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Cascas

Leio aos tropeços, trechos saltados de obras, cacos de frases. Fragmentos, arestas, pontas soltas. Saio pouco, quase nada. Um vizinho canta, primeiro sucessos de novelas, discos internacionais com rostos de estrelas da TV estampados nas capas. Depois forró. Assobia cada canção, em seguida acompanha com grunhidos e batidinhas. Passa horas assim. Tento estabelecer um nexo entre cada coisa, mais ou menos como se montasse um mosaico. Música, pedaços de realidade, férias, a filha na sala vendo desenhos. O desenho preferido agora é outro: As lendas. Um grupo de crianças, fantasmas, caveiras de açúcar e um animal cuja fome não passa. A morte sempre presente, mas uma morte festiva. Nunca o luto católico que aprendi na escola. A morte é alegre.  Um fantasma chama-se Don Andrés. Teodora é uma menina que vive grudada no celular. Gosto das caveirinhas. Elas se chamam Finado e Moribunda. O desenho acaba. Peço que volte, mas ela agora quer outro. Começo a ler uma página ao ac...

Um sonho

No último sonho me despia no sofá para um casal de idosos que perguntava com insistência se seria capaz de felicidade. Assim mesmo, como se a felicidade fosse uma faculdade, uma habilidade mediante a qual nos tornamos mais ou menos contentes com aquilo que fazemos da vida. Eu era feliz, sim, mas não sabia se tinha esse atributo. Além da felicidade, eu seria capaz de tornar outra pessoa feliz? Acho que esse era o objetivo da pergunta, não tanto interrogar minha própria felicidade, mas saber se ela se estendia a outra pessoa, se poderia alcançar o alheio. Em última instância, se podia atravessar uma fronteira. Tinha acabado de acordar, estava nu, coberto por um lençol. Era uma casa estranha com pessoas estranhas. Apenas um rosto era conhecido. Todos estavam vestidos. De repente me vi sozinho com o casal. A mulher falava, o homem observava. Um olhar judicioso de quem mede cada centímetro da superfície perscrutada. Trocamos poucas palavras. Narrei episódios da minha vi...

As horas

Parei e reli tudo. Considerei lixo uma parte e regular a outra. Não sei como continuar, mas pelo menos não saber indica que talvez esteja no caminho certo, que é qualquer um menos o que estava tomando. Tenho ido à faculdade, e dizer que vou dá a exata noção do descompromisso e até de certa preguiça em frequentar os cursos deste segundo semestre. Ir: encaminhar-se a algum destino sem a necessidade de se demorar nele ou de se deixar tocar.  Preguiça, preguiça mesmo. Pensado pouco, lido menos ainda. Um torpor físico, um enguiço mental, a parte mais criativa do dia tem sido sonhar. Nos sonhos elaboro os impasses e resolvo problemas que não tenho conseguido resolver acordado. Nos sonhos sou produtivo, trabalho a noite inteira, acordo e me sinto outro. Renovado, pronto pra batalha do dia. Mas, tão logo começa, vou esmorecendo. Uma áurea oblomoviana recobre tudo, uma sensação macunaímica.  Escrevo de noite, e à noite sou péssimo. Cansaço, um peso nas mãos, como se a...

Ivone ii

Ivone acordava assustada no meio da noite, dizia ter visto o pai chamando na porta. Depois deitava, falava sobre a morte, que não a colocassem no caixão ainda viva. Tinha medo de escuro, de bater e ninguém abrir, tinha medo de que alguém a sufocasse enquanto dormia, medo de que a mãe do papai a convidasse para uma volta e ela não tornasse.   Os netos riam, ainda crianças. Não se davam conta de que Ivone não delirava, que tinha razão nas advertências. Ela ralhava, dizia: vocês vão ver. Um dia estarei aqui e, no dia seguinte, não estarei mais. E repetia uma frase, sempre a mesma frase apocalíptica que anunciava sabe-se lá que pragas: quando a roda grande entrar na roda pequena, será a hora certa. Que hora? Que roda? E caíam na gargalhada. Numa quinta-feira de abril de 2008, um dos filhos de Ivone voltava do trabalho para casa. Dirigia um Fusca. Distraiu-se com o telefone e bateu o carro contra uma árvore à beira da estrada. Desceu com vida, contaram testemunhas. Depois ...

Ivone

Conversei com H longamente no último fim de semana. Parecia mais velho, não exatamente feio, mas os cabelos mais brancos e uns quilos mais magro. H, eu lhe disse, o que ainda há para ser feito? Calado feito jagunço sob a luz baça da mesa do café, os óculos retangulares, as lentes muito sujas, as mãos postas como se em reza. Inspecionei ao redor: casais velhos e moços, apenas casais. Entretidos com braços e pernas, casais e suas crianças, casais e suas mucamas de avental branco. Casais aristocráticos como se ainda no século XIX. Casais indiferentes, casais mantidos à força de algum elo comercial. Casais como sócios numa start-up. Casais como ex-amigos, como parceiros de buraco, como recém-casados. Casais como espécimes raras de um mundo que não existe mais.  Casais de toda sorte.  O café esfriou. Perguntei a H se queria o biscoito que acompanha a bebida. Como dissesse não, estiquei o braço e comi. Tinha um livro que pegara sem grande interesse da estante e que acabaria ...

Leitura de sonhos

Li em algum lugar que anotar os sonhos, tentar descrevê-los, pode ser um exercício interessante de escrita. Porque os sonhos resistem a uma apreensão lógica, porque seu encadeamento narrativo não se presta a sistematizações etc. Talvez tenha sido em Elena Ferrante, talvez em Susan Sontag, talvez noutra escritora que não lembro agora. De todo modo, foi um conselho de mulher durante uma leitura já perto de dormir, numa hora em que baixo a guarda e tudo pode acontecer. Então sonhei, primeiro com um gato doméstico que me atacava. Quer dizer, armava um bote, murchava as orelhas como fazem os gatos quando em posição de combate, mas jamais consumava o golpe. Permanecia em estado de tensão, de ataque iminente. Eu tentava me defender, antecipando-me ao movimento. Atirava um lençol, e mesmo encoberto o felino continuava a preparar o salto. Eu tinha medo do arranhão, das mordidas, medo do estrago que faria no meu rosto, nos ombros, no corpo inteiro. O sonho termina antes do pulo, mas a ...

Desejo iii

Desejo o cigarro que não fumo há dois dias, a corrida que não fiz, o banho que não tomei, os livros que não li, os filmes que interrompi e as séries que larguei pausadas entre o grito e o crime. Desejo o tempo que levei atravessando o hall do condomínio, todos os segundos digitando nos botões na máquina de lavar, as horas perdidas entre abrir e fechar a geladeira. Desejo o perfume que sobe do apartamento de baixo, a luz de uma hora intervalar, o jeito de atravessar a rua daquele homem que carrega uma sacola a tiracolo, a fala de um amigo que engole certas letras, os pés flexionados sob as pernas da mulher que pede uma sopa na padaria, a tranquilidade de esperar o caixa emitir a nota. Desejo a coragem de telefonar para a mãe, de perguntar ao pai se está tudo bem, de ir até o cemitério e dizer bom dia ou boa tarde, a depender da hora. Desejo força para abrir a gaveta e arrumar os fios soltos, carregadores de celular, baterias e canetas que fui acumulando durante décadas...