Pular para o conteúdo principal

Tudo que há nesse intervalo



O que não disse ainda é que, como o sorriso, o abraço divide-se em muitos tipos, cada um deles correspondente a diferentes pessoas, cada pessoa mais inclinada a no máximo duas categorias de abraço, uma formal e outra informal, podendo combiná-las e recombiná-las a seus próprios gosto, desejo e vontade.

Por ordem de lembrança, há as pessoas que abraçam inteiras, as que abraçam de banda, as que mantêm uma distância protocolar do abraçado, as que jamais abraçam, as que complementam o abraço com um beijo, as que premiam o abraçado com um beijo e uma carícia no rosto, as que deitam a cabeça no ombro de quem abraçam, as que grudam peitos e barriga num enlace que é quase o princípio de outro abraço, as que abraçam pela cintura, as que abraçam por cima dos braços, as que abraçam na diagonal, as que abraçam deitadas, as que abraçam à força, as que abraçam com força, as que chegam a um passo do abraço, as que invejam o abraço, as que desistem do abraço, as que abraçam sem braços, as que nunca abraçam depois do sexo, as que abraçam de costas, as que seguram o outro como se fossem sacudi-lo, as que, passado o tempo do abraço, continuam abraçadas, as que escolhem a quem abraçar, as que jamais endereçam o abraço, as que privatizam o abraço, as que leiloam abraço, as que vendem abraços, as que distribuem abraços, as que não veem a hora de abraçar, as que temem a obrigação do abraço, as que enxergam no abraço uma gesto postiço, as que fazem do abraço uma costura entre botões de casas separadas, as que constroem um abraço dia após dia, as que rejeitam um abraço todos os dias, as que repreendem o abraço, as que erotizam o abraço, as que fecham os olhos no abraço, as que colam rostos no tempo de vigência do abraço, as que se demoram no abraço mais que o permitido, as que juram amor no abraço, as que odeiam o abraço, as que começam tudo no abraço, as que terminam tudo no abraço

E a lista ainda é pequena para tudo que há nesse intervalo. 

Postagens mais visitadas deste blog

Projeto de vida

Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...

Cidade 2000

Outro dia, por razão que não vem ao caso, me vi na obrigação de ir até a Cidade 2000, um bairro estranho de Fortaleza, estranho e comum, como se por baixo de sua pele houvesse qualquer coisa de insuspeita sem ser, nas fachadas de seus negócios e bares uma cifra ilegível, um segredo bem guardado como esses que minha avó mantinha em seu baú dentro do quarto. Mas qual? Eu não sabia, e talvez continue sem saber mesmo depois de revirar suas ruas e explorar seus becos atrás de uma tecla para o meu computador, uma parte faltante sem a qual eu não poderia trabalhar nem dar conta das tarefas na quais me vi enredado neste final de ano. Depois conto essa história típica de Natal que me levou ao miolo de um bairro que, tal como a Praia do Futuro, enuncia desde o nome uma vocação que nunca se realiza plenamente. Esse bairro que é também um aceno a um horizonte aspiracional no qual se projeta uma noção de bem-estar e desenvolvimento por vir que é típica da capital cearense, como se estivessem oferec...

Atacarejo

Gosto de como soa atacarejo, de seu poder de instaurar desde o princípio um universo semântico/sintático próprio apenas a partir da ideia fusional que é aglutinar atacado e varejo, ou seja, macro e micro, universal e local, natureza e cultura e toda essa família de dualismos que atormentam o mundo ocidental desde Platão. Nada disso resiste ao atacarejo e sua capacidade de síntese, sua captura do “zeitgeist” não apenas cearense, mas global, numa amostra viva de que pintar sua aldeia é cantar o mundo – ou seria o contrário? Já não sei, perdido que fico diante do sem número de perspectivas e da enormidade contida na ressonância da palavra, que sempre me atraiu desde que a ouvi pela primeira vez, encantado como pirilampo perto da luz, dardejado por flechas de amor – para Barthes a amorosidade é também uma gramática, com suas regras e termos, suas orações subordinadas ou coordenadas, seus termos integrantes ou acessórios e por aí vai. Mas é quase certo que Barthes não conhecesse atacarejo,...