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Xxxxx

“Uma tristeza crônica de origem difusa.” Eu quis rir quando li, mas esse era eu  quatro ou cinco anos atrás indo e vindo pelas ruas de uma cidade xadrez banhada por águas cuja balneabilidade varia conforme o número de descargas que a rede hoteleira dá.  Baita autodiagnóstico.   Escrevi isso num caderninho vagabundo de arame. Era 2009, tinha 29, primeiro casamento, sem filhos, trabalhava e estudava, sem dinheiro, sem videogame, sem rodo de pia. Um quase fodido que gastava as melhores horas da vida em cima dos livros, e isso era bom. Andava pouco e sozinho, e isso também era bom. Nessas poucas andanças, escutava três músicas em looping infinito, não lembro quais, mas era como se, ao ouvi-las, eu enxergasse o mundo de longe. Nesse mundo visto de longe, eu me flagrava voltando pra casa com uma expressão da qual agora eu só consigo gargalhar.  Essas três músicas me empurraram pra perto de tudo que eu queria e não tinha coragem, então acabava evitando p...

Tudo que há nesse intervalo

O que não disse ainda é que, como o sorriso, o abraço divide-se em muitos tipos, cada um deles correspondente a diferentes pessoas, cada pessoa mais inclinada a no máximo duas categorias de abraço, uma formal e outra informal, podendo combiná-las e recombiná-las a seus próprios gosto, desejo e vontade. Por ordem de lembrança, há as pessoas que abraçam inteiras, as que abraçam de banda, as que mantêm uma distância protocolar do abraçado, as que jamais abraçam, as que complementam o abraço com um beijo, as que premiam o abraçado com um beijo e uma carícia no rosto, as que deitam a cabeça no ombro de quem abraçam, as que grudam peitos e barriga num enlace que é quase o princípio de outro abraço, as que abraçam pela cintura, as que abraçam por cima dos braços, as que abraçam na diagonal, as que abraçam deitadas, as que abraçam à força, as que abraçam com força, as que chegam a um passo do abraço, as que invejam o abraço, as que desistem do abraço, as que abraçam sem braços, as ...

E.B.E aporta no litoral

Começo agora um exercício.  Dizem os especialistas: domingo é de longe o melhor dia para realizar pequenos consertos nas zonas habitáveis da casa. Isso sem contar a programação televisiva, tão reveladora da vida inteligente quanto o ralo do banheiro é dos costumes de um inquilino. Esse exercício, uma fisioterapia sem a parte terapêutica, tem a finalidade de recuperar os movimentos naturais do corpo, soterrados por falta de prática, preguiça e uma crença excessiva na inesgotabilidade do tempo. Sua metodologia é a de sempre: tentativa e erro. Primeiro os dedos, esses miseráveis do hábito, anões da terra média. Apontam sempre o mesmo caminho. Cavam a rocha dura como ninguém. Escória dáctila. Agora é diferente. Um de cada vez, sem tanta pressa, vão navegar no contrafluxo das horas bem gastas. Estão obrigados a mostrar outras direções. Querem sempre alcançar, prender, beliscar, perfurar e deslizar, empurrar e massagear. Não se satisfazem com pouco. Às escondidas, rumin...

O extravagante locatário

Ainda sobre o mesmo e único tema, o abraço.  Num segundo impossível, desses que só existem por mero capricho de humor celeste, fui ao início do ano e voltei. Desconsiderando a possibilidade de que qualquer fato de grande repercussão possa acontecer até dezembro, o que não deixa de ser um convite aberto e cheio de esperança a que toda sorte de coisas estranhas ainda ocorram em dois meses, passei a limpo 2013.  O que descobri nesse ano em que o tomate vilanizou o índice da inflação, o Brasil goleou a Espanha e as ruas se transformaram no Grande Guichê da Revolução?  O óbvio: fui morador de mim mesmo. Inquilino de um imóvel cuja escritura me pertencia. O extravagante locatário do próprio corpo.  O que isso quer dizer exatamente, eu não sei. E presumo que ninguém jamais saiba direito onde e quando vai poder descansar a perna. Arrisco, porém, uma conclusão preliminar: ao tentar recuperar uma trajetória ou um objeto, restituindo-lhe cor e sombra, devolvendo-lh...

Abraço

Agora é minha vez de falar: estranho mesmo, se quer saber, é voltar no tempo, como tenho voltado com tanta frequência, e reencontrar tudo que foi dito e de lá não extrair uma vírgula de sinceridade. Nada. Um farelo de sentença honesta, uma porção miúda do que pensei seria a paisagem natural. Então descubro: não há paisagem natural. Cada volta é uma viagem diferente. Comparei fotografias, medi sorrisos, esquadrinhei abraços, cruzei as mesmas ruas, avaliei declarações de teor semelhante – acredite, nada é como antes. O clichê venceu. Acabo de retornar de uma dessas viagens estranhas em que temos a opção de descer do carro e caminhar horas a fio por uma cidade exclusivamente imaginada por nós. Sabe o que encontrei? O nada. Pra onde virava, dava com a cara na parede. O pior: eu gargalhava. Gargalhava na encruzilhada. Gargalhava nas esquinas. Gargalhava nos balcões dos bares que ainda guardavam marcas de cigarros.   Nessa cidade tão vazia deparei, no entanto, com alg...

Javalis não transpiram

Javalis não transpiram, foi o que ouvi quando a jornalista encarou o javali como se precisasse dizer algo realmente importante. Então soltou essa: javalis não transpiram.  Estava comendo, melhor, esperando comer. Pedira o de sempre, filé à parmegiana, o prato mais rápido do restaurante. A jornalista, melhor, a Glória Maria, vestida com roupas de repórter aventureiro em visita a algum país exótico, celebrava a diversidade da fauna desse país exótico etc. Foi aí que disse: javalis não transpiram.  Tive pena ao imaginar cada um dos poros daquele animal tão bonito a sua maneira. Cada orifício obstruído pelo arbítrio da natureza. Suando pra dentro. A temperatura do corpo à mercê de um mecanismo de compreensão ainda mais estranha que o nosso.    Javalis não transpiram, repetiu Glória Maria. Era como se dissesse: vejam como cada segundo de vida pode ser uma doce confusão entre o que queremos e o que podemos ter.  E t udo isso só fez aumentar a solidariedad...

Toda a água

Antes de sair de casa, tomou outra xícara de café. Apanhou uma caneta e prometeu guardar silêncio ao longo das próximas horas, fizesse chuva ou sol, morressem pandas ou não. Os pensamentos assim, empurrando-se uns aos outros, como refugiados a desembarcar de um navio à beira do naufrágio. Saiu. Voltou. Tinha esquecido o mp3, que pôs na mochila. Abriu a geladeira mais uma vez. A garrafa cheia, tudo guardado, faltavam cervejas, poucas frutas, nenhum chocolate, azeitonas vencidas, escassez de iogurte, hambúrguer congelado, uma panela destampada. A água sempre com esse gosto estranho, um sabor metálico, cheia de temperos. Considerou tomar outro banho, colocar outra roupa, embarcar noutro ônibus e descer noutro ponto. Devolveu o mp3 à mesa. Tampou a panela. Comeu uma azeitona. Gostou do sabor. Abriu a janela. Esperaria que a chuva molhasse tudo.