uma série de exames também. Tudo aparentemente normal, a médica até elogiou a pressão, segundo ela numa cadência de normalidade. Depois explicou por quê. Os homens, ela me di...

Quebranto

  Há três dias tento escrever qualquer coisa antes de dormir, mas o tempo se passa sem que tenha feito nada, exceto o de obrigação, ou seja, essas seis ou sete palavras que emprego em frases diretas que tentam comunicar um sentido, carregar uma informação, na ambição de que sejam lidas ao pé da letra, sem qualquer viés. E, quando termino, me volto ao computador, mas já estou cansado. Fico olhando a tela, rolo a barra, revisito os temas, lembro de uma ou outra anotação que poderia render algo, mas não rende. Me vem à cabeça uma reportagem que fala sobre definhamento, mas me convenço de que não estou definhando, embora algo dentro de mim sugira ter mais prudência antes de descartar essa hipótese. Dito isso, considero que nunca trabalhei tanto, nunca fiz tanto serviço doméstico e me preocupei com aspectos da casa que antes passavam batidos, nunca espirrei tanto nem me mediquei depois de espirrar sucessivamente, em casa ou na rua. O que chega a ser um problema nestes dias. Pense em ir ...