Pular para o conteúdo principal

Postagens

História da casa

 Sete meses na casa. Habituei-me a seu ritmo, pensei que fosse mudar, mas mudei eu. Respiro como a casa, levanto e deito a seu modo. Se lhe acontece de adoecer, adoeço também, como no fim de semana em que o liquidificador danificou-se e uma lâmpada queimou, e logo eu caí acometido de sabe-se lá que enfermidade. Tinha febre e vomitava, mas agora estou melhor, a casa está melhor.  Às vezes de madrugada passo pelo corredor e olho para o quarto escuro onde escrevo rodeado de objetos empilhados e me vejo sentado. Eu não levantei, continuo lá, batucando no teclado, parte de mim não se descola da cadeira, parte de mim aderiu à casa e não se move desse espaço doméstico. Respiro a casa, os pulmões se dilatam sincronizados com as cortinas. Se elas esvoaçam, eu expiro, se se encolhem, eu inspiro, e assim meu corpo comunica ao corpo da casa a sua presença. Mais que isso, a sua aderência. Os rangidos da casa coincidem com os sons que produzo dormindo. A casa é grande para os padrões de ou...

Mitomaníaco

Há quem se refira ao presidente como mito, no que estão certos, porque se trata de alguém que mente patologicamente, mente ao natural, mente porque respira e porque tem uma tarefa política: reeleger-se. A mentira, portanto, está assentada num universo cujo centro gravitacional é esse sol fabricado, irreal, em suma, mentiroso, desconectado da realidade. Mitomaníaco. O discurso orbita a mentira, vai lhe dando ares de verdade não por seu conteúdo, flagrantemente inverídico e facilmente desmentido, mas pela performance. Ali está uma pessoa que mente convictamente, um narrador que não é somente inconfiável, é desbragadamente mentiroso e por isso um narrador a quem se dá ouvidos. Não é como se desdobrasse uma historieta em que ali e ali faltassem peças e o seu autor as preenchesse como quer, sem que isso afetasse o pacto de leitura da obra. Ok, sei que houve exagero eventual, o que não compromete a totalidade do que foi apresentado. O presidente procede por outro meio, no entanto. Sua falsif...

Fortaleza novidadeira

Lembro do Gilmar de Carvalho rindo-se na aula, mas um riso contido, mais uma gaiatice típica da gente. Falava do espírito novidadeiro da cidade. Fachadas de cerâmica e vidro temperado, as palmeiras esturricadas enfileiradas no canteiro de alguma nova avenida aberta mês passado.  Levavam de um bairro novo para um mais novo ainda, passando-se antes por um viaduto que homenageava um ex-governador ou ex-senador ou ex-qualquer coisa, finalmente chegando a esse enclave de classe média-alta guarnecido de fora por legiões motorizadas e cães bravos e, de dentro, por sistemas cada vez mais tecnológicos de videocâmeras. Tudo com cheiro de novo, dos nomes aos materiais de revestimento dos estofados nos halls de entrada. O parque requalificado ao qual também se dava o nome de novo. O novo estádio, o novo mercado, o novo ponto de encontro, o novo terminal de ônibus, a nova escola, a nova “ponte velha”. Isso mesmo, porque há duas pontes metálicas, uma velha e outra velhíssima, uma esquecida há ma...

A mãe

A mãe tinha um segredo, não que o escondesse, ela simplesmente tinha, como se possui uma gagueira ou um tique do qual não se tem consciência embora desde cedo esteja ali. Era esse tipo de segredo que tinha a mãe, talvez uma história, uma riqueza particular, uma origem duvidosa, uma abdução, uma face monstruosa sob a doçura dos traços passivos, um terceiro braço que lhe havia crescido imperceptível e que mesmo hoje o disfarçasse tão bem que passara incógnito. Mas estava ali, sob a claridade, à mercê de quem a olhasse mais de perto, coisa que eu costumava fazer naqueles dias tumultuosos que antecederam a saída do pai de casa. Eu tinha 14 anos, talvez um pouco mais, e me sentia surpreendentemente feliz quando o portão bateu e dentro ouvimos o silêncio e no meio do silêncio o oco deixado por ele.

Eu, monetizado

Monetizar a autoimagem, fazer da exposição um ganha-pão, intercambiar essas demonstrações de si e disso obter talvez recurso, cobrando pelo acesso a quê?  Não sei, cada um que escolha aquilo que terá de pôr à venda, já que é algo caro, o mais íntimo, o corpo, o trabalho, dicas de exercício em tempos de pandemia, o aconselhamento, não mais o site, o blog, mas o privado –as horas de sono e o sexo, o beijo e o gozo.  Paga-se pelo que for, são tempos de necessidade e projeção em que esse capital migra do físico para o não-físico, se entendo bem o que se passa agora. Cada um é sua marca, sua empresa, sua mensagem anunciada pela qual é de supor que recebam algo em troca, num escambo contínuo e agora sem fronteiras. Esperava-se sempre que o capitalismo fosse longe, colonizando a Lua e Marte etc., levando a fábrica ao intergaláctico, mas já chegou bem distante, talvez o mais distante que se possa imaginar. Chegou dentro, fundo. Dispensável qualquer convencimento, hoje trabalha-se e mo...

Diário da quarentena (parte 6)

  Por que terminar aqui?, por que começar? Seis meses atrás, num 17 de março , entrava em modo pandêmico, ou seja, sob uma conformação tal de sentimentos adaptados a um porvir duvidoso diante do qual eu me sentia à vontade como a personagem em face da extinção naquele filme do planeta azul. E agora estamos aqui, sem saber ao certo se o pior já passou. Eu costumo perguntar a quem presumo que tenha a resposta: o pior já passou? Ninguém pode assegurar que sim, tampouco devemos esperar termos uma certeza inabalável antes de voltarmos a sair de casa, certo? Pelo menos é isso que tenho visto em fotos e vídeos de amigos. Sim, o pior passou, mas sem ter passado de fato, e dane-se que não tenha passado ainda. Lembro do tom jocoso do primeiro relato do diário da quarentena, uma piada com aquela situação embaraçosa e ao mesmo tempo excitante que é a suspensão da regra e das normas sem garantia de retorno. Num dia, estava no trabalho. Noutro, em casa, como ainda estou. Nada do que previ aconte...

A coisa da idade

Tenho agonia, não sei se a palavra é essa, a quem se refere à própria idade assim: 4.0, 3.3, 5.0, como se falasse do modelo de um carro, de sua potência ou ano, e nunca da idade, numa manobra cujo sentido eu não entendo, já que o ponto entre os dois números não elimina o fato de que se tem 40 ou 33 ou 50 anos. Me pergunto se eu mesmo um dia direi de minha idade: 5.4, estabelecendo esse intervalo, uma espécie de suspense depois quebrado, de modo a tentar sabotar ou trapacear, fazendo o ouvinte se confundir a respeito de qual idade realmente eu tenho. Mas duvido que essa manobra seja bem-sucedida, afinal quem, ao ouvir 3.8, entende 24 anos e não 38 anos? Isso mesmo, 38, a dois de chegar aos 40, sem problema, mas me parece que não para quem atinge esse patamar, tais como outros, sempre depois dos 30, porque interpor esse ponto entre números é cacoete de quem já passou dessa casa e não de quem tem menos de 30 anos. Dificilmente se ouve de alguém: tenho 2.5, porque ter 25 anos é por si moti...