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Desejo iii

Desejo o cigarro que não fumo há dois dias, a corrida que não fiz, o banho que não tomei, os livros que não li, os filmes que interrompi e as séries que larguei pausadas entre o grito e o crime.

Desejo o tempo que levei atravessando o hall do condomínio, todos os segundos digitando nos botões na máquina de lavar, as horas perdidas entre abrir e fechar a geladeira.

Desejo o perfume que sobe do apartamento de baixo, a luz de uma hora intervalar, o jeito de atravessar a rua daquele homem que carrega uma sacola a tiracolo, a fala de um amigo que engole certas letras, os pés flexionados sob as pernas da mulher que pede uma sopa na padaria, a tranquilidade de esperar o caixa emitir a nota.

Desejo a coragem de telefonar para a mãe, de perguntar ao pai se está tudo bem, de ir até o cemitério e dizer bom dia ou boa tarde, a depender da hora.

Desejo força para abrir a gaveta e arrumar os fios soltos, carregadores de celular, baterias e canetas que fui acumulando durante décadas porque se embaraçavam nos braços, nas pernas, no tronco.

Desejo o desapego de atirar fora as edições que jamais abrirei, as revistas que comprei, as roupas que não vestirei e as correspondências a que não cedi. 

Desejo chegar à porta da casa e perguntar se mora ali algum desejo que tenha semelhança com o meu desejo de estar no mundo como quem procura sempre um lugar mais afastado de onde possa olhar o desfile das coisas que existem, que ainda existirão, e nisso levar horas, talvez dias, sem necessidade de nada exceto de cumprir rigorosamente o desejo de habitar o segundo, aquele segundo e nenhum outro mais. 

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