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Cheiro

D e algum modo, o cheiro sintetiza tudo: suor, fluidos corporais, cama, ambiente, hálito de bebida, perfume, xampu. É uma súmula do trajeto percorrido até o gozo derradeiro. Tudo isso o cheiro carrega.    A cerveja chega. O garçom abre a garrafa sem mirar. Venta em abundância. Há um gosto de sal na conversa. O tampo da mesa pegajoso gruda-se ao olor de cada palavra.  A nossa volta, cada grupo de pessoas parece iluminado com uma santidade própria, prestes a se desfazer tão logo parasse de soprar e o vozerio fosse morrendo naturalmente. Era uma tarde incrível.

Três partes

Como toda lógica, a do sexo comporta mutações. É possível imaginar o ciclo começando pelo final e voltando ao início para um recomeço? Sim, é possível. A cerveja demorava. Acenei pro garçom, que fez um gesto que interpretei como “estou no controle de tudo, não se afobe”. É claro que ninguém ali estava no controle. O segundo ponto é a penetração e o terceiro, o gozo. Antes há todo esse jogo de beijos e fricção de carnes que acentua a umidade feminina e a ereção masculina em qualquer arranjo sexual.  Essa etapa consome aproximadamente 80% do tempo do sexo. Ou seja, primeiro as carícias, depois a penetração e, finalmente, o gozo. Mas, dependendo do casal, vai-se de 1 a 3 ou parte-se logo do 2. O gozo é obrigatório? Não. O meio, sim. Pouca gente sabe, mas a dimensão olfativa é tão ou mais importante que a visual. É fácil esquecer-se da intensidade do gozo, da fartura de suor e até do rosto.  Do cheiro, não.  

Beleza

É como a lógica tripartite, disse. E citou como exemplo o sexo. Não entendi, mas fingi surpresa rindo na hora errada. O que lhe causou algum aborrecimento, que disfarçou arqueando as sobrancelhas de um modo tão bonito e engraçado. É assim, pôs-se a explicar e eu, a ouvir. Começa com lambidinhas e carícias breves em locais-chave do corpo da mulher. Pescoço, orelha, mãos... (Mãos...) ... pés, barriga, mordiscadas, beliscões, arranhões e toda sorte de pequenos atritos e deslizes a que duas pessoas se permitem quando querem se comer. Daí até a lubrificação é um pulo. Dependendo do casal, é claro, essa etapa pode levar menos tempo. Há casais e casais: uns que ritualizam o sexo, preparam-no como a um jantar ou cerimônia sacrificial, executada passo a passo com rigor aristotélico. E há os casais que, varados de fome, mas menos presos a planos, agarram-se ao que podem e está ao alcance, metendo-se uns nos outros com essa gula de quem não espera a comida esfriar e...

Passa da hora

O sonho acabou bem na hora em que já tinha passado do momento em que seria prudente acabar. Não tendo acabado ali, porém, não faria o menor sentido chegar ao fim logo depois. Mas foi exatamente nesse ponto, em que podia continuar um pouco mais mas não foi em frente, que o sonho terminou. Os sonhos são incompreensíveis, dizia Freud à boca miúda a quem o encontrasse numa sexta-feira de tarde bebendo chá e fumando. Disso não pedia segredo, o que nunca impediu que uma clientela cada vez mais numerosa o procurasse na clínica onde, um pouco contrariado, interpretava os sonhos de acordo com os códigos que, entre uma baforada e outra, ia desenvolvendo. Freud também era incompreensível. 

Caçada

O ódio é como uma pele de animal recém-extinto. Homem e cão andam lado a lado por muito tempo, até que se dão conta da presença um do outro. O homem para numa sombra. Não venta desde o dia anterior.  O homem fala ao cão e o cão ao homem. Conversam trivialidades. Repassam a cena pela milésima vez. Numa aula na igreja da última cidade, tentou encontrar ódio. Mas só havia substitutos. Foi embora sem responder qualquer pergunta. Espero não ter causado uma má impressão. O cachorro arrebita o focinho. Lá atrás, o conselho decide formar uma comitiva cuja missão será primeiro caçar e depois extrair do homem tudo que possa saber sobre a vida de trinta anos atrás. O homem retoma o passo. 

O que fazer

Agora todos na sala discutem se o homem teria sorrido porque não sabia de nada ou porque sabia de tudo. E tudo, claro, queria dizer apenas uma coisa.   A dúvida era insistente. Difícil elucidá-la. Nenhum manual, nenhum livro, nenhuma cerimônia.   O clima era já de despedida quando um dos presentes, um pouco displicentemente, garantiu que conhecia o homem de muito tempo atrás. Talvez de uma festa.   Disse que o rosto mudara, mas a voz continuava o mesmo sussurro velho. Era inconfundível. Sob o murmúrio, a reunião foi suspensa. O colegiado se reuniria dali a pouco para deliberar sobre a melhor forma de tratar do problema, o primeiro em mais de três décadas de bonança ética e moral.  A comunidade queria uma resposta para o ódio. Era preciso enfrentá-lo. Melhor: era preciso evitá-lo. Lá fora, o homem caminha numa rua arborizada da cidade. Vê uma placa. Comunidade Francisco. Um cão magro aproxima-se e rosna. O homem já o conhecia.

Voltando pra casa

Todos na sala falam sobre ódio. Um homem então se levanta e, sem fixar nenhum rosto,  pergunta  se alguém ali sabe de fato o que é sentir ódio. A resposta era óbvia: ninguém sabia. Nada surpreso, o homem encaminha-se em direção à porta do lugar que lembrava uma escola ou as instalações de um abrigo anti-mísseis. Era uma igreja, na verdade, e a reunião que havia acabado de interromper tinha tudo para ser o encontro semestral dos Notáveis da Comunidade Evangelizadora. E de fato era.  Antes de sair, o homem virou-se e sorriu. E no corredor contou as ranhuras nas paredes e os veios de mofo que atravessavam o teto. Essas marcas que o tempo deixa na superfície das coisas. O ódio, segundo ele, era como um bolorzinho qualquer alimentando-se do esquecimento todo dia um pouco mais. Mas aí ele já ia longe e não voltaria para compartilhar a descoberta.