Pular para o conteúdo principal

Postagens

Extraviado

Um homem se perdeu no mar. Entrou, não foi mais visto. Aeronaves sobrevoam, dão rasantes, barcos partem em busca de algo que possa levar a um lugar que não existe. O mar não fixa barreiras. Não se pode dizer que afundou, tampouco que está irremediavelmente perdido. A procura leva horas, amanhã será retomada logo cedo. Estarei dormindo ainda quando um grupo numeroso terá os olhos vidrados nas águas. A foto que estampa a reportagem do jornal é de um fim de tarde.  Noutro lugar, noutra parte, talvez um casal se beije olhando o mesmo mar.  A mesma paisagem repete-se ora como agonia, ora como sereno. Talvez não seja ainda o momento de perguntar quando ele virá. Se virá. E como virá. Inês é morta? Leio a manchete: desaparecido. Mar. Homem. E imediatamente me coloco a reunir sob o mesmo teto o conjunto indistinto de sentimentos que cada uma dessas palavras mobiliza. Um homem extraviado em pleno domingo. Tinha braços e pernas feitos para isso, os músculos meto...

Três palavras

Vi três palavras. Três, sim. Primeiro água, depois dinheiro e finalmente amor. Não sei se valem pela ordem ou se o que importa é o que cada uma significa separadamente, afinal as três encerram um mundo próprio. A vida de um modo diferente a depender de como apareçam. O ideal seria que pudéssemos escolher, mas a verdade é que quase nunca podemos.  Água pode querer dizer tanta coisa, de nascimento a renovação, mudança e mais fluxo na vida, mergulho e flutuação. Enfim, um monte de signo. Com qual fico? Gosto de fluxo. Neste ano vivi muito perto da água. Mergulhei e afundei. Ralei o corpo em pedras, mas também sarei. Gastei a pele com sol. Suei um bocado em travessias de bicicleta, estive no mar mais vezes do que nos outros 36 anos de vida. Foi um ano marinho, escuro mas solar, acidentado mas fluido. Feito o mar. Ora manso, ora arrebentação. Então é possível que essa palavra tenha, sim, alguma importância no ano que vai começar. O mar vai continuar como um elemento de for...

O que fazemos aos domingos

Aos domingos acordamos mais tarde certos de que as horas passarão lentamente. Confiamos nesse ritmo vagaroso, queremos que o tempo se estenda. Conversamos, e cada história se dilata, cada história é a continuação de outra. Detalhes e detalhes. Uma frase talvez desse cabo de tudo. Mas nunca soubemos dizer nada além da falta. Aos domingos tentamos remover uma mancha da roupa que nunca sai de fato. Aos domingos levamos o desamparo a passear. Também aos domingos tomamos mais café e gastamos mais tempo olhando a superfície das coisas de casa. Objetos que refletem nossa imagem. Se vamos passando na cozinha, é a geladeira. Se estamos na sala, é o resto de café. Se no banheiro, naturalmente é o espelho, mas o espelho é falso, tudo que mostra é aceno ao que já foi. Confiar no borrão esmaecido, na dança de luzes da máquina de lavar, na tela escura da TV ou numa carta de baralho retirada quando já é noite e estamos muito cansados para decidir sobre qualquer coisa.  Confiar...

Cascas

Leio aos tropeços, trechos saltados de obras, cacos de frases. Fragmentos, arestas, pontas soltas. Saio pouco, quase nada. Um vizinho canta, primeiro sucessos de novelas, discos internacionais com rostos de estrelas da TV estampados nas capas. Depois forró. Assobia cada canção, em seguida acompanha com grunhidos e batidinhas. Passa horas assim. Tento estabelecer um nexo entre cada coisa, mais ou menos como se montasse um mosaico. Música, pedaços de realidade, férias, a filha na sala vendo desenhos. O desenho preferido agora é outro: As lendas. Um grupo de crianças, fantasmas, caveiras de açúcar e um animal cuja fome não passa. A morte sempre presente, mas uma morte festiva. Nunca o luto católico que aprendi na escola. A morte é alegre.  Um fantasma chama-se Don Andrés. Teodora é uma menina que vive grudada no celular. Gosto das caveirinhas. Elas se chamam Finado e Moribunda. O desenho acaba. Peço que volte, mas ela agora quer outro. Começo a ler uma página ao ac...

Um sonho

No último sonho me despia no sofá para um casal de idosos que perguntava com insistência se seria capaz de felicidade. Assim mesmo, como se a felicidade fosse uma faculdade, uma habilidade mediante a qual nos tornamos mais ou menos contentes com aquilo que fazemos da vida. Eu era feliz, sim, mas não sabia se tinha esse atributo. Além da felicidade, eu seria capaz de tornar outra pessoa feliz? Acho que esse era o objetivo da pergunta, não tanto interrogar minha própria felicidade, mas saber se ela se estendia a outra pessoa, se poderia alcançar o alheio. Em última instância, se podia atravessar uma fronteira. Tinha acabado de acordar, estava nu, coberto por um lençol. Era uma casa estranha com pessoas estranhas. Apenas um rosto era conhecido. Todos estavam vestidos. De repente me vi sozinho com o casal. A mulher falava, o homem observava. Um olhar judicioso de quem mede cada centímetro da superfície perscrutada. Trocamos poucas palavras. Narrei episódios da minha vi...

As horas

Parei e reli tudo. Considerei lixo uma parte e regular a outra. Não sei como continuar, mas pelo menos não saber indica que talvez esteja no caminho certo, que é qualquer um menos o que estava tomando. Tenho ido à faculdade, e dizer que vou dá a exata noção do descompromisso e até de certa preguiça em frequentar os cursos deste segundo semestre. Ir: encaminhar-se a algum destino sem a necessidade de se demorar nele ou de se deixar tocar.  Preguiça, preguiça mesmo. Pensado pouco, lido menos ainda. Um torpor físico, um enguiço mental, a parte mais criativa do dia tem sido sonhar. Nos sonhos elaboro os impasses e resolvo problemas que não tenho conseguido resolver acordado. Nos sonhos sou produtivo, trabalho a noite inteira, acordo e me sinto outro. Renovado, pronto pra batalha do dia. Mas, tão logo começa, vou esmorecendo. Uma áurea oblomoviana recobre tudo, uma sensação macunaímica.  Escrevo de noite, e à noite sou péssimo. Cansaço, um peso nas mãos, como se a...

Ivone ii

Ivone acordava assustada no meio da noite, dizia ter visto o pai chamando na porta. Depois deitava, falava sobre a morte, que não a colocassem no caixão ainda viva. Tinha medo de escuro, de bater e ninguém abrir, tinha medo de que alguém a sufocasse enquanto dormia, medo de que a mãe do papai a convidasse para uma volta e ela não tornasse.   Os netos riam, ainda crianças. Não se davam conta de que Ivone não delirava, que tinha razão nas advertências. Ela ralhava, dizia: vocês vão ver. Um dia estarei aqui e, no dia seguinte, não estarei mais. E repetia uma frase, sempre a mesma frase apocalíptica que anunciava sabe-se lá que pragas: quando a roda grande entrar na roda pequena, será a hora certa. Que hora? Que roda? E caíam na gargalhada. Numa quinta-feira de abril de 2008, um dos filhos de Ivone voltava do trabalho para casa. Dirigia um Fusca. Distraiu-se com o telefone e bateu o carro contra uma árvore à beira da estrada. Desceu com vida, contaram testemunhas. Depois ...