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Nua

Não deixa de ser curioso o surto de pessoas nuas na rua. Mulheres, sobretudo.  Caminhando nuas. Isso mesmo, nuas. Nuas, sozinhas, nas ruas. Exatamente assim, não há confusão alguma. Nuas e ruas rimando na mesma frase e encerrando um mistério insolúvel. O que convida a pensar sobre muitos assuntos, exceto sobre o real motivo de as pessoas, principalmente mulheres, terem resolvido, aparentemente sem razão, caminhar sem roupas pelas ruas da cidade.  O que tem chamado a atenção de quem passa ou espera o ônibus ou apenas observa da janela de casa ou do apartamento o movimento lá fora, que agora inclui uma mulher nua caminhando na rua, um passo de cada vez, a cabeça levemente inclinada, suportando dignamente sol e chuva. Todavia, o que faz, na rua, nua, a qualquer hora do dia, uma mulher?  A pergunta é intrigante e, de resto, irrespondível.  Porque nua, na rua, uma mulher pode desejar o que estiver ao alcance da imaginação, inclusive nada. Pode tamb...

Ainda os shoppings

Lamento não ter ido direto ao ponto no texto que escrevi para O Povo de hoje: a expansão dos shopping centers, e sua receptividade entre nós, é sintoma de uma cultura que atribui pouca importância ao espaço público.    A relação que pretendi estabelecer foi a seguinte: enquanto inaugurações de shoppings causam estardalhaço, mobilizando a atenção dos jornais a ponto de o assunto se tornar tópico obrigatório de conversas, áreas sensíveis da cidade se degradam progressivamente.  Citei como exemplo os parques Rio Branco e Adahil Barreto, mas poderia ter mencionado uma dezena de lugares de Fortaleza hoje relegados a segundo plano: o Cocó, quase toda a extensão da Praia de Iracema, o Farol e seu entorno, o campus do Itaperi da Universidade Estadual do Ceará.  Alguém pode argumentar: mesmo privados, os shoppings são públicos. Logo, neles o trânsito é livre.  Bom, isso não é totalmente verdade.  Shoppings são empreendimentos privados cuja lóg...

Onda

Deriva continental, escreveu no caderno. À menção do nome, disse que faria. Confirmou presença, mas logo percebeu que não haveria tempo ou disposição ou ambos. Movimento de placas que navegam no magma atraídas pela força magnética, escreveu também, a letra pequena apertando-se contra as linhas. Mas, na hora, acabou desistindo, ou talvez estivesse esquecendo seletivamente tudo, os pequenos e os grandes movimentos, os entrechoques que produziam chispas que depois iriam incendiar florestas longe dali. Deriva dos continentes é uma teoria científica segundo a qual um dia tudo que vemos fez parte de um mesmo bloco compacto de terra. Há evidências dessa junção, embora tudo hoje sugira o movimento contrário. Anotou cuidadosamente a palavra “contrário”. Ouviu o sino da escola tocar lá no fundo. Dobrou o caderno, guardou lápis e caneta, olhou novamente para a última cadeira da segunda fila a partir da porta. Não havia mais ninguém lá, exceto por um rapaz que ...

Aprendizado

Tô convencida de que uma parte do meu aprendizado é acreditar que tudo é ruim e nada do que faça terá serventia algum dia, o que é libertador, pensem no desespero que é essa pressão de ficar à espera de que algo aconteça, algo mágico, uma volta inteira no parafuso, um passo de dança, quase como na 5ª série, quando a gente esperava que o garoto falasse com a gente o ano inteiro e o garoto ficava lá, não falava, então o ano acabava e nada tinha acontecido, apenas os garotos errados tinham puxado conversa.   Sim, agora é diferente, como sei que não farei nada, e não duvido da visão porque foi até hoje a coisa mais vívida que já sonhei, posso me dar ao luxo de fazer exatamente o oposto, ou seja, de simplesmente ir fazendo sem a pressão que falei. É, embora esteja predestinada a não ir muito longe, a dar voos rasantes de fôlego curto que talvez sequer sejam captados nos sonares e outros aparelhos que registram os objetos que emitem energia enquanto se movem, tudo isso me le...

Enquanto via televisão

E antes de sair disse só mais uma coisa, e foi como se essa coisa aparentemente banal anulasse todo o resto. Foi exatamente assim, a única coisa que importava exposta ali, como ao acaso, depositada ou largada sem rigor, uma peça extraviada de uma nave espacial. É só isso que tenho pra falar, concluiu, talvez num tom exageradamente teatral, talvez a sério, o acréscimo que punha tudo a perder. Basta que uma frase mal compreendida ganhe vida e então tudo está por um fio. Ficou calado, esteve calado por todo esse tempo sem saber por que permanecia calado ainda que tudo em redor o convidasse e mesmo o intimasse a falar, a fornecer informações sobre si mesmo que depois seriam usadas para compor um perfil. Era isso, as pessoas gostam de se assegurar de que estão falando com alguém cujo perfil conhecem e não com um estranho que a qualquer momento pode acrescentar um significado imperceptível ao final de uma frase, pondo tudo a perder. Não entendia por que apenas ao fim de tantas frases é...

Dicionário

Um parágrafo  Que comece dizendo o que não sabia e termine por anunciar uma certeza antiga.  Uma frase  Sincera, curta, um pouco desajustada, dessas que fingem seguir o roteiro mas, lá pelas tantas, quando tudo levava a crer que cumpriria o trajeto estudado, muda e, decidida, salta pontuações e declara, sem meias palavras, que não sabe aonde vai e pergunta as horas a um homem distraído na parada do ônibus, que responde: quinze para as cinco, e eu também não sei.  Uma margem  Erro e acerto ao final se equivalem, mas sem alterar o resultado, que nunca se adivinha, nunca mesmo. Uma previsão  Coisas que fatalmente acontecem são as menos previsíveis e as que nunca acontecem são as mais previsíveis.  Um temor  Reler o que escreve e descobrir que sempre esteve certo, mas pelas razões erradas, ou errado, pelas razões certas.  Uma alegria  Quando o concerto ordinário das ações cotidianas parece realmente isso...

Iracema abre o voto

Iracema anunciou ao aracati: votaria no candidato da situação, esse de sorriso largo e bochecha esburacada. O candidato que planeja trazer mais peixes à areia e fundar um oásis na Praia Mansa, inaugurando a modernidade na província do Siará Grande. É o melhor, acredita a índia, alisando mechas dos cabelos recém-pintados de louro-abóbora. E talvez tenha razão. Mas há também a chance de que não tenha. É fim de tarde na taba.  Iracema ensaia o discurso debaixo da mangueira. Tem medo de que seja mal interpretada entre índios mais esclarecidos. Contrariada, aceita correr o risco. A língua do povo é veneno. O que dirão se descobrirem que está do mesmo lado da tribo dos Ghomez? Nunca mais as miçangas vendem, os discos fazem sucesso, os shows lotam.  Como um vento soprando entre as árvores, ouve alguém lhe dizer : votar no auxiliar do cacique? O que o cacique fez pela cultura da aldeia? E o que diz sobre a matança, tornada rotina? E os irmãos do cacique? Como aceitar suas alianç...