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Onda



Deriva continental, escreveu no caderno.

À menção do nome, disse que faria. Confirmou presença, mas logo percebeu que não haveria tempo ou disposição ou ambos.

Movimento de placas que navegam no magma atraídas pela força magnética, escreveu também, a letra pequena apertando-se contra as linhas.

Mas, na hora, acabou desistindo, ou talvez estivesse esquecendo seletivamente tudo, os pequenos e os grandes movimentos, os entrechoques que produziam chispas que depois iriam incendiar florestas longe dali.

Deriva dos continentes é uma teoria científica segundo a qual um dia tudo que vemos fez parte de um mesmo bloco compacto de terra.

Há evidências dessa junção, embora tudo hoje sugira o movimento contrário.
Anotou cuidadosamente a palavra “contrário”.

Ouviu o sino da escola tocar lá no fundo. Dobrou o caderno, guardou lápis e caneta, olhou novamente para a última cadeira da segunda fila a partir da porta.

Não havia mais ninguém lá, exceto por um rapaz que desenhava na parede uma onda grande que se erguia e em seguida despencava, inundando a cidade, o bairro, as casas, a escola e aquela sala onde agora se encaravam.  

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